Augusto Diniz

“Genocídio” causa mais efeito colateral no governo Bolsonaro do que gasto milionário com fabricação de cloroquina

Em live, presidente se mostrou valente no ataque a tudo com mentiras, distorções e conspirações, mas viu coragem desaparecer ao ouvir o nome Gilmar Mendes

Jair Bolsonaro Live 16-7-2020 3 - Foto Reprodução Facebook

Um dia depois de dizer que não receita medicamento a ninguém porque não é médico, presidente Jair Bolsonaro (sem partido) propaga nitazoxanida e hidroxicloroquina nas redes sociais | Foto: Reprodução/Facebook

“Será uma live um pouco rápida. Peço desculpas por isso. Sempre é bom ter alguém do meu lado para ter o contraditório, tocar em outros assuntos”, começou assim a transmissão semanal no Facebook o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) às 19 horas de quinta-feira, 16. Com ao menos outras duas pessoas no mesmo ambiente, pelas vozes que interagiam com Bolsonaro durante a live, mais de 1 hora e 10 minutos depois o presidente encerrou o vídeo.

Sem máscara, o presidente dividia a sala que servia de locação para a transmissão da live com outras pessoas na mesma semana em que o segundo exame para Covid-19 teria dado positivo, segundo informou o próprio Bolsonaro no vídeo. O presidente tratou de apresentar número da audiência, abaixo de 400 mil pessoas na era das lives de cantores sertanejos com mais de 3 milhões de pessoas ligadas ao mesmo tempo.

Com transmissão de veículos de comunicação que se prestam ao desserviço de fazer assessoria disfarçada de jornalismo, Bolsonaro se mostrou corajoso e atacou tudo e todos. Parecia até uma adaptação de seu slogan de campanha. Só que no lugar de “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, o tom da live estava mais para “Mentira pra cima de tudo, fake news acima de todos”.

Desespero por algo positivo

A necessidade de se apegar a algo que mostre que está bem e continua popular veio com folhas A4 nas quais estavam impressas outdoors instalados por populares com fotos e frases de apoio a Bolsonaro.

Até o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), que deixou o governo há mais de três meses, no dia 16 de abril, o presidente reincluiu em sua violência verbal para criticar a busca pelo achatamento da curva. Algo que nunca ocorreu porque o próprio presidente tratou, desde a chegada da pandemia ao Brasil, de inviabilizar.

Mas todos sabiam, após o pronunciamento em cadeia de TV e rádio do dia 24 de março, quando Bolsonaro chamou a Covid-19 de “gripezinha” e “resfriadinho”, que uma hora o presidente usaria até o fracasso de seu discurso para culpar governadores e prefeitos que tentaram, com muitos erros e outros tantos acertos, fazer algo para evitar que a população morresse abandonada em meio à maior crise sanitária deste século.

E na live, mesmo sem individualizar a culpa a ninguém, o presidente reclamou dos defensores do isolamento social.

Dados sem nexo

Jogou no ar uma informação sem fonte nem dados de que o desemprego tem levado mais pessoas ao suicídio do que o total de mortes causados pela Covid-19 no País. Retomou o discursos do “assassinato de CNPJs” para defender que a vida tem que voltar ao normal.

Nem adianta disfarça, a preocupação nunca foi com a vida dos brasileiros. Tanto é que apresentou uma caixa de Annita, o vermífugo nitazoxanida, e outra de hidroxicloroquina, que Bolsonaro não conseguia nem pronunciar direito o nome, durante a live.

O presidente negou que seja garoto-propaganda dos medicamentos sem comprovação científica de eficácia no combate à Covid-19, com cada vez mais pesquisas a darem sinais de que a hidroxicloroquina tem efeito nulo nos casos leves e gerar riscos graves à vida dos pacientes mais graves da doença. Mas fez questão de encerrar o vídeo com as caixas dos remédios nas mãos.

Mentiras seguidas

Entre muitas mentiras, distorções, conspirações e absurdos ditos em mais de 1 hora e 10 minutos de transmissão, apenas um assunto Bolsonaro não teve a coragem e agressividades demonstradas com facilidade no restante do tempo para tratar. Chegou até a desconversar.

Ao ser perguntado pelo jornalista Vitor Brown, da rádio Jovem Pan, sobre as afirmações do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro revelou uma calmaria não vista nos mais de 56 minutos anteriores. Mendes foi duro ao analisar a atuação do Ministério da Saúde, comandado interinamente pelo general Eduardo Pazuello há mais de dois meses.

