Afonso Lopes
Afonso Lopes

De quem é a culpa?

Ao se abrir a torneira em casa e não receber nem uma só gota de água, a primeira reação de todo mundo é culpar a empresa fornecedora. É natural que seja assim, mas o problema é bem mais complexo

A situação hídrica em Goiás e demais Estados atingidos por uma das piores secas das últimas décadas é de calamidade pública. Na rede pública, falta água para o consumo humano. No campo, rios secos impedem a produção de alimentos irrigados. De quem é a culpa? É uma pergunta óbvia, mas a resposta não é tão simples. As autoridades responsáveis pela exploração, estocagem, controle e distribuição estão obviamente na alça de mira de críticas. Existe culpa generalizada entre diversos órgãos, da Secretaria de Cidades, responsável pela autorização de uso dos mananciais, dos órgãos de fiscalização, que nem sempre cumprem com a devida obrigação, da empresa responsável pela rede de abastecimento, a Saneago, que eternamente se debate com falta de estrutura econômico-financeira para acompanhar o ritmo da demanda. Mas é injusto não acrescentar outros “culpados”.

Acostumada à fartura, a população adquiriu hábitos realmente condenáveis do ponto de vista do uso comedido da água. Da dona de casa que lava panelas e demais utensílios de cozinha com a torneira permanentemente aberta, da família inteira que só desliga o chuveiro após o banho, sem interrupção na hora em que está usando o sabonete; do desmazelo total com o lixo, que invariavelmente vai acabar poluindo ainda mais os pobres e já sofridos mananciais; do produtor que recebe autorização para utilizar uma determinada quantidade de água e de maneira clandestina e desonesta usa o dobro. Os culpados são muitos nessa história.

Essas são situações dentro da realidade do dia a dia de autoridades e população que podem ser corrigidas. Vai se levar algum tempo para se chegar a um bom nível de entendimento, compreensão e resultados, mas qualquer investimento que se fizer nesse debate certamente trará boas recompensas no futuro. O que não é possível mudar é a ação da natureza. Sem chuvas não há água. Simples assim. Aliás, sempre foi dessa maneira. Se o único problema fosse a Saneago, como se costuma apontar, certamente não haveria problema algum no abastecimento nas cidades que municipalizaram o serviço.

Há muito o que se fazer. O ser humano não controla a ação da natureza. O que os humanos medem em dias, semanas, meses e anos, o planeta conta aos milênios. Há alguns anos, o Rio Negro secou de tal forma que se prenunciou o fim da Amazônia. O próprio Rio Amazonas, o maior em volume de água do mundo, praticamente secou. Dois ou três anos depois, o que se viu foram margens inundadas. Goiânia e Goiás voltarão a ter rios e ribeirões vazando água pelas bordas? É lógico acreditar que sim, mas nem essa perspectiva natural invalida todas as demais ações que não são pertinentes à natureza, mas a nós mesmos. Todos nós.

A Secretaria de Cidades precisa rever sua política de administração da água e dos mananciais. A Saneago terá que se reinventar tecnologicamente para evitar que a falta de chuvas rotineiras comprometam até o abastecimento humano. A população precisa ser alertada para os maus comportamentos, e devidamente orientada. É a soma de tudo isso que vai preparar a todos para novas fases de escassez no futuro. A atual não tem como ser corrigida. Pode ser minimamente relativizada, mas sem melhorar nada substancialmente.

A água não está acabando. Nem as chuvas estão. A água do planeta não foi parar em Marte. Ela continua por aí desde que o mundo se transformou neste mundo. Pode-se dizer que nosso Rio Meia Ponte há coisa de 20 anos carregava muito mais água do que agora. Mas ninguém sabe dizer se há mil anos ele existia, ou se passou um período tão ou mais seco que o atual. Para o ser humano, 20 anos é uma geração inteira. Para a natureza, é menos que uma fração de segundos. Precisamos aprender a respeitar tamanha força, e saber usar o que gratuitamente nos é oferecido. l

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