Afonso Lopes
Afonso Lopes

O difícil jogo na “sala de cristais”

Na complicada fase de negociações com o MDB, candidatura do senador Ronaldo Caiado movimenta-se com cuidado para não agir como um orangotango em loja de cristais

Daniel e Caiado: sorrisos só para fotos | Foto: divulgação

Olhando de longe, tem se a impressão que o senador Ronaldo Caiado, em sua tentativa de disputar com chances reais de vitória o governo do Estado, surfa ondas tranquilas, sem medo de ser turista em praias estrangeiras. Ele transita dentro do MDB como se estivesse em casa, e não como um ilustre visitante. Essa visão distanciada cria efeito ótico curioso: em determinados momentos, parece que o democrata é mais emedebista do que a própria cúpula do partido em nível regional, entenda-se neste aspecto como cúpula maguitista.

O olhar mais atento e apurado identifica mais detalhadamente aquilo que ultrapassa a visão, digamos, “prismada” do atual processo. O senador Ronaldo Caiado tem agido com bastante energia, mas com cuidado total para não se transformar num orangotango político dentro de uma sala lotada de cristais egolizados e adornados pelo poder político interno. Ele sabe que basta uma frase menos pensada e mais emocional para implodir de dentro pra fora qualquer possibilidade que ainda exista de unidade DEM/MDB – necessariamente nessa ordem – para as eleições deste ano. É um jogo político para poucos, sem nenhuma dúvida. Vai muito além do xadrez, como se costuma comparar as articulações político-eleitorais. Exige concentração, suor, paciência e, principalmente, cuidado em relação às suscetibilidades dos “adversários” da mesma trincheira.

O senador democrata não é nenhum neófito, e acumula vasta experiência eleitoral. Em 1989, disputou a Presidência da República empunhando uma bandeira a bordo de um cavalo branco. Seu desempenho não foi legal. Mais recentemente, em 2006, diante de uma base aliada estadual bastante fragilizada pela candidatura difícil de engolir do então vice-governador Alcides Rodrigues, que jamais havia recebido votação expressiva além das fronteiras de sua cidade, Santa Helena de Goiás, no Sudoeste, Caiado foi o principal apoio e articulador da fracassada candidatura do então bastante popular senador Demóstenes Torres. Agora mesmo, nas eleições de 2014, que o levaram à troca de cadeira entre a Câmara dos Deputados e o Senado Federal, foi eleito graças ao acordo que ele conseguiu articular com o MDB de Iris Rezende, o que rompeu o isolamento criado a partir de seu abandono das hostes da base aliada estadual do governador Marconi Perillo. Sua vitória, que era dada como líquida, certa e tranquila dois anos antes, anterior até ao acordo com o MDB, demonstrou claramente, pelo “aperto” que Vilmar Rocha lhe impôs na votação, que dificilmente ele conseguiria se eleger sozinho. Portanto, mais do que muitas outras lideranças políticas estaduais, Ronaldo Caiado sabe que suas chances como candidato encurralado num beco solitário tem chances remotas de êxito.

O democrata sabe que carregar bandeira sozinho nas eleições para o governo do Estado é uma caminhada morro acima o tempo todo, sem direito à pausa para retomada do fôlego. Na política, qualquer andorinha percebe que o inverno é permanente até que se junte ao restante da turma. Caiado não é, nessa analogia, uma andorinha, mas em relação à uma candidatura isolada, o verão pode se tornar inalcançável.

É com o objetivo de se juntar à turma medebista, a única possível no mercado político-eleitoral do Estado, que ele vem se comportando. Tem utilizado as forças e articuladores internos que lhe são favoráveis, principalmente Iris Rezende. O prefeito não é somente seu aliado de primeira hora, mas também tem em Caiado um troco na mesma altura e dimensão. Recentemente, demonstrando ter claramente esse cenário bem esquadrinhado em seu modo de ver as coisas no conturbado ambiente medebista, Caiado jogou a definição de todo o processo que poderá atingir a tal união DEM/MDB na direção de Iris. É seu sonho de consumo, é claro. O problema é que Iris deixou de ser a liderança que já foi, e perdeu o necessário reconhecimento de isenção. Então, a legião maguitista, mesmo que o prefeito entenda que a candidatura de seu aliado Caiado possa ser melhor colocada no processo eleitoral, dificilmente aceitará que a definição passe pelo Palácio do Cerrado Venerando de Freitas Borges. Nesse caso, e se isso se tornar decisivo, os maguitistas provavelmente vão se utilizar do maior poder de fogo que dispõem: a cúpula nacional do MDB.

Ciente de toda a complexidade desse quadro, e da indefinição que dele oriunda, Ronaldo Caiado faz o possível para agir com calma, prudência, e seguir em frente. Evitando esbarrar em algum cristal, e sem bater o pé, o que desencadearia uma reação interna que detonaria completa e imediatamente essas negociações. A sala de cristais não suporta movimentos bruscos.

Deixe um comentário