O ministro do STF disse, em outra live no sábado, 11, que se as Forças Armadas continuasse a dar respaldo ao projeto de governo de Bolsonaro na pandemia, os militares corriam o risco de ficarem marcados como atores do “genocídio” causado pela gestão do presidente na saúde:

“Não podemos mais tolerar essa situação que se passa no Ministério da Saúde. Não é aceitável que se tenha esse vazio. Pode até se dizer: a estratégia é tirar o protagonismo do governo federal, é atribuir a responsabilidade a estados e municípios. Se for essa a intenção é preciso se fazer alguma coisa. Isso é péssimo para a imagem das Forças Armadas. É preciso dizer isso de maneira muito clara: o Exército está se associando a esse genocídio, não é razoável. É preciso pôr fim a isso”.

Jogo de cena dos militares

Os militares, que demonstraram publicamente estarem inconformados com as declarações fortes de Gilmar Mendes, resolveram denunciar, por meio do ministro da Defesa, general da reserva Fernando Azevedo e Silva, o magistrado à Procuradoria-Geral da República.

Fernando Azevedo usou a Lei de Segurança Nacional – além do Código Penal Militar – para acusar Mendes, de acordo com o artigo 23, de “incitar à animosidade entre as Forças Armadas ou entre estas e as classes sociais ou as instituições civis”.

Mas, até aqui, tudo não passa de um grande teatro. Porque o procurador-geral da Repúlica, Augusto Aras, já disse que não analisar a denúncia contra o ministro do Supremo antes do fim do recesso do Judiciário, que retorna em agosto. Até lá, a tendência é a de que o assunto já tenha sido esquecido.

“Crítica construtiva”

A considerar a resposta sem graça do presidente, de que “qualquer crítica construtiva é bem-vinda”, não aparenta mesmo ser interesse de Bolsonaro comprar briga com um ministro do STF. Até porque estão na Corte os inquéritos das fake news contra magistrados do Supremo, de financiamento de atos antidemocráticos e da interferência na Polícia Federal.

Outra possibilidade também passou a preocupar o chefe do Executivo nacional, mesmo recluso no Palácio da Alvorada a alimentar emas no jardim. Bolsonaro foi alertado por Mendes que o presidente corre o risco de ser denunciado no Tribunal Internacional de Haia, na Holanda.

O presidente tinha até moderado o tom e voltado atrás, depois de quatro meses, ao dizer na quarta-feira, 15: “Eu não recomendo nada. Eu recomendo que você procure o seu médico e converse com ele”.

Efeitos colaterais

Para os apoiadores no Facebook, voltou a dar o show de sempre, baseado na incitação da militância virtual a compartilhar desinformação no WhatsApp e manter os apoiadores motivados a defender sandices que podem custar a vida de familiares e amigos. Exagero ou não da parte de Gilmar Mendes, ao chamar a condução do Ministério da Saúde durante a pandemia de “genocídio”, a declaração gerou diversos efeitos colaterais.

O primeiro deles foi o fortalecimento da tentativa do afastamento dos militares da ativa do governo Bolsonaro. Com os coturnos atolados até o fundo na lama que é a gestão sem rumo do presidente sem partido, o comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, sempre se manteve distante de Bolsonaro.

Inclusive, no mesmo dia 24 de março, quando o presidente fez aquele agressivo e lamentável pronunciamento, Pujol foi aos canais do Exército declarar que a “família verde-oliva” estava junta ao povo brasileiro no combate ao novo coronavírus, inimigo invisível da nação.

Corrida para a reserva

Desdobramentos estavam em curso, como a ida do general Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo, que foi quinta-feira para a reserva remunerada do Exército. As Forças Armadas têm pressionado os militares a saírem do governo ou deixarem a ativa.

O mesmo tem ocorrido com o interino da Saúde, Pazuello, que disse não querer ir para a reserva até o ano que vem. Com isso, um novo nome para o Ministério da Saúde está em análise. Mas ainda não surgiu publicamente quem seria, depois de mais de dois meses sem titular na pasta, quem toparia assumir o posto e dizer não a Bolsonaro na hora de forçar instituições e pesquisadores a dar o aval para o uso da cloroquina no tratamento precoce da Covid-19.

Pazuello, que foi vendido como especialista em logística, transformou o que já estava ruim em uma tragédia. Vale lembrar que o Brasil saiu de 46 mortes confirmadas no dia do pronunciamento da “gripezinha”, em 24 de março, para 78.817 vítimas da Covid-19 no sábado, 18.

Mandetta?

