Augusto Diniz
Augusto Diniz

Força de Bolsonaro na internet será suficiente para vencer eleição?

Com milhões de seguidores no Facebook, Twitter e Instagram, deputado federal pelo PSL e capitão da reserva terá de compensar falta de tempo na TV

Mito nas redes sociais, Bolsonaro terá muito mais dificuldades do que imagina ao convocar seus seguidores para vencer as eleições | Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

Recepções calorosas e emocionadas em aeroportos, selfies uma atrás da outra, fotos com crian­ças que imitam com os dedos o si­nal de uma arma de foto e gritos de “mito” são uma rotina na agenda de viagens do capitão da reserva do Exército e deputado federal, Jair Bolsonaro (PSL-RJ). O polêmico candidato disputará a preferência do eleitor brasileiro com políticos mais conhecidos para se tornar o próximo presidente da República. E sem uma aliança com outra sigla à vista.

Bolsonaro terá de superar nas urnas o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), que conseguiu o tão sonhado apoio do centrão – formado por DEM, PP, PR, PRB e SD. Outro adversário será o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), que se viu abandonado pelo PSB na reta final da pré-campanha. A ex-senadora Marina Silva (Rede) contará com parte do recall eleitoral vindo dos pleitos de 2010 e 2014.

Entra na fila de nomes conhecidos o senador Álvaro Dias (Podemos), ex-tucano que atraiu, na bacia das almas o PSC, antigo partido de Bolsonaro, e o PRP, tão sonhado pela chapa do PSL em sua vice, com cortejos sem sucesso ao general da reserva do Exército, Augusto Heleno Ribeiro. Além, é claro, do indicado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tende a ser considerado inelegível pela Lei da Ficha Limpa por sua condenação em segunda instância no caso do tríplex do Guarujá (SP).

A chapa pura de Jair Messias Bolsonaro, que tem como segundo nome o de um salvador da pátria, tendia a ser mesmo formada com a doutora em Direito e professora da Universidade de São Paulo (USP), Janaina Paschoal, que está entre os três juristas responsáveis pelo pedido de impeachment que culminou na destituição da presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016. Apesar dos desentendimentos entre os dois, a tendência era que essa fosse a configuração da chapa a presidente e vice do partido.

Mas no domingo, 5, o candidato confirmou que havia fechado um acordo com o general da reserva do Exército, Antonio Hamilton Martins Mourão (PRTB), que será seu companheiro de chapa como concorrente ao cargo de vice-presidente, o que faz com que o presidente nacional do PRTB, Levy Fidelix, desista de sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto.

Com a aguardada inelegibilidade do ex-presidente Lula por uma condenação em segunda instância e o cumprimento preventivo da pena desde o dia 7 de abril, Bolsonaro larga na frente em todas as pesquisas de intenção de votos quando o petista é retirado do cenário estimulado apresentado aos eleitores. O deputado federal tem dificuldade de convencer os indecisos, que chegam a 70% nos levantamentos estimulados, mas acredita que tem uma forte arma a seu favor. E nesse caso não é sua autorização como militar a usar uma pistola, que adora repetir nos gestos em suas aparições públicas.

Eleitor online

Bolsonaro e seu partido apostam na força das redes sociais na internet como forma de reverter os apenas 9 segundos que o presidenciável terá na TV em cada bloco da propaganda eleitoral durante a campanha. Com 5.418.065 curtidas em sua página no Facebook, que chega a 5.510.801 seguidores – dados de 16h42 de sexta-feira, 3 –, o candidato do PSL quer mitar nas urnas. No Instagram, o capitão da reserva do Exército tem 1.379.550 seguidores, além de 1.221.497 perfis que acompanham suas postagens no Twitter.

Em entrevista ao Jornal Opção na edição 2246, o presidente do PSL em Goiás, deputado federal Delegado Waldir, defendeu que será fácil reverter a falta de tempo na TV e no rádio de Bolsonaro durante a campanha, que só começa a ser veiculada no dia 31 de agosto. Basta que o presidenciável mostre seu celular e convoque o eleitor com a frase “Bora pra minha live” que o efeito da internet no resultado do dia 7 de outubro – primeiro turno da votação – será irreversível. Parece uma tática simples de ser aplicada, mas seu resultado não tende a ser tão óbvio e fácil assim.

Primeiro porque Bolsonaro terá de inverter a lógica tradicional das campanhas, que ganham força com a disponibilidade de recursos financeiros. Não é sem motivo que Alckmin costurou uma coligação nacional com DEM, PP, PR, PRB e SD. Só o PSDB tem direito à terceira maior fatia do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC). O tucano estará ao lado do PP, com o quarto maior montante do cofre público eleitoral, PR, que tem direito à sétima maior quantia, DEM, na oitava posição no FEFC, o nono (PRB) e o décimo (PRB) na lista da bonança do financiamento de campanha.

