Augusto Diniz
Augusto Diniz

Havia uma cloroquina no meio do caminho de Nelson Teich

Mesmos problemas que levaram o presidente Jair Bolsonaro a demitir Luiz Henrique Mandetta fizeram Nelson Teich desistir do cargo de ministro da Saúde

Nelson Teich despedida 15-5-2020 - Foto Marcello Casal Jr Agência Brasil (8)

Em pronunciamento curto e sem tantos tropeços como o habitual de suas falas à imprensa, o oncologista Nelson Teich disse na sexta-feira, 15: “A vida é feita de escolhas. E eu hoje escolhi sair” | Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

O oncologista Nelson Teich completaria hoje 30 dias à frente do Ministério da Saúde. Ao contrário do ex-deputado federal e médico Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), que ficou no posto de ministro por 1 ano, 3 meses e 16 dias até ser demitido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), Teich só teve paciência para suportar 28 dias como número um esvaziado e tutelado na pasta.

A primeira amostra de que a relação entre o novo ministro e Bolsonaro seria complicada se deu na noite da demissão de Mandetta. Às 19 horas daquela quinta-feira 16 de abril, o oncologista fez sua primeira aparição aos apoiadores do presidente na live semanal. De forma bastante desconfortável, Teich dava voltas inexplicáveis para tentar contornar tudo que o presidente dizia da forma mais educada possível.

De lá para cá, as pesquisas científicas começaram a dar inícios de que o artigo francês que vendia a hidroxicloroquina como cura com 100% de eficácia em pacientes da Covid-19 não passava de um experimento impreciso e sem qualquer chance de comprovação. Hoje sabemos que o medicamento que ganhou no Brasil um garoto-propaganda poderoso – Bolsonaro – não se mostrou efetivo no tratamento da doença causada pelo novo coronavírus, como também apresentou um alto risco de arritmia cardíaca entre os efeitos colaterais.

Crescimento acelerado

Como a coluna Ponto de Parida trouxe na sexta-feira, 15, quando Teich pediu demissão, as vítimas da Covid-19 no Brasil aumentaram 650% e o número de casos confirmados cresceu 600% nos 28 dias em que o oncologista ficou como titular do Ministério da Saúde. Se o País saltava de 33 mil pessoas com o novo coronavírus para 203 mil e dos 2,1 mil mortos para mais de 14 mil, em Goiás o salto também foi significativo.

Eram 335 testes com resultado positivo e 16 óbitos confirmados no Estado pela doença no dia 17 de abril, quando o oncologista foi empossado ministro. Na sexta-feira, as mortes atingiram o total de 67 e os casos confirmados chegaram a 1.572 em Goiás. Em 28 dias, o crescimento registrado de pessoas com o novo coronavírus foi de 469%. No mesmo intervalo, as mortes subiram 418%. Mas pouco entra na conta de Teich no cenário goiano.

Cinco dias depois de assumir o cargo, o novo ministro da Saúde obedeceu a ordem do presidente e nomeou o general do Exército Eduardo Pazuello como secretário executivo da pasta. Acompanhado em tudo o que fazia no governo, Teich chegou à situação mais impensável na segunda-feira, 11, quando toda resposta que dava era antecedida de uma ordem soprada por Pazuello. O agora ministro interino da Saúde mais parecia um controlador de ventríloquo.

Surpresa geral

O que ninguém esperava era que o ministro de fachada mostraria surpresa em público ao ser informado por jornalistas que Bolsonaro tinha incluído nas atividades essenciais durante a pandemia academias, salões de beleza e barbearias. Teich balançava a cabeça inconformado e perguntava “isso aí foi hoje?” na frente de todos. O que, claro, desagradou o governo.

Nos 28 dias que ficou no Ministério da Saúde, o oncologista não cumpriu as ordens de Bolsonaro. E eram apenas duas, que Mandetta também não obedeceu: acabar com o isolamento social nos Estados e municípios e autorizar o uso da hidroxicloroquina e da cloroquina para pacientes com sintomas leves da Covid-19. Alguns passaram a chamar o ex-ministro de “Teich, o breve”. O que parece bastante lógico.

Sua presença no governo foi mais inexpressiva do que “aquele pum produzido com talco espirrando do traseiro do palhaço” dito pela atriz Regina Duarte ao assumir a Secretaria Especial da Cultura no dia 4 de março. Teich foi tão breve que ficou mais apagado do que a catastrófica entrevista concedida pela secretária à CNN oito dias antes de o ministro jogar a toalha.

Equívocos na pandemia

O que o Brasil precisava era de evitar trocas de ministros da Saúde no meio da pandemia. Já que isso não foi possível, porque o presidente insiste em contrariar a todo custo as recomendações das entidades e autoridades de saúde, dois titulares da pasta caíram em 29 dias. O número de vítimas subiu a uma média diária de 800 mortes, com um presidente que não mede esforços em menosprezar os brasileiros enterrados sem a devida despedida de amigos e parentes. Muitos sem conseguir atendimento médico.

