Elder Dias
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Editor-executivo

Maldição do impeachment: um a um, caem os que derrubaram Dilma

De Cunha a Kataguiri, passando por Aécio e Moro, os protagonistas da queda “pouco institucional” da presidente sofrem seu inferno astral

Aécio Neves, Sergio Moro e Kim Kataguiri: os cabeças do impeachment vão caindo por terra | Foto: Reprodução

Já está escrito, já está previsto / Por todas as videntes, pelas cartomantes
Tá tudo nas cartas, em todas as estrelas / No jogo dos búzios e nas profecias
Cai o rei de espadas, cai o rei de ouros / Cai o rei de paus, cai, não fica nada!
Cai o rei de espadas, cai o rei de ouros / Cai o rei de paus, cai, não fica nada!

Acima, um trecho de Cartomante, clássica composição de Ivan Lins e Vitor Martins eternizada pela voz de Elis Regina. A canção surge em 1977, no cenário de aumento de desgaste da ditadura militar, quando o comandante em chefe Ernesto Geisel já acenava com a “abertura lenta e gradual”, que seria concluída com João Figueiredo, em 1985.

Na verdade, já se mostrava em curso um processo de definhamento do regime autoritário, com mazelas que iam da incompetência para gerir política (o MDB, oposição, ganhava cada vez mais corpo diante da situacionista Arena) e economia (a inflação era outra coisa a crescer mais do que deveria) à iminência da explosão de casos de corrupção. Sim, havia corruptos no governo das Forças Armadas, e o próprio Geisel admitiu – aliás, foi uma das justificativas para ele iniciar a abertura e afastar os militares do poder.

Os versos que abrem este texto falam daquele momento, em que se via a atrofia da mão de ferro e se prenunciava o ressurgimento da democracia. Mas as previsões e as quedas anotadas na letra de Ivan e Vitor servem de novo a uma circunstância nacional, não vivendo exatamente o mesmo quadro, mas a mesma sensação de que, com o fim de festa em que se transformou o governo Bolsonaro, as agruras estão na fase derradeira. E quais os sinais? Talvez estejam na queda das cartas.

São mais de três anos em que o eleito ao Planalto tenta promover uma retomada verde-oliva do meio democrático, a pretexto de resgatar “valores conservadores” – ainda que falhando miseravelmente. Nem os generais colocaram tantos militares na administração e fora dos quartéis como o governo Bolsonaro. O regime opressor incentivou a vacinação em massa (contra a meningite) em vez de atrapalhá-la, como agora; e, sem esquecer que havia tortura e morte nos porões, é preciso ressalvar que, em comparação ao atual mandatário, as fardas respeitaram a solenidade do cargo presidencial, os ritos da República e a história da diplomacia do Itamaraty.

Não dá para ninguém que realmente preze a democracia negar que, desde os já cinquentenários anos de chumbo, nunca o Estado de direito e as prerrogativas básicas de cada cidadão brasileiro estiveram tão ameaçados quanto por agora. Porém, ao mesmo tempo, o que se vê é a queda, um a um, dos causadores da disrupção original, que tantos males trouxe para a Nação: o impeachment de Dilma Rousseff (PT).

É fato que a presidente estava à frente de um governo fraco, especialmente a partir de sua reeleição. Mas também é vero que a oposição comandada pelo senador e candidato derrotado à Presidência Aécio Neves (PSDB-MG), sem aceitar a derrota, agravou a situação, rejeitando o resultado das eleições e travando o Congresso, com Eduardo Cunha (MDB-RJ) fazendo o serviço sujo na presidência da Câmara.

Escorado no fracasso do tripé macroeconômico de Dilma, ocorreu um conluio de forças (nem tão inédito assim na história do Brasil, diga-se) para antecipar o fim do governo em um processo de impeachment cujas nuances vêm às claras cada vez mais: o ministro do STF Luís Roberto Barroso disse, semanas atrás, que a queda da presidente se deveu não a pedaladas fiscais, menos ainda a casos de corrupção, mas à falta de apoio político.

