Afonso Lopes
Afonso Lopes

A explosão das ruas

Nunca antes na história deste país um presidente foi tão rapidamente da vitória nas urnas para o buraco da impopularidade

Presidente Dilma Rousseff: tomou em posse em janeiro, mas já querem tirá-la do poder

Presidente Dilma Rousseff: tomou em posse em janeiro, mas já querem tirá-la do poder

A coisa está muito feia para a presidente Dilma Rous­sef. Confesso que ja­mais tinha visto algo como isso que está se vendo de norte a sul, leste a oeste. Nunca. É absolutamente inédito na história brasileira ver alguém sair das urnas com mais de 50% dos votos válidos e ir direto para a descrença coletiva de forma tão rápida, instantaneamente. Não há sequer algum parâmetro para construir uma metáfora qualquer que tenha alguma representação palpável com a realidade. Afinal, o que aconteceu de tão ruim em tão pouco tempo?

Nada. Nada? Nada, está praticamente tudo seguindo seu curso. Essa crise econômica, por exemplo, já vem batendo em nossas portas há pelo menos dois anos. E não são batidinhas com os nós dos dedos, não. São batidas com marreta pesada. E o escândalo cada vez mais profundo da roubalheira bilionária na Petrobrás? Alguma novidade? A gente sempre soube que o Brasil é um paciente terminal em matéria de corrupção, suborno e a mania de levar vantagem indevida. A Petro­brás pode até ser o maior rombo descoberto até agora, mas é apenas mais um roubo numa lista com milhares de casos. Por que o país não explodiu com aqueles bilhões superfaturados em elefantes brancos erguidos pomposamente para a realização de meia dúzia de jogos de futebol na Copa do Mundo? Ah, pode-se afirmar com razão, mas houve protestos naquela ocasião. É verdade, e logo depois veio a eleição e Dilma foi reeleita.

Ou seja, nenhuma novidade escandalosa aconteceu depois da eleição e agora. A rigor, portanto, não é um equívoco dizer que nada mudou. Nadica de nada. Fora, claro, a popularidade da presidente e de seu governo. Nem o Congresso Nacional mudou. Está ruim como sempre esteve, e nas mãos dos mesmos velhos conhecidos. Saiu o Sarney? Sim, saiu, mas está aí o Renan, aquele que foi acusado de ter uma empreiteira amiga pagando pensão para uma amante, ou ex-amante, sei lá.

Não, nada mudou. Nem para pior e nem para melhor. Tudo como dantes.

Longe de ser esse um quadro consolador, é terrível. Se nada mudou e as ruas explodiram, é porque a paciência chegou ao fim. O saco explodiu, e agora vai ter que mudar, de um jeito ou de outro. Ou muda radicalmente numa boa, ou a explosão que se viu entrará na história brasileira tão somente como início de um mo­vimento nacional que sabe-se lá no que vai dar.

O que entornou o caldo foram inúmeras gotas depositadas dia após dia. É arrocho agora para con­sertar as contas furadas en­quanto o número de ministérios permanece recorde; é aperto cada vez mais extorsivo nos impostos quando se gasta grana a rodo em mais elefantes brancos, agora para receber alegremente os Jogos Olímpicos; é aumento geral de preços e queda geral na renda das pessoas enquanto se anuncia reforma de aeroporto em outros países, isso depois de ter construído porto e estradas e perdoado dívidas mundo a fora; cria-se um conflito maluco com a classe médica brasileira, reconhecida pela competência no mundo todo, importa-se médicos majoritariamente de Cuba, recheando os combalidos cofres da ditadura castrista, e deixa faltar vacinas e remédios nos postos de saúde.

As vaias não foram contra isso ou aquilo, mas contra tudo o que vem sendo feito. Contra uma diplomacia louca varrida, que dá os braços a ditatorzinhos canalhas na região e arrota grandeza contra o segundo maior parceiro comercial do país, os Estados Unidos. Uma diplomacia tão idiota que “fica de mal” da Indonésia porque o governo de lá executou um traficante de drogas, mesmo sabendo que no pequeno volume comercial entre os dois países a vantagem é brasileira, e chega a quase 500 milhões de dólares por ano.

E o que falar sobre a impunidade que transformou até a polícia em refém de assassinos sanguinários que entram e saem das prisões como se fosse um motel de altíssima rotatividade? Ah, também se alega, mas é deve-se fazer de tudo para recuperar esses bandidos. Claro que é, mas alguém se deu o trabalho de ao menos saber se eles querem ser recuperados? Se eles querem abandonar o “trezoitão” e pegar na dureza para ganhar salário mínimo ou pouco mais do que isso?

Não dá mais. O Brasil vai mudar, sim. De um jeito ou de outro. Tomara que seja pela tomada de consciência de que temos uma nação a ser construída.

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Camille Adorno

O pior é que – além do que foi dito acerca do (des)governo Dilma e seus apoiadores, os partidos de oposição, com exceções cada vez mais raras, se destacam pela inércia no trato das demandas geradas pela corrupção. Basta acompanhar o que acontece no tratamento dado pelo alto tucanato ao “escândalo do Metrô” persistindo há décadas em São Paulo ou no silêncio dos democratas quanto às supostas propinas recebidas por Agripino Maia: o corporativismo fala mais alto e emudece até o falante Ronaldo Caiado. Diante do evidente oportunismo das ‘oposições’ a “declaração de respeito” do governador Marconi à presidente Dilma… Leia mais