Desde o primeiro dia autorizado aos candidatos e coligações a fazer campanha de rua, o PSL de Bolsonaro já terá de enfrentar uma disparidade financeira tremenda. Enquanto o partido do deputado federal terá direito a menos de R$ 9 milhões para dividir entre todos seus postulantes a todos os cargos na estrutura nacional e nos diretórios estaduais, só o PT fica com mais de R$ 200 milhões do FEFC sem qualquer aliança com outra sigla. Viu como a missão de Bolsonaro não é tão simples?

Imaginemos que as redes sociais superem a importância do tempo de TV durante a campanha e a quantidade de recursos não impeça que Bolsonaro tenha força frente a estruturas como a montada por Alckmin e quem vier a suceder Lula pelo PT na corrida eleitoral. Para o candidato do PSL, que tem hoje 20% das intenções de votos em quase todas as pesquisas estimuladas, ainda há outro problema a ser solucionado na hora de convencer o eleitor que não terá condições de conhecer melhor Bolsonaro e suas propostas pela televisão e rádio.

Em pesquisa divulgada na quinta-feira, 2, pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), 71% dos brasileiros dizem que se informarão sobre o processo eleitoral deste ano por meio dos veículos de comunicação tradicional. Até que me provem que a roda agora passou a ser quadrada, redes sociais não são revistas, jornais, canais de televisão ou emissoras de rádio, são em sua maioria plataformas de relacionamento.

Por mais que as pessoas troquem mensagens sem comprovação de fonte e acreditem em muitas das coisas que recebem nos grupos de WhatsApp e no Facebook, parece que não serão nesses locais que elas buscarão conhecer melhor os postulantes ao cargo de presidente. Quando incluídos os sites de veículos tradicionais de comunicação na conta, como portais de jornais e revistas conhecidas, o percentual sobe para 84%.

Quer dizer que Bolsonaro teria 16% do eleitorado brasileiro para trabalhar, caso isso não inclua a maior parte daqueles que decidiram há mais tempo o voto no mito? Nos dados do levantamento da CNI, aparece o dado de que apenas 5% dos brasileiros usam as redes sociais como fonte exclusiva de informação. O percentual maior, de 26% que têm nas redes sociais um meio para ficar inteirado da disputa política, também busca notícias nas outras mídias.

Os sem acesso

Por mais que o uso de internet, principalmente nos celulares, cresça a cada dia, ainda temos 63,4 milhões de brasileiros que não têm acesso à rede online de dados. Isso significa que a plataforma de campanha por meio das redes sociais de Bolsorano não chegará a parte considerável do eleitor brasileiro. De qualquer forma, o candidato a presidente do PSL terá como tentar chegar, o que custará caro – por meio do impulsionamento de publicações –, a parte dos 65% da população que tem acesso a computadores e celulares conectados.

Enquanto Bolsornaro terá mais facilidade de chegar pela internet ao eleitor do Centro-Oeste, que conta com 71,8% dos moradores da região conectados, do Sudeste (72,3%) e Sul (67,9%), encontrará dificuldades para falar aos nordestinos, que são apenas 52,3% com acesso a um mundo conectado, e a população do Norte, que só tem 54,3% de internautas.

Ainda há outro fator a ser analisado, que é o das prioridades de uso daqueles que têm internet, com 94,6% com acesso pelo celular e 63,7% por meio de computadores. O que as pessoas conectadas mais fazem é trocar mensagens de texto, voz ou imagens, o que chega a 76,4% dos usuários. O consumo de dados com vídeos atinge 73,3% dos brasileiros que usam a internet e 69,3% da população online no País faz uso de chamadas de voz ou vídeo.

A missão de convencimento focado na campanha online é complicada para Bolsonaro, mas não é impossível. Basta lembrar que a greve dos caminhoneiros tinha a maior parte de sua mobilização sustentada em uma rede de compartilhamento e troca de mensagens de texto, voz e imagens em grupos de WhatsApp, que davam mais alcance ao conteúdo pró-manutenção dos protestos. Outra carta que o candidato do PSL tem guardada é a escolha de Paulo Guedes como economista consultor de sua campanha, o que pode conquistar cada vez mais a confiança do mercado.

A participação de Bolsonaro no programa Roda Viva na segunda-feira, 30, de acordo com a Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (DAPP/FGV), gerou 717.308 tweets entre as 20 horas do dia da entrevista e as 8 horas da terça-feira, 31. Com baixa presença de perfis robôs, somente 26% das publicações no Twitter eram de perfis que apoiam o candidato do PSL e 54,2% eram de contas contrárias ao presidenciável.

Mesmo nas redes sociais, Bolsona­ro parece ter dificuldade de convencer o eleitorado que não é aquele que já decidiu seu voto. Isso significa que a campanha do candidato será um fracasso ao colocar seu foco na internet? Não. Mas mostra que será muito mais difícil do que parece vencer com base na atuação em perfis e páginas no Facebook, Instagram, Twitter ou por mensagens compartilhadas pelo WhatsApp. Talvez a campanha exija muito mais do que isso.

*Atualizado na segunda-feira

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