Ao contrário do que o deputado Arthur do Val argumenta em sua defesa, não dá para separar o que se fala do que ele se faz

Na segunda-feira, 7, Renan Santos tomou o microfone em uma live do podcast do Movimento Brasil Livre (MBL), do qual é coordenador nacional. Descontrolado e, ao mesmo tempo, tentando mexer com os brios da militância que comanda, soltou cobras, lagartos e palavrões:

Mas, de todo o falatório nervoso que liberou o líder de um dos movimentos mais influentes da política brasileira na última década, uma frase merece ser mais bem analisada:

— É comparável um cara falar m… e ser cassado a um ladrão roubar teu dinheiro e não acontecer p… nenhuma?

É uma boa pergunta: falar algo insano pode ser tão ruim quanto alguém se apropriar de um bem alheio? É algo a ser analisada com mais profundidade mais à frente neste texto.

Antes disso, é preciso entender o contexto de toda a ira despejada por Renan – que, na verdade, é um recibo bem passado que demonstra o modo parafuso em que o MBL entrou com os últimos acontecimentos.

Recordando, o grupo militante de direita ainda estava juntando os caquinhos do “cancelamento” – como passaram a ser chamados os linchamentos virtuais das redes sociais – do deputado federal Kim Kataguiri (Podemos-SP), sua estrela maior. Ele havia declarado durante participação no Flow, podcast mais conhecido do País, que a Alemanha havia errado ao criminalizar o partido nazista. Por conta disso, correm contra ele, na Comissão de Ética da Câmara, em Brasília, processos por quebra de decoro que podem acarretar até a perda do mandato.

Semanas depois, vazam áudios de Arthur do Val (Podemos), o deputado estadual de São Paulo mais conhecido como “Mamãe Falei”, no fim de uma viagem de ambos – Renan e Arthur – à fronteira da Ucrânia, no que teria sido uma bem sacada (mesmo que eleitoreira) incursão do MBL. O movimento doou cerca de R$ 200 mil arrecadados para a campanha internacional de solidariedade aos refugiados pelo conflito que tem a Rússia como protagonista.

Ocorre que a boa ação virou detalhe e o marketing positivo derreteu quando foi exposto o deslumbramento do deputado com a beleza das mulheres ucranianas. Mamãe Falei disse a um grupo de “amigos do futebol”, conforme confessou, que nenhuma fila de balada em São Paulo se comparava à beleza feminina que viu na fila das refugiadas. E, mesmo admitindo que não “pegou” nenhuma “mina”, revelou a intenção de voltar em breve para a região, porque elas seriam mais do que acessíveis: “São fáceis, porque são pobres”, disparou. Para completar, jogou também Renan na fogueira, referindo-se a viagens do companheiro para a Europa em busca de mulheres, especificamente à Suécia, como o “tour des blondes” (a “viagem das loiras”, em tradução livre do francês).

Arthur do Val pode não ter aprendido a fazer coquetéis Molotov – embora tenha se deixado fotografar ao lado de engradados que seriam matéria prima para tal –, mas atuou muito bem como homem-bomba de si mesmo.

Ao chegar ao Brasil, foi cercado por repórteres já no aeroporto. Estava evidentemente assustado, em pânico, com a repercussão do que havia dito.  Desde então, perdeu: a pré-candidatura ao governo estadual (de que teve de abrir mão), a noiva, o partido e aliados políticos, como o ex-juiz, pré-candidato à Presidência e correligionário, Sergio Moro, que o descartou – depois de ter tratado o caso de outro aliado, Kim Kataguiri, como “gafe verbal”.

Mas tudo isso “somente” por conta de algumas palavras ditas em um grupo de amigos de futebol, num aplicativo de conversação? Parece coisa pouca, diante de entrar em uma zona de conflito para levar ajuda e de, como assegurou Renan Santos, não se envolver em corrupção, de não “roubar”, como fariam seus colegas de Assembleia Legislativa. Ou seja, ao juízo do próprio e de seus companheiros de MBL, palavras são menores do que atos.

