Elder Dias
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Maurício Souza e sua homofobia de perdas e ganhos: menos vôlei, mais política

Só o próprio jogador pode abrir o jogo, mas não seria nada ilógico supor que, diante de ser visto como herói para os bolsonaristas, ele se tornasse candidato

Maurício Souza e a imagem dos quadrinhos que o perturbou, levando-o a ser demitido por não conseguir demonstrar arrependimento sincero | Foto: Reprodução

Dois homens se beijam em uma história em quadrinhos. Um dos personagens é nada menos do que filho do Super-Homem.

O beijo gay e outras interações afetivas de pessoas do mesmo gênero incomoda muita gente por razões que remetem à cultura em que determinada população está imersa. No mundo atual, em grande parte da Europa – notadamente os países nórdicos – e de Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, casais homoafetivos e pessoas não binárias em geral são apenas mais gente na multidão.

Já em outras sociedades, ter outra orientação que não a heterossexual é algo impensável, não só por ser considerado pecaminoso, mas também crime: é o caso da Arábia Saudita e, para dar um exemplo tão extremo quanto, o Afeganistão nas mãos dos talibãs. São as extremidades de um matiz que, nos últimos anos, tem cores intensificadas para o lado dos direitos da comunidade LGBTQIA+.

No meio dessa linha está o Brasil. Um país dividido de tantas formas também está assim em relação ao desenvolvimento “cognitivo-tecnológico”, para tentar encaixar aqui alguma neologia. De um lado, a interação global pelas redes sociais traz, especialmente às gerações mais novas, o contato com pessoas de outras localidades e nações e, com isso, também outras orientações sexuais, mas que estão ali como pessoas muito além de uma simples classificação por gênero, ou cor, ou religião.

Ao mesmo tempo há o Brasil herdado de meados do século passado, com suas raízes elitistas e escravocratas e que tinha um padrão estabelecido do que era ser uma “pessoa de bem”. Geralmente alguém com posses, branco, homem e cristão católico. Uma negra pobre e de religião com origens africanas certamente seria “menos” de bem do que a figura convencional. Imaginemos então acrescer a isso o componente de uma sexualidade fora do padrão naquela sociedade.

Foi nessa sociedade que a maioria dos que hoje são pais e avós foram criados: na escola, os de comportamento afeminado eram invariavelmente reprimidos, na forma do que hoje se chama bullying ou até mesmo fisicamente. A homofobia era praticada largamente, embora o termo ainda não existisse. Quando um dos meninos da turma tinha alguma hesitação, a expressão mais utilizada era: “Cê né homem, não?”.

Sair dessa redoma para enxergar que o outro, espelho físico, não necessariamente é também meu espelho comportamental é algo que precisa ser trabalhado. Uma pergunta não é difícil de ser feita, mas não é fácil respondê-la: “em que” um beijo de outro ou de outra, num homem ou numa mulher, me afeta? “Por que” eu reajo, ainda que internamente, de uma forma diferente a um casal de homens de mãos dadas, em relação a um passeio romântico entre um rapaz e uma garota pela praça?

Esse longo preâmbulo, de vários parágrafos, é para preparar o espírito de modo a tentar entender por que uma imagem que remete ao primeiro parágrafo deste texto provocou uma reação tão pouco empática de um jogador da seleção de vôlei e, a partir daí, uma repercussão desproporcional e uma consequência real – sua demissão de uma das melhores equipes do País – diante de sua não retratação.

Esporte da diversidade
Talvez ao lado da ginástica, o vôlei é no Brasil o esporte mais aberto à diversidade sexual, à aceitação de diversos perfis de afeto. Há jogadoras mais masculinizadas, bissexuais, há mulheres trans, como é o caso de Tiffany; também há atletas assumidamente gays, como Douglas, assim como já houve outros de gestuais mais afeminados. Isso pouco importou diante do desempenho em quadra. Tanto foi assim que Maurício Souza – o jogador que estranhou o beijo homossexual de um super-herói – e Douglas – o gay mais querido da delegação brasileira nos Jogos de Tóquio – estiveram juntos em quadra e, ao que se sabe, foram profissionais, tanto eles como seus colegas.

Maurício, porém, já fazia, há muito, parte do quadro de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido, ainda). Em sua página do Instagram, ele havia publicado recentemente a imagem do beijo gay entre Jonathan Kent, o Super-Homem atual, filho de Clark Kent, e um Jay Nakamura, um ativista hacker. O voleibolista completou sua postagem com a seguinte legenda: “É só um desenho, não é nada demais. Vai nessa que vai ver onde vamos parar”.

Já marcado por outros posicionamentos bolsonaristas – antes das eleições de 2018, posou com o colega de seleção Wallace fazendo o número 17, do PSL, então partido de Bolsonaro –, ele acabou sendo instantaneamente alvo de críticas de outras personalidades, muitas delas colegas de ofício. Entre elas estavam Carol Gattaz, bissexual, da seleção feminina; Maique, gay e seu companheiro de clube; Sheilla e Fabi, ex-jogadoras e medalhistas olímpicas do vôlei brasileiro.

O Minas Tênis Clube, a priori, disse que não se responsabilizava pelas declarações de seus jogadores em suas redes sociais. Mas os patrocinadores não gostaram. A gigante da mineração Gerdau e a montadora Fiat fizeram pressão e o atleta se retratou de uma forma muito pouco convincente, muito mais reafirmando sua posição e lamentando a falta de “liberdade de opinião” do que se desculpando. O resultado foi sua demissão.

Como resposta a seu desligamento, no dia seguinte, Maurício voltou às redes sociais para publicar uma foto de outro beijo do Super-Homem. Mas, dessa vez, dividindo lábios com a Mulher Maravilha. Não é o que se espera de alguém que se diz arrependido de ter “opinado” sobre a sexualidade alheia.

Souza pode encontrar outro clube? Sim, mas quem o receber vai ficar marcado como “acolhedor de homofóbico”. Será que os patrocinadores vão gostar? É uma dúvida que vai pesar nessa hora.

Mas Maurício Souza, o “Mau”, como gosta de ser chamado, não parece se importar. No momento, a carreira que construiu com muita competência – o vôlei nacional é do mais alto nível – está subordinada a seu ímpeto de militância e um quê de deslumbramento: afinal, o caso fez seu número de seguidores no Instagram mais do que dobrar em menos de uma semana; recebeu o apoio de todas as lideranças da extrema-direita do País, da família Bolsonaro a vereadores das grandes capitais. Enfim, tornou-se um herói que o Super-Homem bissexual nunca seria para as hostes “conservadoras”.

Talvez só a cabeça de Maurício Souza possa abrir o jogo com relação a isso, mas, ao que parece, o gigante de 2,09 metros está disposto a deixar de saltar diante das redes das quadras para cair nos braços da torcida eleitora em 2022.

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