Afonso Lopes
Afonso Lopes

Da zona de conforto para o olho do furacão

A saída do vice-governador da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e a ida dele para a Segurança Pública terá reflexos políticos maiores do que se possa imaginar inicialmente

Vice-governador José Eliton ao assumir a missão de comandar a Segurança Pública: tarefa espinhosa?

Vice-governador José Eliton ao assumir a missão de comandar a Segurança Pública: tarefa espinhosa? | Divulgação

A situação do vice-governador José Eliton até a semana passada poderia ser narrada em tom de conto de fadas. Ele estava no comando de uma das chamadas supersecretarias criadas no final de 2014 na reforma administrativa do governador Marconi Perillo. Uma das secretaria de Estado mais evidentes e mais tranquilas do ponto de vista da exposição positiva em virtude dos resultados da economia estadual. A Secretaria de Desenvolvimento Econômico, que resultou da fusão principalmente das antigas pastas da Agricultura, Indústria e Comércio é, dentro da estrutura do governo, uma espécie de nirvana administrativo.

A situação do vice-governador José Eliton é, a partir de agora, muitíssimo mais complicada. Ele passou a comandar uma das secretarias que têm como meta atender diretamente, e no caso com o máximo de urgência, uma das grandes inquietações vividas pela população atualmente: a segurança. Ao invés de discutir e trabalhar pela implantação de políticas de intervenção do Estado no fomento da atividade econômica, terá que lidar agora, e diariamente, com centenas de casos, muitos dos quais dramáticos, de vítimas da violência.

O efeito complicador da situação é notável. Na Secretaria de Desenvolvimento Econômico, embora submetido a uma legislação federal no que se refere às condições mercadológicas e de competitividade empresarial, José Eliton comandava um arsenal de medidas administrativas de âmbito estadual. Na Secretaria de Segurança Pública, ao contrário, ele terá que jogar dentro de regras nacionais, sem ter muito mais o que fazer fazer em termos de iniciativa estadual. No Desenvolvimento Econômico, a mudança de uma regra corrigia alguma distorção ou incentivava cadeias produtivas, independentemente do conjunto de legislações federais. Na Segurança Pública, ao contrário, não é possível mudar nada. Não se pode intervir cirurgicamente em alguma regra de modo a melhorar o combate a algum tipo de delito que seja mais comum e incômodo em Goiás do que no Amazonas ou Rio de Janeiro.

Se antes José Eliton se reunia com técnicos e economistas, além de empresários e demais protagonistas da atividade econômica, agora terá que lidar com soldados, delegados e coronéis. E vítimas. Milhares de vítimas. Se antes José Eliton tinha tempo suficiente para debater exaustivamente cada entrave na execução da política de desenvolvimento econômico e, assim, implantar com relativa segurança alguma medida nova, agora suas decisões terão que ser praticamente instantâneas. O problema está em cada esquina, cada bairro, cada beco escuro ou não. O tempo todo, 24 horas por dia, 365 dias por ano.

Grosso modo, está aí a real dimensão da tarefa que o governador Marconi Perillo delegou ao vice-governador José Eliton. Seria o caso de se indagar por que, afinal, Marconi tirou seu companheiro de Palácio da bem sucedida pasta do Desenvolvimento e o colocou no centro de um furacão? O próprio Marconi respondeu a essa pergunta diretamente quando afirmou que a mudança na Secretaria de Segurança Pública, com a troca do delegado da Polícia Federal Joaquim Mesquita pelo vice-governador tem por objetivo o fortalecimento institucional da SSP. É como se o próprio Marconi estivesse se nomeando secretário de Se­gurança Pública através de seu vice. É exatamente essa a dimensão política que se pode dar à ida de José Eliton para a secretaria.

E haverá desdobramentos políticos. Agora e em 2018. De imediato, com a sacudida que toda grande mudança de comando provoca. E depois, na sucessão do governador Marconi Perillo. José Eliton se firma cada vez mais como uma extensão político-administrativa do grupo que governa o Estado, e ainda mais particularmente de Marconi.

Setores oposicionistas identificaram de forma correta toda essa mudança do ponto de vista político. A pronta de reação de descrédito dos opositores em relação ao novo secretário é o sintoma mais evidente dessa sensação. Ao colocar em dúvida se José Eliton é a pessoa mais indicada neste momento para comandar a dramática Secretaria de Segurança Pública, o alvo não era ele, Eliton, mas o próprio Marconi.

Mas, afinal, José Eliton reúne qualidades suficientes para comandar a política de segurança pública em Goiás? Como político e representando diretamente Marconi, sim, é a pessoa que o governador entendeu ser um fator de fortalecimento institucional. Ou seja, desse ponto de vista, o Palácio das Esmeraldas se estendeu da Praça Cívica até o Dergo, sede da SSP. Como xerife, não, José Eliton não tem esse perfil.

Se o objetivo de Marconi fosse nomear um xerifão truculento, certamente José Eliton seria uma de suas últimas opções. Mas não é isso que o governador quer. Xerifes e coronéis as polícias goianas já têm muitos, e de comprovada eficácia. Assim como tem soldados e agentes que se dedicam de tal forma que não raro trabalham nos horários em que teoricamente estão de folga, seja numa lanchonete ou em algum estabelecimento comercial ameaçado por bandidos. O que Marconi demonstra interna e externamente é que a partir de agora, é ele próprio quem estará à frente da SSP na pessoa de seu vice-governador.

E se o reflexo da ida de José Eliton atinge a sucessão de 2018 em nível estadual, certamente haverá igual impacto nos objetivos políticos nacionais de Marconi. Estruturalmente, o governo conseguiu equacionar e estabelecer um padrão bem superior de atendimento nos grandes hospitais públicos do Estado. Na Educação, pretende centralizar a meta nesse mesmo sentido, criando uma nova forma de administração que escape da pesada, lenta e ineficaz estrutura nas escolas. Restaria então completar a ação administrativa com um novo modelo de gestão na Segurança Pública. Se Marconi conseguir o que planeja, certamente se tornará um dos protagonistas do cenário nacional de 2018.

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Erick

A verdade que Oloares e cia ltda nao tem coragem de mostrar: Como faltam vagas nos presídios, o uso de tornozeleiras eletrônicas colocou quase 2 mil presos de volta as ruas somando-se a isso 22 mil foragidos da polícia nas ruas furtando, assaltando e matando… Cidades antes pacatas (Anápolis, Jaraguá, Itaberaí, Goianira…) estão sofrendo com a onda de violência (furtos, assaltos e latrocínios) todos os dias. Um bom exemplo para relatar a falta de policiamento é Goianira, onde 4 policiais e 2 viaturas da PMGO são responsáveis pela segurança de Goianira, Residencial Triunfo e Região do Solar das Paineiras, Brazabrantes… Leia mais