Deus acima de todos? A escolha na UFG mostra como o governo Bolsonaro é diabólico

16 janeiro 2022 às 00h03

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Processo da lista tríplice para a Reitoria da instituição foi exemplar para entender a que se prestam atual presidente da República
Com quase 30 anos de Universidade Federal de Goiás, a professora Sandramara Matias Chaves percorreu uma trajetória acadêmica e administrativa que a capacitou totalmente para assumir o comando da instituição.
Professora dos quadros da UFG desde 1993, foi lá também que fez sua graduação, em Pedagogia, e seu mestrado, em Educação. Na Universidade de São Paulo (USP), chegou ao título máximo, com o doutorado, também em Educação. Enquanto isso, lecionava (como faz ainda hoje, apesar da rotina de gestora) e foi acumulando funções administrativas, desde a chefia de departamento de Pedagogia, na Faculdade de Educação, no início da carreira, ao reitorado interino que exerceu até sexta-feira, 14.
Entre uma data e outra, muita experiência em sala de aula, em comissões, em coordenadorias, na pró-reitoria mais visada da instituição – a de Graduação, por oito anos – até chegar à vice-reitoria, no terceiro mandato de Edward Madureira Brasil à frente da UFG.
Candidata a reitora tendo em sua chapa o professor Jesiel Carvalho, pró-reitor de Pesquisa e Inovação, como vice, venceu, ainda em junho, a consulta à comunidade universitária diante da dupla formada pela também ex-pró-reitora (de Pesquisa e Pós-Graduação) Maria Clorinda Fioravanti e pelo ex-diretor da Faculdade de Filosofia (Fafil) Adriano Correia Silva.
“Consulta” é o nome que se dá às eleições nas instituições federais de ensino superior, já que é prerrogativa do presidente da República escolher e nomear quem melhor lhe convier dentro de uma lista tríplice determinada, a partir da consulta, por votação do Conselho Universitário (Consuni).
Além de Sandramara, compuseram essa lista também os nomes das professoras Karla Emmanuela Ribeiro Hora, diretora da Escola de Engenharia Civil e Ambiental (Eeca), em segundo lugar; e Angelita Pereira de Lima, diretora da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC), em terceiro lugar. Ainda era junho quando os três nomes foram enviados ao Ministério da Educação.
Sandramara, Edward, Jesiel, Maria, Adriano, Karla, Angelita. Educadoras e educadores, pesquisadoras e pesquisadores, gestoras e gestores, nenhum com folha rasa em termos de prestação de serviços à comunidade acadêmica. Basta ir à Plataforma Lattes e digitar o nome de cada um(a) para se certificar do peso de cada nome. Portanto, não há nem teria como haver um juízo de valor específico sobre a competência desses docentes: estão todos aptos, pelo histórico, a administrar uma universidade.
Abrindo aqui um enorme parêntese no texto, deixando um pouco o ensino e a pesquisa de lado e indo do meio da ciência para o lugar da religião: Evangelho de João 8, 32, ou “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.
Não por ironia do destino, mas porque se apossou politicamente do sentimento cristão que está na base da população brasileira, Jair Bolsonaro (PL) se elegeu tendo esse versículo como lema e a frase “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” como slogan. Isso mesmo tendo, no currículo, três casamentos (o que seria o de menos, mas já é si uma contradição diante dos preceitos) e declarações homofóbicas, misóginas, machistas e extremamente violentas e desumanas.
Noves fora tudo isso, já incomoda a quem é de fato cristão ver o divino servindo de marketing para político. Quando a discrepância entre o discurso e a prática afloram de modo tão nítido, é caso para refletir se, na verdade, há outras questões para se admitir não ver o lobo em pele de cordeiro assentir com ele tomar conta do rebanho.
Etimologia
No exercício do poder, o lobo Bolsonaro têm se mostrado de fato nada cristão em seus atos. Pelo contrário, tem feito questão de tomar posicionamentos diabólicos. Aqui, o uso do adjetivo não vem apenas como forma de expressão forte para o discurso, mas tem pertinência etimológica: a palavra diabo vem do grego diabolos, que por sua vez tem origem no grego antigo dia-ballein. Tradução? “Aquele que cinde, separa, atira para longe, rasga, condena”.
Como antípoda da conhecida oração franciscana, o discurso diabólico é aquele que, onde havia a fé, leva a dúvida; onde se tem a verdade por pressuposto, instaura uma mentira – ou uma fake news disfarçada (o diabo gosta de disfarces) de “liberdade de expressão”. Semeador da discórdia por natureza, impõe incertezas na cabeça dos incautos. Hora de fechar os parênteses.
Veja bem: até 2020, quantos pais ou mães pensariam duas vezes em proteger seus filhos com uma vacina em meio a uma pandemia mortal? No Brasil, é o presidente quem puxa a fila dos que rejeitam a imunização para as crianças, ao chamar o produto de “experimental” repetidas vezes e ao afirmar categoricamente que não vacinará sua filha de 11 anos.
A narrativa da divisão, da aposta na incerteza improvável, mesmo diante de dados estatísticos claros e opostos, corroeu a mente dos menos instruídos e dos mais inseguros. Onde havia princípios de pesquisas avalizados para uso depois de várias fases de teste, estabeleceu-se a teoria da conspiração sobre a vacina. Quantas pessoas morreram por isso? Quantas crianças morrerão?
Para combater o coronavírus, pesquisadores do mundo inteiro se uniram em uma gigantesca força-tarefa. Conseguiram acelerar a viabilização de não apenas um, mas vários imunizantes, de forma extraordinária, a partir do compartilhamento de conhecimentos e do uso de pesquisas anteriores com vírus semelhantes. Criar uma vacina eficiente apenas um ano depois da descoberta do agente etiológico foi uma grande vitória da humanidade.
A ciência é a grande inimiga do obscurantismo que Bolsonaro representa e lidera. E, especialmente no Brasil, em meio a todo o processo errático de condução da pandemia protagonizado pelo governo federal, o saber e a prática científicos foram protagonizados pelas universidades públicas.
Em Goiás, a UFG disponibilizou seus melhores quadros para o atendimento das demandas necessárias. O governo estadual se baseou nas projeções do Grupo de Modelagem da Expansão da Covid-19, coordenado pelo professor Thiago Rangel, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), para estudar os cenários de fechamento e abertura da economia, tentando minorar perdas de vida prejudicando ao mínimo possível a renda de empresas e trabalhadores; a professora Gabriela Duarte, do Instituto de Química (IQ), liderou uma equipe que desenvolveu testes rápidos para Covid-19 (pesquisa bancada pelo Ministério Público do Trabalho, no valor de R$ 1,3 milhão); o Instituto de Estudos Socioambientais (Iesa), com o professor Manuel Eduardo Ferreira à frente, idealizou, realizou e alimenta o site Covid Goiás, uma base de dados de casos, internações e mortes que ajudam, a entender os rumos da pandemia em cada município e no Estado como um todo; na Escola de Engenharia Elétrica, Mecânica e de Computação (EMC), no momento mais crítico do caos sanitário, foram projetados e depois disponibilizados respiradores mecânicos, em trabalho comandado pelos professores Rodrigo Lemos e Sigeo Kitatani Jr.

