Afonso Lopes
Afonso Lopes

A derrota de todos

De uma maneira geral, o público adora a troca de insultos pesados entre os grandes da política. Poucos percebem o quanto todos perdem com isso

Senador Ronaldo Caiado e ex-senador Demóstenes Torres: um show pouco edificante na troca de insultos | Fotos: Marcello Casal Jr./ABr e Euza Fiúza/Abr

Senador Ronaldo Caiado e ex-senador Demóstenes Torres: um show pouco edificante na troca de insultos | Fotos: Marcello Casal Jr./ABr e Euza Fiúza/Abr

Nada mais animador do que uma boa discussão, de preferência pesada mesmo, entre figurões da política. Em todos os âmbitos, do município ao plano nacional, passando pelos governos estaduais. Vira uma espécie de MMA, em que o sangue jorrado do rosto desfigurado de um dos lutadores é um verdadeiro néctar para o mórbido prazer sádico da galera em delírio. Poucos se dão conta de que não há nada para lucrar socialmente com esse tipo de disputa na política. Da mesma forma como, entendo eu, o MMA não acrescenta nada para as pessoas enquanto esporte, se não apenas uma fortíssima sensação de poder brutalizado.

Mas, enfim, as pessoas gostam disso tudo. Vibram, torcem, se em­polgam. Mas o que fica depois do “show” de horrores? Qual é a “he­rança” genética de situações assim?

Para a política e para toda a sociedade os prejuízos são terríveis pelo mal que as trocas de insultos acabam gerando no ânimo de todos, e em cada um. Nesse sentido, e enquanto nação, o Brasil está cada dia pior. Muito pior.

Rouba-se mais agora do que se roubava antes dos cofres públicos? Sem dúvida que sim. Nos transformamos numa nação cleptomaníaca, povoada de espertos que fazem questão de “levar vantagem”, mesmo que de forma indevida. Em todos os níveis. Do chefe de quarteirão aos principais gabinetes desta republiqueta de quinta categoria. Do cidadão que espera o melhor momento para “furar” a fila, ao motorista que estaciona o carro numa vaga destinada a pessoas especiais. Do casal que se separa em duas filas distintas no supermercado para optar pela mais rápida apenas nos últimos momentos a fim de “ganhar” dez minutos de tempo, mesmo que isso seja não apenas desleal, mas um tremendo desaforo para os demais que se sentem enganados pela “esperteza” dos tais. Do trabalhador entrevistado na rua que admite que se estivesse cuidando do dinheiro público também roubaria uma parte “porque todos fazem”, quando não acrescentam o arremate: “bobo de quem não fizer”.

Mas o que tudo isso tem a ver com a troca de desaforos entre um senador da República e um ex-senador? Tudo. Não que se negue a origem conflitante dos posicionamentos políticos antagônicos. Óbvio que não. A política é essencialmente a incessante disputa entre um lado e o outro, entre uma coisa e outra, entre o que se convencionou chamar como direita ou esquerda. O problema é quando essa disputa vaza do ambiente da construtividade de opções políticas para a discussão rastaquera do mero desaforo e insulto. De tudo o que disseram um do outro, o que se pode extrair de positivo para a população, para cada um de nós? Nada. E se é assim, melhor seria se não tivessem falado/escrito absolutamente nada porque, queiram ou não, eles são cada um em seu tempo e em seu espaço social, líderes. E líderes geram com seus atos modelos e formatos a serem copiados. E o que se pode copiar desse conflito? Que modelo seguir?

Escapando um pouco desse tema, mas mantendo-o sob o foco, as sucessivas denúncias de roubalheiras não vão melhorar o Brasil. Não que isso signifique que não devam ser apuradas e, os culpados, punidos. Muito pelo contrário, obviamente. Devem, sim, ser rigorosamente desvendadas e, identificados os autores, punir com toda a extensão e profundidade de rigor que a lei puder determinar.

Isso, porém, não vai nos melhorar socialmente porque caem na vala comum do exemplo dos líderes para a maioria seguir. Se os grandes fazem as estripulias espúrias com dinheiro público, por que o cidadão comum não vai fazer, dentro do seu mundo, a mesma coisa, seja escondendo dinheiro ganhado honestamente na cueca para driblar o fisco, seja pirateando um sinal de TV por assinatura, instalando um mecanismo qualquer que “furte” energia elétrica ou água tratada? Por que o cidadão desta nação cleptomaníaca, diante de tantos escândalos nacionais, estaduais e até nas menores repartições públicas, não vai vender o seu voto, trocá-lo por qualquer vantagem imediata. Afinal, e os exemplos nos entorpecem cada vez mais, “os políticos são todos iguais”.

Não. Os políticos não são todos iguais. Nós todos é que estamos ficando a cada dia, e sempre, cada vez mais iguais aos políticos. Eles não se sentem constrangidos quando flagrados roubando dinheiro público porque a população admite que “faria a mesma coisa” e, então, “bobo seria ele se não fizesse também”.

Mas, certamente, e muito se ouve por aí, “a maioria da população é honesta”. Não, não é. A minoria provavelmente seja, mas a maioria, definitivamente, não é. Se fosse, os políticos não seriam como são, não agiriam como agem, não se sentiriam como parte integrante, “só que um pouco mais esperta”, do conjunto social. Seriam abomináveis seres esdrúxulos.

O Brasil segue “vendo triunfar as nu­lidades, vendo crescer as injustiças” (como disse Rui Barbosa há 100 anos). É realmente desanimador.

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Caio Maior

Excelente texto. De tudo que li acerca deste lamentável “debate” foi a única análise que enfocou o principal aspecto do embate: quais os resultados positivos para os cidadãos eleitores? A interpretação dos fatos – estabelecendo paralelo com a atitude da cidadania corrompida – expôs a alma da nossa sociedade. Estou convicto de que o único ganho possível nesse triste episódio será a reflexão de todos – a parti das considerações alinhadas neste artigo. Parabéns!