Afonso Lopes
Afonso Lopes

Eleição mais imprevisível da história

Desde a implantação da chamada “Nova República”, com a eleição indireta de Tancredo Neves na Presidência, jamais uma campanha foi tão imprevisível como a que está prevista para o ano que vem

Qual é a única certeza em relação às eleições nacionais e estaduais do ano que vem? Talvez uma única: a de que a Constituição prevê que a sucessão será em 2018, com eleições diretas para a chapa presidencial, dos governos estaduais, dois terços do Senado, e deputados federais e estaduais.Todo o restante que engloba o grande cenário de uma disputa como essa é completamente desconhecido.

A começar pelo principal, os candidatos. Em nível nacional, Lula jura que está disposto a entrar na disputa, mas ninguém sabe se essa promessa é mesmo pra valer ou se faz parte de uma ação bem pensada para transformar em emoção a encrenca sem tamanho que há contra ele na tal República de Curitiba. Ciro Gomes, que faz o possível para herdar o combalido, mas sempre fácil, discurso da esquerda, também diz que vai disputar o cargo, mas faz questão de ressaltar que se Lula realmente for candidato, ele não será. Jair Bolsonaro, o príncipe da direitona, faz pose de salvador da dilapidada e desesperançada lavoura tupiniquim. E tem crescido nas pesquisas. Se esse ânimo todo vai durar muito tempo ou é fogo de palha vai se ver depois. Pelo menos até aqui não há substância numa candidatura como essa. No ninho tucano, as chaminés da Lava Jato chamuscaram geral as asas da turma. Sobrou apenas João Dória, prefeito de São Paulo eleito no ano passado. É muito pouco tempo para ele ter efetivamente o que mostrar para o eleitor.

Em Goiás, a situação geral é muito parecida com esse cenário geral da Presidência. Os nomes mais cotados atualmente são os de José Eliton, vice-governador, e Ronaldo Caiado, senador pelo DEM. O deputado federal Daniel Vilela e o pai dele, ex-governador e ex-prefeito de Aparecida de Goiânia Maguito Vilela, vão precisar traçar novas rotas se um ou outro quiser entrar na disputa pelo Palácio das Esmeraldas. A simples menção de que eles são suspeitos de receber caixa 2 nas campanhas provocaram um grande estrago inicialmente. Nada que não possa ser contornado, percebe-se neste momento, mas o curso da caminhada não poderá ser mantido. É preciso reconstruir base até dentro do próprio PMDB, que já fala sem nenhum pudor que Ronaldo Caiado seria recebido com tapete vermelho para ser o candidato do partido ao governo do Estado.

Outra incerteza total será a forma de financiamento das campanhas. Com a proibição das doações pelas empresas, em vigor desde as eleições municipais do ano passado, o mundo político tem quebrado a cabeça para saber como resolver esse problemão numa eleição muito mais cara e abrangente como a estadual. Em 2018, será a primeira vez que os governos estaduais, as vagas para o Senado, para a Câmara dos Deputados e para Assembleia Legislativa vão ser disputadas sem a grana das empresas, que sempre foi a maior parcela dos custos. Existem muitas suspeitas de que houve um incremento no caixa 2 nas eleições municipais no ano passado exatamente por causa da proibição. O problema é que a Lava Jato criou um clima de absoluto terror entre as empresas e os candidatos. Caixa 2, que antes todo mundo sabia que existia e ninguém se incomodava seriamente com ele, agora é quase uma sentença de morte prematura de mandato vitorioso. É a tal história: quem vai enfiar a mão numa cumbuca como essa durante a campanha sabendo antecipadamente que lá dentro pode estar um par de algemas? Só um maluco fará algo assim.

As eleições para deputados estaduais e federais não seguem muito essa lógica financeira pesada, mas também têm despesas ele­vadas. Como o corte no di­nheiro disponibilizado em todas as campanhas eleitorais foi duro, parlamentares que sabem utilizar bem o mandato que estão exercendo, e se aproveitam das mídias alternativas, principalmente a internet, a nova fronteira da comunicação de massa mundial, certamente levam alguma vantagem. Princi­pal­mente aqueles que não foram citados nas delações da Odebrecht nem vão ser citados nas demais que devem vir, como a OAS, Camargo Correia e tantas outras.

Aliás, o simples fato de que todo o grande estrago provocado até agora foi por conta somente das delações de uma só empreiteira, embora seja a maior delas, a O­de­brecht, fica mais uma enorme incerteza sobre candidaturas em 2018: o que mais ainda vai aparecer das entranhas do monstro eleitoral brasileiro? Não há como saber. O jeito é esperar pra ver. l

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