Afonso Lopes
Afonso Lopes

O fator Eliton no PSDB

Pouso do vice-governador no ninho tucano é parte da engrenagem eleitoral que está sendo preparada para sucessão estadual

Enquanto a oposição sonha com alguma coisa que ainda não aconteceu, a base aliada estadual vai se preparando para uma das mais importantes sucessões desde a histórica vitória de 1998. Ao contrário do que se percebe entre os opositores, com problemas internos tão sérios de relacionamento entre os partidos e até dentro deles, como é o caso do PMDB que mais uma vez passa por processo de expurgo interno, a base aliada afina o compasso em torno de uma grande tessitura política que envolve diretamente alguns dos mais importantes cargos públicos do Estado, o de vice-governador e o de senador. Essa operação visa garantir tranquilidade interna na disputa sucessória e união de todas as forças partidárias que integram o grupo.

Em tese, o que o Palácio das Esmeraldas faz, mais uma vez, é antecipar-se para contornar possíveis desencontros futuros. A definição do candidato à sucessão do governador Marconi Perillo é exatamente o ponto a ser alcançado. Filiado ao PP, o vice-governador José Eliton é nome natural da base para a disputa até pelo fato de que estará muito provavelmente no exercício do cargo de governador diante da esperada desincompatibilização de Marconi, que deve continuar construindo viabilidade em nível nacional, para ser candidato a senador, vice ou presidente da República.

Também em tese, não haveria neste momento qualquer problema com a naturalidade da candidatura de José Eliton mesmo estando ele no PP. Mas as coisas na política podem acontecer de uma maneira rápida demais para não se levar em conta outras possibilidades, como um dos muitos e importantes partidos da base reivindicar essa candidatura ao governo porque o PP teve a oportunidade em 2006, com Alcides Rodrigues. Filiado ao PSDB, maior partido da base aliada, essa mera possibilidade seria abortada desde já.

Ao mesmo tempo, tirar o vice-governador do partido poderia ferir suscetibilidades em nível nacional. É aí que entra em cena uma outra engrenagem dentro dessa construção. O senador Wilder Moraes está no DEM e integra a base, ao contrário do seu presidente regional, o também senador Ronaldo Caiado, hoje principal aliado do PMDB. Wilder não se sente a vontade diante dessa situação. Além disso, como herdeiro de mandato — o titular era Demóstenes Torres, cassado em julho de 2012 — Wilder acaba ofuscado internamente por Caiado, o que compromete o trabalho que ele terá que fazer para se tornar mais conhecido do grande eleitorado estadual. No PP, e como único senador pelo Estado, Wilder seria naturalmente alçado à condição de principal estrela da casa, e passaria a frequentar os holofotes com mais frequência, criando assim a chance de quebrar seu anonimato eleitoral.

Para Marconi, essa operação toda envolvendo Eliton e Wilder seria uma estrada natural para seu retorno ao cenário nacional, seja como candidato ao Senado seja como candidato na chapa presidencial. Deixando a situação pacificada dentro do processo de sua sucessão no Estado, ele passa a compor nacionalmente com muito mais desenvoltura. E, para Marconi, essa projeção não depende inclusive de ele disputar o Senado ou como integrante da chapa nacional. Se for confirmado para o Senado, por exemplo, seu nome, em caso de vitória da oposição, certamente ganhará força para a Presidência da Casa ou para integrar o ministério do futuro presidente.

Mas é claro que tudo isso funciona corretamente no papel, na teoria política. Querendo ou não, a viabilidade da base aliada estadual depende, como sempre, do sucesso administrativo do governador. Este ano, com a monumental crise econômico/financeira provocada pelo chamado ajuste fiscal do governo federal, e que entre outras coisas atirou o país todo numa brabíssima recessão, não tem sido fácil, apesar da redução da máquina administrativa como um todo. Essa situação poderá sofrer uma guinada caso se confirmem as expectativas federais sobre a privatização da Celg. O reforço no caixa estadual poderá ficar em torno de 5 bilhões de reais, dinheiro suficiente para, mantidas as condições atuais, tornar o Estado numa referência de crescimento econômico mesmo diante da pasmaceira recessiva.

Toda essa engenharia política na base aliada mostra que o grupo permanece como protagonista em Goiás. Não apenas pelos próprios méritos, que são inegáveis, mas também porque os opositores não conseguem se acertar. O exemplo é esse contraste atual, com o Palácio das Esmeraldas “ciscando para dentro” enquanto o PMDB vai “ciscando” seus prefeitos do interior para fora.

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