Se isso não é um “genocídio” pelas práticas adotadas pelo governo, que até hoje tem um presidente que culpa um ex-ministro por querer “achatar a curva de contágio” e nada faz para combater a doença e proteger a população, no mínimo uma tragédia passível de punição judicial continua em curso.

Até kit que falta reagente o ministro militar interino da Saúde enviou aos Estados. No dia 2 de julho, a forma como o Brasil tem lidado com o avanço do novo coronavírus foi parar no podcast do The New York Times, The Daily, no episódio “O que deu errado no Brasil” (What went wrong in Brazil).

Os jornalistas do veículo norte-americano traçam um breve histórico de como o País saiu de referência na pesquisa e tratamento de doenças como HIV e zika para se tornar a vergonha do mundo na pandemia da Covid-19.

Não é genocídio?

Quando Bolsonaro nega fornecimento de água potável, atendimento médico, leito hospitalar e itens de higiene aos povos indígenas durante a pandemia quanto a doença mais avança pelo contato com invasores nas reservas indígenas, tudo isso não intensifica o genocídio dessa população?

Por que dói tanto a palavra genocídio quando faltam ações para conter a doença? “E daí?” Ou seria mais adequado dizer que um governante não é coveiro para contar e enterrar mortos? Vamos ao dicionário. Genocídio tem três significados:

  1. extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade, grupo étnico, racial ou religioso.
    “o g. de judeus na Segunda Guerra Mundial”
  2. 2.
    POR EXTENSÃO
    destruição de populações ou povos.
    “uma guerra nuclear resultaria num verdadeiro g.”
  3. 3.
    aniquilamento de grupos humanos, o qual, sem chegar ao assassínio em massa, inclui outras formas de extermínio, como a prevenção de nascimentos, o sequestro sistemático de crianças dentro de um determinado grupo étnico, a submissão a condições insuportáveis de vida etc.
Difícil sair

Se a declaração de Gilmar Mendes incomodou tanto, é porque a situação dos militares no governo Bolsonaro já era bastante incômoda. Queriam por tudo, desde a campanha de 2018, passarem a limpo a imagem de péssimos gestores que ficou desde a ditadura encerrada em 1985. Pelo rumo do governo Bolsonaro, com a assinatura dos militares embaixo de suas ações, fica cada vez mais complicado.

Ficou tarde para abandonar o presidente? Cada vez mais parece que sim. Até porque a articulação com o Centrão no Congresso é feita por militares: Ramos e o ministro-chefe da Casa Civil, Walter Braga Netto. De acordo com levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU), são 6.157 militares da ativa e da reserva em cargos no governo federal. Apenas no Ministério da Saúde, as Forças Armadas têm 1.249 pessoas na folha de pagamento da pasta.

Para completar, o governo sofre outras pressões, além das Forças Armadas, para desligar pessoas do governo ou elas se desligares das corporações. Os investidores internacionais querem a cabeça do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Ou o Brasil controla as queimadas e o desmatamento na Amazônia, que atinge recordes de avanço, ou o dinheiro das traders vai sumir do agronegócio brasileiro.

Guedes e Araújo

Quando o assunto é dinheiro, não dá mais para sustentar o argumento vazio para atacar ONGs e professores universitários. Enquanto Bolsonaro insistir em cortinas de fumaça como “PT quer legalizar a pedofilia”, faltará política pública em todas as áreas. Ao mesmo tempo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, defende em entrevistas medidas em parte sensatas para recuperar o País após a pandemia.

Mas, logo depois, Guedes surge em encontros virtuais com representantes de bancos a falar barbaridades sobre mercado sem amarras enquanto empresários não conseguem empréstimos para manter seus negócios abertos e o ministro atrapalha a reforma tributária com nova tentativa de volta da CPMF. O mesmo Guedes que pouco fez e deu várias previsões sobre o “agora vai” da recuperação econômica do País.

Se o agronegócio está preocupado com as queimadas na Amazonia porque o dinheiro resolveu falar contra o governo, o que dizer do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que vive um delírio olavista, conseguiu igualar isolamento social como prevenção ao novo coronavírus a campos de concentração nazistas e alinhou a política internacional do Brasil a extremistas em discussões da ONU sobre direitos das mulheres?

Festa da cloroquina

Mas o efeito colateral da fala de Gilmar Mendes sobre “genocídio” na saúde custa mais caro ao governo do que assumir que jogou fora mais de R$ 1,5 milhão para fabricar cloroquina em larga escala no Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército. Para quê? O que Bolsonaro vai fazer com mais de 2 milhões de comprimidos de cloroquina? Mostrar na live do Facebook?

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