Afonso Lopes
Afonso Lopes

Em busca de saída

Popularidade da presidente Dilma Rousseff bate recorde negativo e está pior do que a de Fernando Collor na fase pré-impeachment. E agora?

Arenas que custaram milhões estão às moscas depois da Copa do Mundo: desperdício que agrava a crise

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Os números da economia brasileira são simplesmente vexatórios. Inflação em alta, já se aproximando dos perigosos dois dígitos, desemprego crescente, recessão econômica com previsão acima dos dois pontos, dólar em disparada, taxas de juros muito mais apropriadas para economias rudimentares. Os números do governo no Congresso seguem nesse mesmo compasso. Oposição com ampla repercussão, pautas-bombas, descontrole e irresponsabilidade total com o ajuste nas contas públicas, dissidências que extrapolam a base governista e já se instalam no partido da presidente, o PT.

Provavelmente, uma crise tão grave como essa, que envolve a economia e a política com incrível intensidade e profundidade, não encontra paralelos nem mesmo nos piores momentos de José Sarney ou Fernando Collor de Mello. Talvez por isso o Instituto Datafolha, ligado ao grupo que editada o jornal “Folha de S.Paulo”, e que mantém uma série de levantamentos desde o governo de Collor, tenha registrado na semana que passou que a popularidade de Dilma é pior agora do que era na fase de pré-impeachment do ex-presidente alagoano.

Presidente Dilma Rousseff: avaliação menor que a de Collor | Lula Marques/ Agência PT

Presidente Dilma Rousseff: avaliação menor que a de Collor | Lula Marques/ Agência PT

Há alguns meses, quando opositores falavam sobre tudo isso que aí está, a tropa de choque governista sacava da verborragia de Fla-Flu rótulos como coxinha, golpista e fascista. Hoje, nem isso dá pra fazer. Até porque se isso for verdade, ou seja se a oposição é coxinha, golpista, direitista e/ou fascista, então é essa a cara da esmagadora maioria do Brasil.

Diante de números tão acachapantes na economia e seus terríveis efeitos colaterais imediatos na política, o vice-presidente Michel Temer, que em tese teria o controle da cúpula do PMDB, principal e mais numeroso partido que compõe a base governista, ensaiou um discurso emocionado em entrevista coletiva chamando para uma espécie de pacto nacional de responsabilidade. Tipo assim: vamos nos unir porque a coisa chegou num ponto que daqui em diante não há nada além do caos.

Mas é aí que está o grande nó: como unir em torno de um ajuste fiscal que sacrifica a esmagadora maioria dos cidadãos com mais impostos, menos salários, mais desemprego, menos crédito, mais juros e menor poder de compra ao mesmo tempo em que o governo da República mantém sem cortes uma das maiores e piores máquinas públicas do planeta, que além de gigantesca, com 38 ministérios, é tão perdulária que gerou em suas entranhas milhares de formidáveis máquinas de roubo de dinheiro da população? Politicamente, até seria possível unir geral em torno do governo — bastando para isso abrir a porteira para novos encargos para a máquina administrativa de modo a distribuir agrados entre os integrantes da base governista. Mas é absolutamente impossível unir a população em torno da realidade econômica e, principalmente, em torno da manutenção de tudo isso que aí está.

A crise tem a sua origem na orientação econômica que se adotou para domar as contas públicas e não na atividade política. E a única saída é a urgente mudança conceitual do receituário que tem sido aplicado. Não dá pra elevar as taxas de juros da forma e na intensidade que se fez e perceber que, assim, todo o sacrifício da população, que se calcula em 80 bilhões de reais este ano, vai apenas e tão somente cobrir parte do que se vai desembolsar na administração da paquidérmica dívida pública interna. Ou seja, vai se retirar do bolso de cada brasileiro um total de 80 bilhões para que 20 mil famílias de rentistas nacionais passem ao largo da crise, e até aumentem suas rendas com ela.

Sem falar que com crise ou sem crise, Brasília é a mesma de sempre. Nem bem saímos de uma Copa do Mundo que nos custou, por baixo, 40 bilhões de reais, e dezenas de grandes esqueletos de concreto nas obras inacabadas, além de vários alvos e elegantes elefantes em forma de “arenas”, e já estamos torrando mais alguns bilhões para promover outra festança mundial, os Jogos Olímpicos. E nem ao menos conseguiram limpar a sala da festa, a Baía de Guanabara, uma das muitas latrinas marítimas que serpenteiam nas principais cidades costeiras do país.

Não, não dá. A crise não foi fabricada pela oposição ou por capricho da sociedade ou de parte dela. Essa crise foi construída ao longo da última década, e quem a construiu precisa entender que a população está farta de pagar a conta sozinha. Desta vez, a conta vai ter que ser rachada, e se o governo não topar pagar a parte dele, não há saída para a crise. Ao contrário, talvez esteja se iniciando o caminho para a entrada do impeachment.

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