Afonso Lopes
Afonso Lopes

É melhor começar na frente ou correr atrás durante a campanha?

Sair na dianteira é melhor, sem dúvida, mas isso não é garantia de que o jogo será mais fácil

Foto: Nelson Jr./ ASICS/TSE

Estrategicamente, iniciar as campanhas eleitorais liderando as pesquisas é muito melhor do que começar atrás. A liderança tende, por si só, a chamar mais a atenção, e isso numa campanha é sempre muito importante. Mas, claro, não é o suficiente para chegar à frente no final. Tudo, e sempre, vai depender da campanha. Quem trabalha mais e melhor tende a obter um desempenho que confirme ou altere favoritismos precoces.

Quem inicia um processo eleitoral em desvantagem em relação aos adversários diretos tem um caminho complicado pela frente. A começar pelo fato de que essa desvantagem provoca um efeito negativo também no que se convencionou chamar de perspectiva de poder, que é, grosso modo, a sensação de que está se caminhando para a vitória. Quem lidera as pesquisas tem essa perspectiva de forma natural, e encontra mais facilidades para trabalhar sob esse clima bem mais ameno do que adversários que começam sem tanto apelo popular.

O problema é que nem sempre a liderança representa realmente intenções de voto. Quando as pesquisas são realizadas muito longe das urnas, elas captam muito mais conhecimento público, popularidade, do que qualquer outra coisa. Todos os candidatos sabem disso, mas nenhum líder admite isso. Preferem traduzir os números favoráveis das tabelas dos institutos de pesquisa quase como uma antecipação do resultado futuro.

Liderança facilita apoios
Quem aparece em desvantagem costuma se justificar exatamente com essa informação, mas como está atrás na medição de popularidade, é óbvio que a opinião dele tem muito menos repercussão e credibilidade. Fica parecendo desculpa de “perdedor”, embora realmente não seja.

Dentre as vantagens claras e diretas de largar uma corrida eleitoral liderando as pesquisas, de preferência com uma boa margem, está a maior facilidade de gerar fatos e conquistar apoios. Isso, evidentemente, não cai no automático. Não existe liderança em pesquisa que substitua o trabalho político. É necessário buscar esses apoios, e se comprometer com eles. Um dos erros mais crassos que alguns líderes de pesquisas eleitorais cometem é acreditar que os apoios vão pular no seu colo sem trabalho algum. É uma tremenda bobagem, e que normalmente custa bastante caro.

Na política, e especialmente em processos eleitorais, uma falha mortal é passar a imagem de prepotência, autossuficiência, de que vai vencer a eleição e, portanto, não precisa de trabalhar apoios. As grandes viradas eleitorais acontecem por uma série de fatores, mas um dos mais graves é desprezar o potencial dos adversários e não ampliar a relação política dos apoios.

Um bom e prático exemplo desse fato aconteceu aqui mesmo em Goiás, em 1998. Do alto de seus 70% nas pesquisas, o MDB imaginou que a eleição já estava definida, e passou a esbanjar prepotência. Houve um momento, naquela eleição, que o PSDB, pressionado pelo então presidente da República Fernando Henrique Cardoso, que corria atrás de sua reeleição, poderia ter se juntado aos emedebistas. Conversa vai, conversa vem, e a cúpula da campanha do MDB se limitou a oferecer uma das vagas de suplente de senador. A segunda vaga, para ser mais exato.

Desdenho
O PSDB queria a vice-governadoria ou até a primeira vaga na chapa do Senado. Os emedebistas, com os tais 70% debaixo do braço, desdenharam. E esse foi o argumento que os tucanos de Goiás queriam para não fechar aliança com o MDB, e contiuarem de bem com FHC. O então superministro da República, Sérgio Motta (falecido em 1998), que era também um dos maiores comandantes do PSDB nacional, entendeu de imediato que forçar a barra numa aliança daquele tipo com os emedebistas seria o mesmo que uma rendição incondicional e humilhante.

Deu no que todos sabem. De volta ao ninho oposicionista, de onde jamais quis sair, os tucanos compuseram com os outros três partidos que não se alinhavam com o hegemônico MDB goiano: PFL-DEM, PTB e PP. Faltava, de qualquer forma, um candidato que pudesse partir para o “sacrifício” de enfrentar os emedebistas e os 70% de Iris. Os bambambãs da oposição nem cogitaram a possibilidade de abandonar seus projetos de eleição para a Câmara dos Deputados, e sobrou para um jovem deputado federal, que tinha reeleição considerada bastante fácil: Marconi Perillo. Ele não apenas topou a tal “empreitada perigosa”, como circulava com seus 6 pontos porcentuais dizendo que venceria a eleição. Venceu mesmo.

Além da prepotência e autossuficiência, líderes precisam trabalhar muito bem as oscilações naturais das pesquisas. A tendência natural, e quase sempre rotineira, é que os candidatos com porcentuais menores e boas estruturas de campanha costumam crescer, e para que isso aconteça é evidente que o líder pode perder alguns pontos. O monitoramento constante dessas oscilações serve para avaliar corretamente até que ponto o crescimento do adversário é uma acomodação natural do eleitorado, ou início de uma debandada geral.

No fundo, o que conta mesmo numa campanha eleitoral é a verdade cristalina: o objetivo de uma candidatura não é liderar pesquisas, mas vencer a eleição. A pesquisa é um conjunto importante de informações, mas sozinha não faz milagre algum

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