A sociedade goianiense acordou em polvorosa na última quarta-feira, dia 5 de junho. A Polícia Civil deflagrou, já nas primeiras horas da manhã, uma megaoperação com o objetivo de apurar os crimes de fraude em licitações e contratos da Prefeitura de Goiânia, corrupção ativa, corrupção passiva, constituição de organização criminosa e lavagem de dinheiro. Foram cumpridos 19 mandados de busca e apreensão, sendo um na sede da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinfra), oito em sedes de empresas e 10 em casas de pessoas físicas “notadamente de sócios administradores e funcionários de empresas e de funcionários públicos municipais investigados”. Um desses mandados foi justamente cumprido na casa de Denes Pereira, então titular da Seinfra e apontado como o responsável pelos contratos celebrados com as empresas investigadas.

Esse mesmo Denes é considerado o braço direito do prefeito Rogério Cruz (Solidariedade), um dos maiores articuladores do chefe do Executivo municipal dentro do Paço. Partiu dele, inclusive, a ampla abertura para a filiação de Rogério quando ele decidiu deixar o Republicanos por não encontrar espaço para seu projeto à reeleição. Porém, com o episódio de quarta-feira, fora a segunda vez que o fiel soldado do prefeito era mirado como alvo da Polícia Civil (em março, a pasta de Denes também foi alvo de operação policial). Rogério bem que tentou, mas não conseguiu mais segurá-lo. No mesmo dia da operação, Denes foi exonerado, a pedido, da Seinfra – considerada uma das pastas-vitrine da atual gestão.

No mesmo dia da operação, mais uma bomba: a Justiça acatou o pedido liminar de uma empresa com sede no Rio de Janeiro, a Promulti, e suspendeu o contrato firmado entre a Prefeitura de Goiânia e a Limpa Gyn, consórcio vencedor da licitação para os serviços de limpeza na capital e que está, há mais de dois, à frente da coleta de lixo, coleta seletiva e varrição mecanizada na cidade. E nesse ponto, é preciso dizer: as investidas da empresa carioca junto à Justiça para barrar a atuação do consórcio na capital leva a crer que há, nos bastidores, um enfrentamento entre duas empresas interessadas em ficar com o contrato de serviço de limpeza – situação que pode, como consequência, colapsar e fazer voltar à estaca zero o processo de regularização da coleta de lixo e limpeza na cidade.

Mas deixando de lado o mérito, a decisão judicial foi, sem dúvida, mais um “pepino” a ser resolvido pela atual gestão municipal. Como se não bastasse, na quinta-feira da mesma semana, ganhou força o informação de bastidor que a chamada CEI da Saúde, uma Comissão Especial de Inquérito que estaria sendo elaborada com discrição na Câmara Municipal para investigar supostas irregularidades na Saúde do Município, já contaria com 15 assinaturas (mais do que as 12 necessárias) e pode ser apresentada já nesta semana.

Com uma crise emendada à outra, a realidade mostrada é o que pode se chamar de “inferno astral” para Rogério Cruz. Vale destacar que o prefeito já amarga com uma alta taxa de rejeição por parte do eleitorado (conforme levantamento do instituto Opção Pesquisas, divulgada na última quarta-feira, 5, o gestor é o mais rejeitado entre os pré-candidatos ao pleito municipal deste ano, com 34%. Em seguida está Adriana Accorsi (PT), com 23,8%, e Gustavo Gayer (PL), com 8,2%), e pela lógica, receia os efeitos que a sequência de tensões pode ter sobre seu projeto de reeleição. Contudo, nem tudo está perdido.

Como bem sintetizado pelo cientista político Guilherme Carvalho, entrevistado pelo Jornal Opção em março deste ano, “jogo é jogo, treino é treino”. A expressão usada pelo cientista se refere ao fato de que uma alta aprovação não significa, necessariamente, intenção de voto. Carvalho apontou, na época, a existência de estudos e pesquisas na área das ciências políticas que mostram que temas ligados à corrupção “importam muito para a classe média e alta”, mas que existe um “certo consenso, até anterior a essas pesquisas, que o eleitorado que ganha eleição não é esse, [mas sim] a massa, que por enquanto é clientelista”, ou seja, depende do acesso aos serviços da Prefeitura. Se Rogério Cruz está ciente desse dado ou não, é um mistério, mas que ele está focado nisso, é um fato.

Como mencionado neste artigo, a Seinfra se tornou a pasta-vitrine desta gestão, justamente pela grande quantidade de obras “colocadas para andar”, sobretudo no que tange à pavimentação e mobilidade. “Goiânia vai entrar, sem sombra de dúvida, para a história do país. É uma cidade com maior quantidade de quilômetros recapeados em uma única gestão”, declarou Denes Pereira, antes da operação que o levou à queda.

A gestão também gosta de destacar que foi a responsável pela inauguração dos terminais Paulo Garcia, na Avenida Goiás Norte, e Hailé Pinheiro, também na Goiás Norte, próximo ao encontro com a Perimetral Norte, além do novo Terminal Isidória, que contou com investimento de quase R$ 20 milhões. Mas acima disso, há a “menina dos olhos” de Rogério: o BRT.

A ideia é animadora: modernizar o sistema de transporte público da cidade, oferecendo uma alternativa eficiente e sustentável, e melhorar a mobilidade urbana com redução do tempo de deslocamento por meio de corredores exclusivos para ônibus (elétricos e à combustão). No entanto, aqui se fala de uma obra de 10 anos que paira no imaginário do goianiense, chegando quase ao status de “lenda urbana”. De extensão no prazo de entrega das obras, novas licitações até paralisação pelo Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional (Iphan), pandemia de Covid-19 e abandono por parte de empresa responsável, a lista de entraves no caminho do tão sonhado BRT é longa desde os longínquos 2015, quando foi iniciado.

É justamente pela entrega deste primor que Rogério Cruz pretende fazer de legado, usando, ainda, como propulsor de sua candidatura à reeleição. Em entrevista concedida ao Jornal Opção em abril deste ano, Cruz garantiu que o BRT estará funcionando 100% até o mês de agosto. Na ocasião, o gestor informou que a fase 2 – do Terminal Isidória até o Recanto do Bosque – estava concluída e que haviam chegado 55 ônibus zero quilômetro para operar na nova linha.

“A RedeMob, que é quem monta os equipamentos nas estações, precisa de 60 a 90 dias para montar toda a estrutura de tecnologia: catraca eletrônica, leitor de cartão, portas de vidro que se abrem e fecham quando o transporte chega. Se você colocar esses 90 dias, a Redmob vai entregar em julho. Então vamos dizer que em agosto o BRT funciona 100%”, projetou.

Por óbvio, após 10 anos de espera, dúvidas e incertezas sobre a promessa de entrega do BRT neste ano circulam firmes. Porém, caso se concretize, e seguindo a análise do cientista político feita à reportagem, o projeto pode ser a corda que tirará Rogério do poço da alta rejeição, alçando-o com o status de prefeito que inaugurou a obra que nenhum outro conseguiu.