Afonso Lopes
Afonso Lopes

O ano novo que nasce velho

Com a prática de irresponsabilidade fiscal desde 2009, governo federal começa ano sem resolver os velhos problemas que causaram a crise mais grave de toda a história

Reprodução

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“Nunca antes na história do Brasil”, disse o ex-presidente Lula da Silva inúmeras vezes para endeusar sua própria administração. Em alguns pontos ele estava coberto de razão. O Brasil sob o seu comando se manteve centrado na responsabilidade fiscal e garantiu a superação de graves crises intermitentes que o real enfrentou desde o seu lançamento. Também sob o governo Lula se conseguiu uma notável migração social, com ascensão, de uma larga parcela da população que atravessou décadas de asfixia econômica por conta de falsos milagres na economia. O real estabilizou o valor do dinheiro e Lula conseguiu redistribuí-lo melhor. É óbvio que não se obteve tudo aquilo que a propaganda lulista pregou, nem se atingiu o melhor desempenho mundial nesse aspecto, mas não há como desconhecer uma nítida decisão política de permitir o crescimento da riqueza nacional através do mais óbvio e salutar meio para isso, que é a absorção de uma massa de novos e ávidos consumidores.

O problema surgiu depois. Talvez por ter acreditado na própria criação do mito, Lula desandou a partir de 2008/2009. A gravíssima crise econômica que abateu o Brasil vergonhosamente este ano começou lá, quando o governo de Lula passou a bancar políticas sem qualquer sustentação e, pior do que isso, elegeu fatores preponderantes apenas do ponto de vista do marketing e da política de favorecimento de alguns poucos em detrimento de quase todos.
Foram os tempos dos chamados campeões nacionais, formado por grupos econômicos frágeis que se tornaram locomotivas dependentes do dinheiro dos impostos. Para dar sustentação mercadalógica para a farsa econômica, ampliou-se a política da distribuição de benesses sociais sem o devido respaldo financeiro, e deu-se então o desprezo pela ordem fiscal do governo. Tempos em que se incentivou a divisão interna da sociedade entre “nós e eles”, como o que está se vendo atualmente de maneira até exacerbada.

Na economia não existem meias verdades. Ou é ou não é. E não era. Cada vez mais distante da rigidez fiscal que permitiu uma até então inédita união nacional, a distribuição melhor das riquezas e a ascensão social das periferias tendo no bolso uma moeda estável, o governo Lula enveredou de vez para a edificação da crise, e adotou medidas paliativas para evitar a bancarrota imediata. Lançou PACs aos montes como se fosse esse o problema detectado pelos evidentes sinais do mercado de que as coisas não estavam mais centradas. Fabricou-se na artificialidade números que sempre se soube insustentáveis. Ou é ou não é. Como não era, passou a ser apenas uma questão de tempo.

Dilma Rousseff, a ungida de Lula que o PT inicialmente rejeitou, poderia ter tentado segurar o rojão que lhe foi dado como herança. Por incompetência gerencial ou por absoluta falta de traquejo nas relações políticas, ela apenas manteve o castelo de areia que se moldou como economia brasileira. Não foi por falta de aviso. Até uma revista internacional especializada em economia chamou a atenção para aquilo que estava em andamento sob a direção sempre cordata do então ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Nada, nenhum aviso foi levado a sério. É como se o comando do país estivesse tão absorto em seus devaneios que nada mais era do que uma “marolinha” de versão oposicionista aqui e lá fora. E então veio o baque logo após as eleições do ano passado. A realidade econômica superou a fantasia.

O ano que nasceu carrega como herança os velhos problemas não resolvidos, e que a cada momento se descobre serem maiores. Os esqueletos nos armários do comando da economia do governo Dilma ultrapassa qualquer limite de sensatez primária. Aliás, problemas que vieram do período anterior a ela inclusive. A Controladoria-Geral da União (CGU) descobriu, por exemplo, que o superávit primário obtido em anos passados não foi usado, como deveria ter sido, na enorme dívida pública. Até esse tipo de coisa aconteceu.

Um dos problemas do ano velho que desembarca no ano novo é o impeachment. Dilma e seu governo ganharam tempo com a decisão majoritária do Supremo Tribunal, que na prática reinventou o sistema bicameral brasileiro ao determinar que um processo assim é zerado quando bate às portas do Senado após ser aprovado pela Câmara dos Deputados. Ganhar tempo não significa vitória definitiva. A sensação que se tem é que para a população, ser presidido por Dilma, Temer, Renan ou qualquer um é a mesma coisa. Tornaram-se todos farinha de um mesmo saco. Para sair desse lodaçal político, a presidente precisa se não solucionar a crise, pelo menos dar sinais de que o governo consegue se mexer. Do jeito que está a administração do país, completamente à deriva, a tese do impeachment ressurgirá com mais força ainda. No mesmo diapasão da crise econômica. Quanto mais a forca apertar o bolso, mais ainda se apertará o torniquete em torno do impeachment. A população suportou todos os desaforos possíveis, mas isso acabou.

Dilma conseguirá algum rumo correto para seu governo e para o país? Pode ser que sim, mas não está nada fácil. Falta a ela capacidade gerencial, e esse é um problema bastante sério. Tão sério quanto todos os demais que permitiram que a crise viesse com tamanha violência. Provavelmente, a presidente Dilma tem mais uma chance para manter seu mandato. Só mais uma. Ou acha-se um rumo, ou ela “vai pegar o rumo de casa” porque certamente a população brasileira, em sua esmagadora maioria, não chegará a 2017 com os mesmos problemas de 2015.

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