Afonso Lopes
Afonso Lopes

O ano de ponta-cabeça

Os brasileiros chegam aos últimos dias de dezembro com a sensação de alívio e alguma esperança. Não foi fácil

Paulo Garcia diz deixar uma prefeitura em boas condições, mas Iris Rezende vai receber uma pesada herança | Fotos: Ângela Macário / Fernando Leite/Jornal Opção

Paulo Garcia diz deixar uma prefeitura em boas condições, mas Iris Rezende vai receber uma pesada herança | Fotos: Ângela Macário / Fernando Leite/Jornal Opção

Se em 2015 uma geração de brasileiros foi devidamente apresentada à recessão econômica, 2016 foi um ano que começou sob forte agitação, passou por uma certa onda de otimismo, mas chega ao fim de maneira melancólica. Dificilmente, a não ser por razões individuais, alguém sentirá saudades dessa duplinha infernal, 2015/2016.

O primeiro semestre foi inteiramente dedicado e agitado pelo impeachment da presidente Dilma Roussef. Jamais se viu tanta gente nas ruas. Na Câmara, protagonista inicial do processo de impeachment, o hoje cassado e preso deputado Eduardo Cunha reinava e ditava os rumos. A economia estava uma bagunça só. O governo também derretia e não conseguia articular qualquer solução que apontasse para uma melhoria. Ao contrário, os brasileiros olhavam incrédulos para a carestia desenfreada que ainda devorava ferozmente salários já achatados ou pelo rodízio no emprego ou pela demissão pura e simples. Aprovado na Câmara, Dilma tentou resistir no Senado, mas seu isolamento era total. A crise econômica, alimentada pelo governo Dilma 1 comeu o mandato de Dilma 2.

Michel Temer, o vice, assumiu a Presidência e nomeou uma nova equipe econômica, chefiada por Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central nos governos Lula. Começou bem, adotando o que ele próprio chamou de realismo econômico, linha antagônica das falcatruas e mirabolâncias fiscais do governo Dilma. Esse realismo animou não apenas os analistas econômicos, mas deu um certo alívio e esperança para a população. O dólar, que ameaçava permanecer acima de R$ 4,00, caiu sistematicamente até chegar à cotação atual, em torno de R$ 3,35. Mas… A taxa referencial dos juros, a Selic, foi mantida na estratosfera, sinal evidente de que nem a própria equipe econômica acreditava que o pior já havia passado.

E não passou mesmo, não. A inflação voltou a se comportar com alguma dignidade, embora esteja no teto da meta, mas o custo de vida elevado, os juros bancários e dos cartões de crédito, o alto endividamento tanto de empresas como dos consumidores, continuam provocando estragos no nível de emprego. Tudo somado, nem mesmo a PEC que limitou os gastos do governo por 20 anos conseguiu servir como alento. Falta mexer na estrutura do vespeiro, a Previdência Social. A proposta apresentada pela equipe econômica, de idade mínima de 65 anos e 49 anos de contribuição, é intragável. O problema é que quem está contra não apresenta alternativa. Ou seja, há ainda muito caminho para andar.

É claro que esse quadro geral negativo em Brasília teve repercussões Brasil a fora. Alguns Estados faliram, como Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Quem conseguiu se manter teve que cortar fundo no tamanho da máquina, casos de Goiás e Mato Grosso do Sul. Outros 16 Estados vivem um sufoco tão grande que não sabem quando vão conseguir pagar o 13º salário dos servidores.

A pior crise econômica não conseguiu “matar” Goiás, mas as previsões para o primeiro semestre de 2017 não são nada boas. A pressão vai continuar, embora em escala — espera-se — cada vez menor. É por essa razão que o Estado optou por apertar o cinto mais um pouco. É uma solução dolorida e amarga, mas é a única possibilidade de escapar do colapso total. Como destacou o jornal “O Estado de S. Paulo”, os demais Estados vão ter que copiar o modelo de cortes feitos em Goiás.

A situação dos municípios também é ruim, mas em algumas cidades a crise parece ser muito maior. Aliás, não apenas parece maior. Ela realmente é bem maior. No caso de Goiânia, o problema não foi criado a partir da recessão. Ele foi agravado durante todo o mandato do prefeito Paulo Garcia. A Prefeitura conseguiu erguer algumas obras de grande porte, como os viadutos na marginal Botafogo, mas se descuidou das obrigações do cotidiano. A crise do lixo, que explodiu no início do mandato, jamais foi inteiramente equacionada. Melhorou muito, mas a cidade permanece com a sensação de que está encardida. Perdeu o brilho que exibia antigamente. Nesta reta final de governo, a penúria é tamanha que acabou a massa asfáltica para tapar os zilhões de buracos que arrombaram o asfalto em ruas e avenidas. Na Saúde, doentes renais crônicos vivem apavorados pela incerteza em relação às sessões de hemodiálise. A Prefeitura tem atrasado sistematicamente o repasse devido para as clínicas.

Essa é a herança que o prefeito Iris Rezende irá assumir em uma semana. Paulo Garcia diz que vai entregar a Prefeitura melhor do que a recebeu do próprio Iris. O prefeito eleito diz que a sua equipe de transição não teve total acesso à situação do cofre, mas o que já viu é próximo do caos. Esse bate-boca entre eles não interessa tanto assim para a população aflita por tantos problemas. O que se espera — e deseja, claro — é que o experiente administrador Iris Rezende, que pela quarta vez vai comandar a Prefeitura, além de ter governado Goiás por dois mandatos, consiga melhorar rapidamente o que está ruim. Não vai ser fácil. Até porque se Brasília não consertar as coisas por lá, Iris terá que apertar ainda mais por aqui.

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