Afonso Lopes
Afonso Lopes

O grande desafio do prefeito

O goianiense já teve orgulho de morar e fazer uma das mais agradáveis capitais do país. É possível voltar aos bons tempos?

Praças enfeitadas com flores foram orgulho dos goianienses: asfalto e concreto não suprem a humanização da cidade | Foto: Divulgação

Praças enfeitadas com flores foram orgulho dos goianienses: asfalto e concreto não suprem a humanização da cidade | Foto: Divulgação

Cidade das flores, capital da eterna primavera, capital mais aprazível para se viver, orgulho de cada goianiense. Foi assim, acredite!, que Goiânia era descrita por seus habitantes durante muitos anos. Aliás, não somente por seus moradores, mas também pelos visitantes, que se encantavam instantaneamente quando aqui chegavam.

E hoje, como estão as coisas? Nada bem. Há mais de uma década, Goiânia vem passando por severas mudanças. Para pior. O trânsito, que nunca foi severamente complicado, não consegue mais fluir, especialmente nos chamados horários de pico. Os antigos canteiros de flores que “infestavam” as ilhas de avenidas e praças, desapareceram. E ai de quem, seduzido pelas cores e perfumes, ousava colher uma só flor nesses canteiros públicos. Era repreendido imediatamente. Época em que as árvores eram cuidadas, preservadas. E não apenas pela Prefeitura, mas também como fator de orgulho dos moradores. Era cena bastante comum em toda a cidade observar cidadãos plantando e regando novas mudas em toda a cidade.

Havia inúmeros problemas também, é claro. As cidades são muito mais vivas do que seus prédios, casas, praças, ruas e avenidas, e a cada momento surgem novos desafios. A grande diferença, possivelmente, é que antes a preocupação era inicialmente com o bem estar das pessoas. Hoje, a impressão que aflora é que o principal objetivo é o concreto e o asfalto. Assim, prédios imensos são erguidos em locais já completamente entupidos de gente e de carros, praças são cortadas e picotadas como se fossem elas as culpadas pelos problemas do trânsito de veículos. Prioriza-se o objeto e não o sujeito. Essa, pelo menos, é a impressão que se pode ter.

Essa visão administrativa explica muito das mudanças que se constata. Programas sociais que integravam populações em risco foram descartados. Para não se alongar em inúmeros exemplos, basta citar dois deles: o Trabalhando com as mãos e a Escolinha de Esportes Draulas Vaz. Também havia o Cidadão 2000, que atendia crianças. Nada disso existe mais, ou diminuiu muito sua abrangência, como é o caso da Escolinha de Esportes.

Mas por quê, se não por mero saudosismo, esta Conexão fala tanto sobre o passado? Porque esse é o maior desafio que não apenas o próximo, mas os próximos prefeitos de Goiânia precisam enfrentar. É preciso devolver a capital a sua vocação original, que jamais deveria ter sido abandonada. Não há qualquer solução que leve à melhor qualidade de vida da população que passe somente pelo concreto e pelo asfalto.

Assim, programas de integração social devem ser repensados e implantados. Não como mera bandeirola de marketing administrativo, mas como melhoria para inúmeros problemas, inclusive, numa visão alargada de abrangência, a violência urbana. Não se deve também criar esses programas de integração social com a visão equivocada de se estar promovendo justiça social. Não é sequer um fator de compensação social. É, isso sim, adequar a vida urbana ao bem estar de todos.

Recolher lixo doméstico, industrial e hospitalar é rotina. Asfaltar ruas também é. E para fazer isso basta ter dinheiro em caixa. Qualquer um pode fazer. O que Goiânia precisa é de um prefeito que cuide do bem-estar de uma maneira integral. É claro que uma cidade limpa, bem asfaltada e dotada de certa estrutura é basilar na qualidade de vida. Mas se limitar a isso é robotizar demasiadamente a visão que se pode ter sobre o que realmente é bem-estar. Um programa de integração das pessoas idosas que os incentive a sair do marasmo dos anos finais de vida é muito mais importante do que qualquer outra coisa.

Assim como albergues ambientalmente saudáveis para abrigar a população maltrapilha das ruas não podem ser trocados por mais alguns metros de asfalto ou pelas marquises privilegiadas de novos edifícios. A cidade, obviamente, precisa crescer, mas não pode se tornar uma enorme prisão engarrafada por semáforos onde a vida se esvai sem qualquer valia. Como também não deve ser o centro urbano do terror e do medo não apenas gerado por criminosos, mas pelo constante mau humor geral causado por tanto estresse.

O próximo prefeito de Goiânia, se tiver mesmo a boa intenção de se tornar útil diante do futuro a curto, médio e longo prazos, precisa devolver a motivação para que o goianiense volte a ter orgulho do lugar onde vive. Valorizar o espaço livre para a cidadania deve ser o objetivo, e isso não pode se submeter ao interesse econômico imediatista. Antes de se permitir um novo grande e moderno edifício ou se projetar a abertura de novas avenidas é necessário responder claramente se a qualidade de vida vai melhorar ou piorar com tais obras. E, quando for o caso, dizer não ao poder econômico que despreze o bem-estar de cada um e de todos ao mesmo tempo. É certo que o povo não come flores, mas é óbvio que a alma se alimenta delas. Goiânia precisa voltar a viver. Esse é o grande desafio.

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