Afonso Lopes
Afonso Lopes

O dia em que o PT foi vaiado

Manifestações favoráveis são muito complicadas. Geralmente, o apoio é sempre pequeno, mas o que aconteceu quinta-feira, 20, se tornou histórico

A história partidária do Brasil virou a página. Diga-se, uma das mais densas dentre todas. Como dizia o velho líder petista quando na Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, nunca antes na história deste país um momento histórico se tornou tão absolutamente claro mesmo no presente. Na quinta-feira, 20, ao convocar seus sindicalistas para lotar as ruas, e usar inclusive seu horário político no rádio e na TV para mobilizar, o PT pretendia demonstrar sua velha e conhecida força. O resultado foi exatamente o oposto disso. Jamais o PT foi tão fraco como agora ele é.

Mas o que levou dirigentes do maior partido de massas do país a convocar uma manifestação nas ruas a favor do governo? Certa­mente, e isso estava previsto, seria um fiasco total, como foi. A começar pela bipolaridade do discurso. Ao mesmo tempo em que os manifestantes criticavam as medidas adotadas pelo governo tinham que entoar um canto de guerra em defesa desse mesmo governo. Quem entende uma coisa dessas? O fiasco estava mais do que previsível diante de todas as pesquisas de opinião, que revelam um mau humor incrível contra o governo e também contra a governante. E ao sair às ruas com discursos antagônicos, os próprios manifestantes disseram, em outras palavras, que engrossam as fileiras da esmagadora maioria que a desaprova.

O PT e seus poucos manifestantes foram vaiados nas ruas. Logo eles que tanto vaiaram a tantos e por tanto tempo.

Não se sabe exatamente o que esse fato indiscutível vai provocar internamente no PT. Talvez, como sempre, procurem culpados externos. Os primeiros da extensa lista de “culpados” são Eduardo Cunha, o denunciado presidente da Câmara dos Deputados, Renan Calheiros, velho conhecido do rol de suspeitos da República, e, claro, o juiz Sérgio Moro, o inabalável técnico da Justiça que tem conduzido a maior operação de caça a corruptos da história do país. Para fechar, acrescente-se aos culpados externos parte da imprensa e a direitona “golpista”. Ou seja, se são esses os culpados, o PT não teria culpa nenhuma.

É uma pena ver o que está acontecendo. Independen­temente de ser contra ou favorável ao PT, o partido era até então o mais consolidado do país. Isso numa democracia que tem legendas demais, e quase nenhum partido. As instituições democráticas não se enfraquecem com partidos fracos, mas certamente a relação democrática do povo brasileiro não amadurece como deveria amadurecer sem partidos, de todas as tendências, realmente fortes e consolidados. É nesse ponto que pode-se lamentar o ocaso petista.

Não há um só país democrático no planeta sem partidos consolidados. Eles funcionam como referências para as questões de fundo que orientam as ações políticas em uma direção ou na direção oposta, independentemente dos nomes dos políticos. É o que ocorre, muito claramente, nos Estados U­ni­dos, por exemplo. São dois partidos apenas, mas que se colocam em trincheiras opostas, à direita e à esquerda. Com isso, se tornam referenciais bastante claros para que a população opte por um ou pelo outro.

No Brasil, com suas legendas e sem partidos, a opção passa a se dar em nível pessoal. É fato que o cidadão faz a sua escolha mirando o candidato e não uma possível corrente de pensamento político. Ao contrário do que poderia parecer, isso não é bom do ponto de vista do amadurecimento democrático.

Mas essa é a realidade brasileira, um país que historicamente passou tempo demais sob regimes ditatoriais. Talvez ainda passe um tempão e inúmeras crises políticas e econômicas até que se atinja um patamar superior na convivência democrática dos cidadãos. Essa é a esperança, que ficou um pouco mais tênue com o ocaso do PT. Certamente, ficamos um pouco mais distantes da possibilidade de termos governos à esquerda e, depois, à direita, e novamente à esquerda, e à direita de novo. Vamos continuar tendo como referência fulanos e beltranos. Democraticamente, essa é a relação mais pobre que se pode ter.

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