Afonso Lopes
Afonso Lopes

A democracia dos passivos

O conceito de democracia no Brasil se resume em votar de dois em dois anos e deixar o barco rolar depois. Não pode dar certo

Brasileiros votam, o que é obrigação, mas não questionam os eleitos depois, o que enfraquece a representação | Foto: Mariama Correia

Brasileiros votam, o que é obrigação, mas não questionam os eleitos depois, o que enfraquece a representação | Foto: Mariama Correia

É um ditado meio ufanista repetido à exaustão por dezenas de anos: o brasileiro é um sujeito pacífico. Isso é apenas uma frase bonitinha, mas de conteúdo falso e, portanto, ordinário, inadequado. O brasileiro nunca foi pacífico. Ao contrário, hoje está entre os que mais matam no mundo. Sem contar as brigas que resultam em ferimentos entre leves e graves aos milhares e por motivos quase sempre banais. Isso não é ser pacífico. Ao contrário, é ser violento pra caramba.

Essa autofama de bom e cordato sujeito talvez tenha ligação com o fato de que o Brasil não tem guerras contra seus vizinhos há mais de 100 anos, e somente entrou na 2ª Guerra Mundial após ser atacado em suas enormes costas marinhas. Em relação aos vizinhos, essa paz aí é garantida pelo tamanho do país que nos foi entregue pelos portugueses, que abrange quase todo o continente sul-americano e fala a mesma língua, embora com sotaques regionais. A vizinhança, deixada pelos espanhóis, é uma colcha de retalhos. A única coisa em comum é a língua espanhola. O resto é rivalidade o tempo todo, e históricas briguinhas por causa de um morro aqui e outro ali. Então, é uma paz naturalmente proveniente do tamanho da encrenca que qualquer vizinho teria se crescesse os olhos pra cima do país. E nós já somos grandes demais para cobiçar algum morro na vizinhança.

Mas no dia a dia o brasileiro é qua­se um bárbaro. E o “quase” aqui é uma maneira sutil de amenizar a palavra. O sujeito aqui se vangloria de chamar pra briga por qualquer coisinha de nada. E os que estão em volta, assistindo, ainda consideram o cara “bravo pra caramba”. Bravo nada. É, sim, um troglodita. E esse caráter violentíssimo não respeita nem idade. As escolas estão aí para nos jogar na cara essa verdade, com meninos, meninas e adolescentes de ambos os sexos trocando tapas e pescoções, quando não facadas e tiros, por discussões absolutamente fúteis e superficiais. É apenas violência como fator cultural.

E, pra fechar, o pacífico ou pacifista é nada mais que um “frouxo”. Ou “frouxo” ou um “santo”, embora seja tão somente um sujeito perfeitamente civilizado, que vê a violência como última fronteira e não como primeira opção para oprimir ou se firmar.

Mas quando o assunto é a de­mocracia, aí até os “machões” se transformam em passivos, cordeirinhos humanos na fila silenciosa do abate. O brasileiro só é agente ativo na democracia quando, mesmo reclamando, entra na fila pra votar de dois em dois anos. E mesmo assim, se mostra passivo.

Veja, por exemplo, a tal identificação biométrica. Os bancos já adotaram esse sistema em muitos casos nos caixas eletrônicos. É muitíssimo difícil falhar. O cidadão chega, bota o dedão no lugar certo e, se tiver saldo, o dinheiro pula na mesma hora. Nas urnas eletrônicas é o caos. O sujeito põe um dedo, põe outro, passa uma gosma no dedo, tenta de novo e… necas. Aí ele saca o título eleitoral que não tem nenhum valor como documento pessoal de identificação. Apela então para a carteira de identidade e, apesar de tudo o que se gastou de dinheiro de impostos, despreza-se a máquina das digitais e vai no canetão mesmo.

Cumprida a formalidade mais banal do ritual democrático, que é o ato de votar, o brasileiro deixa de ter papel ativo e volta à passividade em relação à democracia. Só acorda novamente dois anos depois, para mais uma vez cumprir um direito que aqui é obrigação, um dever. Os eleitos e o sistema de funcionamento da democracia não são questionados pra valer. O brasileiro se conforma com o fato de que ao eleger alguém está lhe concedendo um cheque em branco, um salvo-conduto com duração prevista para quatro ou oito anos, como no caso dos senadores.

Sem falar no excessivo respeito que se tem para com as chamadas au­toridades. O brasileiro não percebe que sua passividade democrática pro­voca uma inversão de valores. A maior autoridade numa democracia é o povo. Os poucos escolhidos só são intocáveis como aqui em ditaduras.

É óbvio que não ter tamanha adoração pelas ditas “autoridades” não significa cair na vala comum da violência cotidiana. Não se trata de espancar nas ruas os eleitos que decepcionam, mas de questioná-los de forma civilizada e… democraticamente. Essa passividade total do brasileiro em relação ao poder constituído é que alimenta uma das piores anomalias para a vida social de uma nação: a eterna espera de um salvador da pátria. O problema é que esse príncipe encantado simplesmente não existe na vida real, na vida democrática. Os salvadores da pátria não são heróis engravatados, mas cada cidadão. E só há um caminho para isso: ser ativo democraticamente em tempo integral.

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