Desnecessário falar que os leitos e os profissionais de saúde do Hospital das Clínicas, que há décadas servem à saúde do município e de toda a Grande Goiânia, mais do que nunca cumpriram um papel vital – além de ter sido inaugurado, durante a pandemia, o novo e amplo prédio do complexo.
Ironicamente, enquanto tudo isso ocorria, o então titular do Ministério da Educação continuava a gritar (e a postar em suas redes sociais) que a universidade era um antro de “comunistas” que vagabundeavam em meio a muita orgia e balbúrdia regadas a maconha e overdoses de Paulo Freire.
O tempo vai deixar transparente como foi a história da pandemia. E o que vai contar dela, também, é que a paga que Bolsonaro deu à UFG e a dezenas de outras instituições de ensino superior pelos serviços prestados à sociedade, por meio da ciência, da pesquisa e do trabalho de seus quadros, foi interferir da pior forma a seu alcance no rito democrático das comunidades acadêmicas.
Afinal, quem poderia imaginar Bolsonaro fazendo questão de escolher uma petista para comandar uma universidade? Foi o que se deu quando preferiu a professora Angelita e preteriu a escolhida Sandramara. A primeira é pioneira dos quadros do PT e havia sido candidata a deputada estadual em 2014. Mas vale até nomear uma inimiga (“vamos metralhar a petezada”, como já chegou a dizer) para contrariar o desejo da instituição.
Qual o intuito, qual o sentido? O de sempre, como bom diabo: causar a discórdia, estabelecer o racha, inaugurar o tempo da dissensão no meio da instituição, enfraquecê-la, dividi-la para, se tiver a oportunidade, dar o golpe.
Felizmente, a UFG é madura o suficiente para entender o momento e absorver o revés, ainda que o ineditismo da desobediência desse contrato não escrito – o de avalizar o nome preferido pela votação – vá doer por muito tempo. Especialmente em quem, durante sete meses, viveu a expectativa de ver referendado seu projeto de gerir a universidade, construído em décadas de dedicação.
A trama – gratuita, além de diabólica – foi enfrentada com tristeza e serenidade, especialmente por Sandramara, Edward e Angelita, empossada na sexta-feira. Sucesso a ela, que precisará do apoio de toda a comunidade universitária durante estes tempos nebulosos.
Justamente o tempo é senhor. E, se o que é bom um dia passa, tampouco o que é nefasto dura para sempre.