A oposição contou com outro tripé, que poderíamos chamar de conspiratório: o sistema judiciário entrou com a Operação Lava Jato; o empresariado, com o financiamento das ruas contra o PT; e o Movimento Brasil Livre (MBL), o filho bastardo mais midiático das manifestações de 2013 – quando a direita usurpou o sentimento geral de revolta para emular um patriotismo supostamente anticorrupção que, na verdade, tinha alvo certo –, fazendo seu papel de cheerleader do “Fora Dilma” nas redes sociais.

Institucionalmente, não havia nada que pudesse ser feito a não ser esperar 2018 chegar. Dilma não tinha crime de responsabilidade, a acusação de pedaladas fiscais foi forçar a barra, mas a ânsia pelo poder e o medo de o ex-presidente Lula retomar o lugar de sua sucessora queimaram a etapa necessária. A saída forçada do PT cobrou um preço caro demais para o País – e, também, para alguns de seus principais algozes.

Como nas cartas da Cartomante, os poderosos começaram a cair. Primeira e rapidamente, Eduardo Cunha, acusado de corrupção, descartado após cumprir seu papel de dar abertura ao processo de impedimento. Dilma foi retirada da Presidência em abril de 2016; Cunha foi afastado da presidência da Câmara dos Deputados em maio; ela perdeu definitivamente o mandato em 31 de agosto; Cunha estava em setembro e preso em outubro e só deixou a cadeia em março de 2020, para prisão domiciliar. Em 2021, a prisão foi revogada pelo STF.

Uma gravação feita pelo empresário Joesley Batista, da JBS, fez a carreira de Aécio virar pó em 2017. O senador era cotadíssimo para as eleições em 2018, mas foi flagrado em acerto de propina de R$ 2 milhões. Acabou ali o sonho de ser presidente – não só para ele, mas, como se veria a seguir, também para seu partido. O mineiro teve de abrir mão do Senado e concorrer a deputado, para não correr risco de perder o foro privilegiado.

Com o PT e a esquerda satanizados e a direita convencional se tornando então farinha do mesmo saco, as portas se abriram para algo “fora da caixa”. Estava eleito Jair Bolsonaro. Que nomeou ministro da Justiça o algoz de Lula. Sergio Moro abandonou a toga para encarar a política. Talvez se arrependa. O fato é que, em 2019, vieram os vazamentos de conversações da Lava Jato. A revelação dos diálogos nada republicanos entre promotores e deles com o então juiz e hoje político Sergio Moro – autoproclamado “comandante” da operação – macularam a aura de super-herói. Como pré-candidato a presidente pelo Podemos, não sobe nas pesquisas, mostra-se pouco propositivo e é investigado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e enfrenta agora denúncias de sonegação de imposto e suspeitas sobre sua renda.

Por último, a segunda-feira, 7, foi a vez de Kim Kataguiri entrar no inferno astral. Apoiador de Moro e, como ele, desafeto de petistas e bolsonaristas, o líder do MBL não segurou a língua e,  em meio a uma bizarra discussão sobre nazismo no podcast Flow, respondeu à colega de Câmara Tabata Amaral (PSB-SP), que achava um erro a Alemanha ter criminalizado o partido nazista. A comunidade judaica, obviamente, rechaçou a fala curta e tosca do deputado, que vai ter de se haver com o Ministério Público Federal e a Comissão de Ética da Câmara.

Dilma, escanteada até da pré-campanha de Lula, só observa. Como será o amanhã? Responda quem puder, diz outra música. As cartas estão na mesa. Ao menos as que não caíram ainda.

Uma resposta para “Maldição do impeachment: um a um, caem os que derrubaram Dilma”

  1. Avatar Pierre disse:

    É lamentavel que até hoje a DILMA não tenha sido presa e todos os poderes estejam prostituidos ninguém pega no pé de ninguém todo mundo com o rabo preso.

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