Por que cassar Mamãe Falei “só” por isso e perdoar outros deputados? Para dar um exemplo, ele pode perder o mandato pelos mesmos que apenas suspenderam Fernando Cury – hoje sem partido –, que em 2020 apalpou a lateral do seio da colega Isa Penna (PSOL) em plenário diante da mesa diretora.

Breve “currículo” de Mamãe Falei
Aqui é preciso entender que não foi “só” isso. Arthur do Val já havia sofrido duas advertências da Comissão de Ética da Assembleia, como lembrou a jornalista Monica Bergamo: uma, por xingar e reiteirar que seus colegas eram “vagabundos”, durante a votação de um projeto de lei – pelo que teve de se desculpar; outra, por ter abonado as faltas – ou seja, registrado o ponto – de seu chefe de gabinete, quando este estava em viagem particular ao Chile.

Outras de Arthur do Val? Em 2016, ainda apenas youtuber, durante a ocupação de um colégio em Curitiba, ele se deslocou até lá para produzir conteúdo sensacionalista para suas redes. Provocando estudantes adolescentes, foi acusado de tocar no seio de uma delas. Ganhou um processo por assédio sexual.

Em 2021, com outros deputados – entre eles Kim Kataguiri –, chegou a invadir hospitais durante a pandemia, fazendo “fiscalização surpresa” para verificar se o trabalho estava sendo feito de forma correta. Em setembro do ano anterior, quando estava em campanha para a Prefeitura de São Paulo, publicou um tuíte sobre o padre Júlio Lancelotti, conhecido por seu trabalho de acolhimento à população de rua com os dizeres:

Nesse ponto do texto, já vale a reflexão: o “não roubar” atribuído a Arthur do Val pode pesar em seu favor de forma destacada diante desse histórico? Vale a pena ter um deputado com esse perfil – abonador de faltas de apadrinhados em detrimento dos recursos públicos (em tempo, isso não seria “roubar”?), assediador (sexual ou, no mínimo, moral) de adolescentes, repetidor de injúrias e calúnias contra colegas e benfeitores? Não seria a manifestação privada que se tornou pública sobre as mulheres ucranianas apenas a cereja desse bolo indigesto?

Roubar é algo claramente repudiável, mas com certeza, segundo a moral humana e as regras sociais, existem coisas mais asquerosas. Junte-se a isso a arrogância que sempre tiveram em relação a seus colegas de trabalho – e aqui, a referência serve também para Kim Kataguiri – e temos a tempestade perfeita que pode levar à cassação de modo rápido e com grande apoio.

Usando aqui a elaboração feita pelo psicanalista Christian Dunker, ao analisar o caso Arthur do Val, o apelido “Mamãe Falei” não é usado à toa. É bom lembrar que o personagem criado, ainda que se confunda com seu criador, usa a língua e a escrita para ferir e humilhar as pessoas. Ou o que dizer de alguém que chama um religioso de “cafetão da miséria” por dar comida a quem tem fome, sem exigir nada em troca. E é novamente Dunker quem nota, brilhantemente, como as palavras revelam seu autor: o que é alguém que acha “fácil” assediar mulheres por elas estarem em situação vulnerável (serem “pobres”), senão um explorador da miséria alheia? Ora, está exposto, aí sim, o verdadeiro cafetão!

Por tudo isso, ao contrário do que o deputado argumenta para tentar se defender, não dá para separar o que ele fala (ou qualquer pessoa) do que ele faz. Ele é o que ele diz.

A língua de Arthur do Val, Mamãe Falei falou demais. E vai ser cassado pelo ato de falar demais, de se arriscar com a própria língua. Como já dizia, ainda em 1962, o filósofo J. L. Austin – autor da teoria dos atos de fala –, “dizer é fazer”. falar também é uma ação, com potencial de destruir vidas. Ou autodestruí-las.