Afonso Lopes
Afonso Lopes

Marconi continua vários anos à frente

Principal frente da oposição em Goiás, lideranças peemedebistas não conseguem projeção

Foto: Leo Iran

O tucano Marconi Perillo age com foco enquanto seus adversários martelam temas de forma inadequada | Foto: Leo Iran

A situação econômico-financeira em todos os Estados do Brasil é muito preocupante. Aliás, vai além disso: é desesperadora. A rigor, não há uma só unidade da Federação real e completamente equilibrada. Algumas estão em situação muito mais grave, mas sem refresco para ninguém.

Em situações assim, seria natural que os opositores conseguissem encontrar facilidade para reverberar suas críticas. Em Goiás, isso não acontece. O discurso oposicionista se perde num emaranhado de questiúnculas e permanece restrito, de pouca abrangência no poder de ocupação da opinião pública. É certo que há entre a população a nítida convicção de que a fonte dos problemas é a crise econômica nacional. Portanto, de muito maior responsabilidade do governo federal. Ainda assim, seria possível aflorar um espírito mais crítico também em nível regional. Mas por que isso não acontece?

Oposicionistas sacam na mesma hora o velho argumento surrado de que o governo tem a imprensa no bolso. Portanto, não ecoaria as críticas por mais pertinentes que sejam. Faz algum sentido? Não, não faz. Para se afirmar isso com alguma credibilidade teria que se estruturar um conjunto crítico realmente pertinente e minimamente moderno do ponto de vista da forma de comunicar. A oposição parece que se utiliza de português arcaico para se fazer entender com a população antenada e conectada deste século. Aliás, esse ponto, a conexão em tempo integral de uma imensa parcela da população joga na lata de lixo a tal acusação que se faz contra a imprensa. Hoje, é perfeitamente possível furar qualquer bloqueio oficial. Basta, apenas, tem uma tematização consistente.

É por isso que nem se faz necessário descer ao pormenor do conteúdo crítico. Os temas batidos pelos opositores são embalados toscamente no que se refere ao embasamento. O tema da violência é exemplo desse formato. Qualquer crime, e eles são realmente absurdamente frequentes, viram “tochas” incendiárias nas mãos oposicionistas. Mas o resultado não é nenhum incêndio. Ao contrário, frequentemente costuma virar palito de fósforo gasto, quando não se reverte em benefício da imagem positiva do próprio governo. A oposição arma o circo e tal, e no dia seguinte as forças policiais apresentam os criminosos. Além disso, os brasileiros de Goiás não estão isolados, e sabem muito bem que a violência por aqui é tão grande quanto em todos os demais Estados. Talvez possa ser até pior em algumas estatísticas, mas é idêntica no fator mais direta e imediatamente afeto à população, que é a sensação de segurança. Cariocas, paulistas, gaúchos, catarinenses, mineiros e goianos, assim como todos os demais, sentem idêntica insegurança.

Dia desses, na propaganda política, um líder da oposição apresentava um retrato do Estado tão distante do dia a dia das pessoas que parecia que ele se referia a algum lugar qualquer, menos de Goiás. Entre outras situações, surrava os hospitais estaduais. A saúde pública no Brasil é mesmo um sério problema, mas daí a insinuar que a rede estadual está sucateada é escapar da realidade e avançar sobre a fantasia. Principalmente quando a população percebe que, se a situação não é perfeita, também não é um caos total e absoluto. Principalmente por vir a imagem projetada pelo governo em torno da entrega de um colosso, o Hugol.

São erros de comunicação, sem dúvida. E também por isso alguns pensadores da oposição fazem críticas ao modelo. Ao mesmo tempo, o governador Marconi Perillo consegue trabalhar a imagem da administração com raríssimo talento, neutralizando de vez o vendaval crítico dos opositores. Ele se mexe e mostra para a população que está se mexendo, e não chorando a crise pelos corredores do Palácio. Recentemente, por exemplo, promoveu reuniões de trabalho nas secretarias do Estado. Normalmente, o que se vê é o oposto, com o secretário carregando suas pastas até o Gabinete nº 1. Como a crise aperta, ele se organiza a parte para viagens internacionais, como na mais recente, aos Estados Unidos. Lá, graças também aos seus relacionamentos pessoais em nível nacional, ganhou elogios de Pérsio Arida, palestrante num evento realizado no Harvard Club, em Nova Iorque. Não foi um sujeito qualquer que elogiou a reforma administrativa encetada por Marconi no início do atual mandato, quando a crise nacional ainda nem tinha mostrado realmente o tamanho da encrenca produzida em Brasília. Arida foi um dos criadores do plano Real e presidente do Banco Central. Não é todo dia que se colhe um depoimento como esse.

A oposição goiana tem esse problema, que parece se eternizar: concentra suas críticas em questões pontuais. Marconi sabe disso, e aprendeu a lidar com esse tipo de conduta. Ele ataca as questões levantadas e esvazia, assim, o poder crítico contrário. Ele se apresenta sempre como se estivesse alguns anos à frente dos opositores. E vai permanecer onde está enquanto a oposição não entender que precisa se viabilizar diante de um modelo alternativo de governo. Foi o que o próprio Marconi fez em 1998, quando surrou o então governo do hegemônico PMDB. Desde então, ele se renova, enquanto a oposição envelhece na sua argumentação.

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