Augusto Diniz
Augusto Diniz

Corrida presidencial se tornou o palco dos absurdos

De Ursal a ensino fundamental à distância, esqueceram o País e a reestruturação das finanças e das propostas para garantir a vida digna ao povo

Candidatos realizaram na Band o primeiro debate na TV | Foto: reprodução

Passar as noites de quinta-feira, 9, ou da sexta, 17, acordado para acompanhar os dois debates iniciais entre oito dos 13 candidatos a presidente da República foram as primeiras oportunidades de perceber que muitos daqueles que registraram pedido para concorrer nas eleições de 2018 no mínimo tentam vender ao eleitor o que nem de longe conseguem chegar a ser. Na largada da corrida presidencial, o fato de não ter os outros quatro presidenciáveis na televisão na Band e RedeTV dá a impressão de que o número de nomes na urna será menor do que o que consta no sistema de candidaturas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O quinto elemento fora dos debates na televisão está preso, impedido pela Justiça de participar de eventos de campanha e já recebeu demonstrações da procuradora-geral da República e do Judiciário que pode estar fora da disputa antes mesmo de virarmos a folha do calendário para o mês de setembro. Mal seu partido pediu o registro de candidatura, seu bloco pode nem chegar à rua. E mesmo assim só seu grupo, porque o concorrente mesmo nem da cadeia deve se ausentar no período eleitoral.

Depois somos obrigados a ouvir parte dos eleitores e um dos candidatos contrariarem toda documentação histórica – e devemos reforçar que só aquela disponível diante dos arquivos escondidos das Forças Armadas –, imagens e as pesquisas acadêmicas na tentativa de negar que o Brasil tenha vivido uma ditadura militar entre os anos de 1964 e 1985. Hoje, para muita gente, nunca houve o terror da truculência e da tortura indiscriminada da linha dura nos anos que vão de 1968 a 1974 em nosso País. Tem até quem acredite na louca teoria do terraplanismo. Isso mesmo. Há quem diga e defenda com todas as forças irracionais que a Terra é um planeta plano.

É por isso que vimos o absurdo de um candidato a presidente da República se escorar na fé alheia e mostrar uma Bíblia Sagrada no ar enquanto levantava questões conspiracionistas sem qualquer fundamento como a inventada Ursal, União das Republiquetas Socialistas da América Latina. No país da educação de baixa qualidade, em que há casos de pessoas que se formam no ensino superior sem conseguir interpretar texto, quem entende ironia é minoria. Uma pena!

Quando o absurdo não vem de teorias embasadas por memes e vídeos editados com conteúdo picado e retirado de seu contexto, há candidatos que tentam vender que suas alianças partidárias não são fruto do fisiologismo. Existe presidenciável que já fatiou ministérios, a direção de órgãos federais e o controle de estatais brasileiras em troca de uma bolada do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Finan­ciamento de Campanha (FEFC). Isso sem contar o saldo de faturar o maior tempo de TV e rádio nos blocos de 12 minutos e 30 segundos e nas pílulas veiculadas nos intervalos comerciais, mas insiste em dizer que o sistema é esse mesmo e que é preciso jogar com o que está disponível. E acredita que o eleitor vai entender a jogada de mestre que mais parece uma negociata das mais comprometedoras.

Há quem tenha negociado com todos os lados da divisão pseudoideologizada das estruturas partidárias, invejou o representante maior do fisiologismo, mostra certa coerência nas colocações ao participar dos debates, mas acredita ser possível tirar mais de 63 milhões de brasileiros do cadastro de devedores do SPC. Só não se sabe como. Não se parece nada com o picolé de chuchu que abocanhou o maior tempo de TV e rádio da campanha. Até sofreu um injusto golpe do partido do candidato preso, que agiu para reduzir o poder de atrair partidos em duas ocasiões, uma delas com ajuda daqueles que são chamados de golpistas pelos companheiros do encarcerado.

Há dois presidenciáveis que apelam para o poder da decisão popular por meio dos plebiscitos para governar o País. Mas parecem ignorar o poder de um Congresso Nacional – que ultrapassa a capacidade suportável da falta de qualidade técnica e legislativa na atual composição, e que tende a ficar ainda mais assustador e deformado a partir de fevereiro de 2019 – que terá um poder de barganha capaz de incomodar qualquer que seja o presidente eleito. Digno até de causar inveja ao deputado cassado e preso Eduardo Cunha (MDB) em seus tempos de presidente da Câmara. Um foge dos debates mais polêmicos e o outro é visto por parte dos eleitores como líder de um movimento responsável por invadir imóveis particulares.

Outros dois se cruzaram em vários momentos nos dois primeiros debates televisivos. Um deles chegou até a propor que convidará o juiz federal Sergio Moro para ocupar o cargo de ministro da Justiça em seu governo. O segundo tenta se posicionar como o profissional do mercado que participou das políticas econômicas acertadas das gestões do candidato preso e do presidente sem legitimidade. Mas resta explicar como, depois de participar da equipe que decidiu as políticas do setor em dois dos três últimos chefes do Executivo, o Brasil tem 27,7 milhões de brasileiros desempregados ou que vivem só de bicos, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Resta saber quem são os outros quatro candidatos a presidente. Mas seus partidos são tão nanicos que a legislação eleitoral não garante e nem obriga a participação desses presidenciáveis em nenhum dos debates, sabatinas ou entrevistas. Somente um dos pequenos talvez consiga compensar parte da falta de recursos públicos, partidários, a não aparição no rádio e na TV e ser de uma sigla novata com seu patrimônio, que é de R$ 425 milhões em bens declarados. Mas informou que só colocará do próprio bolso o máximo de 20% do teto, que é de R$ 70 milhões para postulantes ao Palácio do Planalto no primeiro turno.

Se esse cenário não deixa claro que estamos longe de ver discussões fundamentais e qualquer chance de renovação profunda na política, preciso começar a acreditar o quanto antes em bicho papão, Papai Noel, coelho da Páscoa, nos caras pintadas, loteria esportiva e no junho de 2013. Como profetiza André Dahmer, a previsão para as eleições deste ano é a de que “candidatos horríveis serão eleitos” e “terríveis reeleitos”. Me provem, no dia 7 de outubro que estou errado. Por favor.

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