O “e daí?” de Bolsonaro é um retrato da falta de gestão no combate ao novo coronavírus. Teich chegou para não ser ministro, mas se cansou ao ser obrigado a assinar um protocolo de liberação do uso irrestrito da cloroquina no País. Não fez a vontade do presidente, que deve colocar nas mãos de Pazuello o dever de autorizar o medicamento, mesmo com todo o risco dos efeitos colaterais, à disposição dos brasileiros.

Duas dúvidas foram esclarecidas na sexta-feira. Se Teich não queria colocar sua reputação no lixo, por que aceitou fazer papel de laranja das vontades bolsonaristas à frente de um ministério que nunca chefiou? Errou ao topar a furada, mas acertou ao pular fora. O oncologista ficará marcado no serviço público como o ministro que viu 12.676 pessoas morrerem enquanto se submetia à condição de nada ou pouco fazer.

Alívio dos que caíram

Nelson Teich Eduardo Pazuello - Foto Reprodução TV Brasil

Surpreso, ministro Nelson Teich olha para o lado e faz gesto de incompreensão com as mãos para o secretário executivo, general Eduardo Pazuello, que balança a cabeça como se também não soubesse do decreto | Foto: Reprodução/TV Brasil

Neste momento, Mandetta deve estar aliviado por ter confrontado Bolsonaro enquanto esteve na pasta e por ter saído a tempo de não carregar para si a escalada de casos e mortes. Em seu Twitter, escreveu após a confirmação da saída de Teich: “Oremos. Força, SUS. Ciência. Paciência. Fé!”.

Enquanto isso, o presidente segue a dar o sinal errado à população. Inclusive faria mais um pronunciamento para incentivar moradores de cidades e Estados que adotaram medidas restritivas a ignorar o isolamento social. Desistiu da ideia. Isso seria destruir o pouco que ainda resta de trabalho eficaz para conter o mínimo que seja o avanço ainda mais agravado do vírus.

Depois de conversas, o governo do Distrito Federal desistiu do absurdo ilegal de impedir que goianos que moram nas cidades do Entorno fossem tratados em hospitais da rede distrital de saúde. A possibilidade ia contra a lógica de ser e existir do Sistema Único de Saúde (SUS), que é a de uma plataforma pública e universal de atendimento.

Seria muito mais importante neste momento que os governadores Ronaldo Caiado (DEM) e Ibaneis Rocha (MDB) se unissem para cobrar do Ministério da Saúde a transferência da gestão do Hospital de Campanha de Águas Lindas a Goiás e a entrega dos 40 leitos de UTI com respirador, que foram prometidos ao chefe do Executivo goiano. Até hoje a unidade não entrou em funcionamento por questões legais.

A culpa é de quem?

Seria Teich o culpado por não ter agilizado o trâmite do repasse da unidade para o governo estadual ou cabe responsabilizar Bolsonaro por atrasar a abertura do Hospital de Campanha de Águas Lindas de Goiás a pacientes do Entorno? A população continua a ficar doente, a morrer em leitos de UTI, nos corredores de unidades, sem saber o que fazer quando falta respirador, os registros de óbitos por síndromes respiratórias agudas graves aumentam nos cartórios e o Brasil não consegue mais imaginar o que esperar do Ministério da Saúde.

Secretários estaduais e municipais de Saúde clamam por serem ouvidos pelo governo federal. Demorou muito na gestão Teich para que conseguissem marcar uma reunião com o então ministro. Como será durante a interinidade do general Pazuello? E se escolherem o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) como novo ministro? Nise Yamaguchi?

A pressão aumentará sobre governadores e prefeitos pela liberação do funcionamento de todas as atividades econômicas? Quanto o Exército gastou na produção da cloroquina? Quantos artigos de distorção da realidade o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) terá de escrever para fingir que Bolsonaro tem razão em levar o País ao cemitério? CPFs e CNPJs.

Tentativa de isenção

E o auxílio emergencial: por que não resolver logo o problema nos cadastros e pagar a renda mínima a quem precisa neste momento? Bolsonaro irá terceirizar a culpa que é dele por não encarar o problema de frente e continuar a culpar o Congresso, o Supremo Tribunal Federal, Teich, Mandetta, governadores e prefeitos até quando? Até atingirmos 1 milhão de mortos? E daí, não é mesmo?

Havia uma cloroquina no meio do caminho de Teich, assim com havia no caminho de Mandetta. Mas o oncologista encontrou também um general para lhe tutelar. O que ainda não sabemos é se o Brasil tropeçará daqui em diante nos militares do governo, negacionistas, ventríloquos ou em mais corpos.

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