Augusto Diniz
Augusto Diniz

Começa negociata para reduzir número de candidatos a presidente

Presidenciáveis começam a costurar alianças a 21 dias das convenções partidárias

Eleição presidencial vai muito além da suposta polarização entre Bolsonaro e Lula

Quem pensou que a discussão eleitoral entre os pré-candidatos a presidente da Repú­bli­ca se resumiria ao embate acalorado entre o deputado federal de extrema direita Jair Bolsonaro (PSL) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem perdido toda a movimentação em torno das demais alianças e que pode começar a ganhar fôlego nos últimos dias de pré-campanha. Ainda mais na reta final que antecede as convenções partidárias, que devem ser realizadas até o dia 5 de agosto.

A três semanas da definição das chapas, a disputa pela estadia de quatro anos – a não ser que outro impeachment venha a ocorrer – no disponível Palácio da Alvorada, residência oficial do chefe da União, em Brasília (DF), e no Palácio do Jaburu, destino do vice-presidente, começa a se fortalecer. As negociações para reduzir o número de pré-candidatos e unir partidos podem dar novos rumos a parte dos postulantes ao Executivo nacional.

O presidente Michel Temer (MDB), quando foi alçado ao cargo de presidente da República, preferiu manter-se instalado no Palácio do Jaburu, com medo dos fantasmas do Alvorada, que continuará sem um inquilino até o dia 31 de dezembro. Imóvel que está na mira de dezenas de políticos. Mas ao menos dois deles podem ficar satisfeitos se tiverem a chance de estacionar seu carro em uma das vagas privativas do mesmo Jaburu que hoje Temer ocupa.

Ainda tímida, a conversação entre o MDB do presidente e o PRB começa a ganhar as páginas dos jornais, com uma possível aliança entre o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles e o empresário Flávio Rocha, da Riachuelo. O emedebista Meirelles pretende atrair Rocha e tê-lo como candidato a vice ao seu lado. Resta saber se o presidente da rede de lojas de departamento e a Igreja Universal estão dispostos a abrir mão de uma candidatura que envolve dinheiro do homem da iniciativa privada nas chapas de deputado federal e estadual pelo País. Para Meirelles, pode ser interessante o apoio do PRB, com o partido na sua vice, mesmo que não seja Flávio Rocha e venha até mesmo um pastor.

Outra aliança que parece começar a ser desenhada é a possível chapa com Geraldo Alckmin (PSDB), ex-governador de São Paulo, lançado como candidato a presidente, e o senador Álvaro Dias (Podemos) na vaga de vice ao lado do tucano. Os dois têm dificuldade em decolar nas pesquisas de intenção de votos. Mas cientistas políticos avaliam que a máquina do PSDB pode agir a favor de Alckmin, enquanto Álvaro Dias ficaria limitado à sua força no Paraná.

A Alckmin e o pré-candidato do Podemos podem ainda se unir DEM, que descartou há mais tempo o nome do presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, e o PP. Os dois partidos começaram a se sentir atraídos pela proposta do ex-ministro Ciro Gomes (PDT) de tê-los ao seu lado. Mas articulação que une – por mais inacreditável que possa parecer ao eleitor, mas não ao mundo político partidário – PT e MDB tenta minar a aproximação do DEM e de outras siglas, inclusive PP e PR, de Ciro. Enquanto isso, o pedetista ainda negocia com o PSB, que assim como DEM e PP, pode caminhar com Alkmin.

Já o PR, que petistas e emedebistas do Palácio do Planalto não querem ver aliado ao presidenciável do PDT, nutre admiração pela vaga na chapa do PSL, ao lado de Bolsonaro. Sozinho na disputa, o deputado pelo Rio, que migrou do PSC, 15º partido que mais receberá verba do novo fundo eleitoral, para a 24ª legenda na fatia do bolo de recursos públicos para as eleições, teria somado a ele o poder financeiro da 7ª sigla na partilha do financiamento público. Se isolado, Bolsonaro conta com uma estrutura partidária irrisória para fazer sua campanha, com o PR em sua chapa o jogo pode mudar de figura. Mesmo com uma rejeição de 32% do eleitorado brasileiro, de acordo com a última rodada da pesquisa Datafolha/Folha de S.Paulo.

Marina Silva (Rede), que pode contar com apenas 8 segundos de TV a partir de 31 de agosto, busca a aliança com os evangélicos, mesmo que sua equipe de campanha negue ser o seu pinga-pinga em cultos de igrejas numa tentativa de ganhar espaço entre o eleitorado protestante. Guilherme Afif (PSD), presidente nacional do Sebrae, volta a disputar o cargo – pelo menos é pré-candidato – depois de 1989. Sim. Ele estava no mesmo pleito em que Lula perdeu para o senador Fernando Collor de Mello, hoje no PTC. Se Collor voltasse a ser candidato, entraria na disputa como o mais rejeitado entre os postulantes, com 39% que dizem que não votariam no parlamentar por Alagoas de forma alguma.

Mas o partido que conseguiu criar um fato político mais forte na última semana foi o PT. A novela mexicana do solta e prende do ex-presidente Lula no domingo, 8, foi bem articulada para fortalecer o argumento petista de perseguição política do Judiciário, que seria o responsável – na versão do Partido dos Trabalhadores – por tirar Lula das urnas. Condenado no caso do tríplex do Guarujá (SP), o ex-presidente, mesmo que esteja em liberdade após uma suposta mudança de entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a possibilidade ou não de início da execução da pena a partir da sentença em segunda instância, continuaria refém da Lei da Ficha Limpa, justamente pela condenação no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4).

Mas solto, Lula dependeria do entendimento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), STF e do Superior Tribunal de Justiça (STJ) – que deu demonstrações na semana passada que deve adotar certa agilidade na análise contraria a manobras de apresentação de repetidos recursos na Corte – para saber se conseguiria registrar sua candidatura a presidente na situação de indeferido com recurso. A liderança nas pesquisas de intenção de votos não necessariamente colocaria a foto e o nome de Lula nas urnas. Tudo depende do entendimento dos 11 ministros do Supremo e os 33 do STJ sobre o caso do petista.

Até lá, sabe-se que a manobra de apresentar o pedido de habeas corpus no TRF-4 justamente no plantão mais favorável à soltura do pré-candidato do PT pode ter sido articulado para gerar outro efeito, que sim pode dar certo: manter o nome de Lula no imaginário do eleitor, já que ele não tem autorização da Justiça para dar entrevistas, participar de sabatinas ou debates. O que isso implicaria? A manutenção do poder de transferência para outro candidato petista escolhido às vésperas da votação em primeiro turno, que acontecerá no dia 7 de outubro. O foco é manter ou ampliar a força de influência sobre o eleitorado, que hoje seria de 30% disposto a votar em qualquer nome que Lula indicar para presidente.

Em uma eleição nada certa, o cenário eleitoral para presidente se assemelha à bela campanha da Croácia na Copa do Mundo, que hoje disputa a final contra a favorita França. Quase todo mundo estava de olho nas consideradas grandes, que foram caindo ao longo da competição. Ninguém percebeu a força da dona da casa, Rússia, se que superou e chegou às quartas de final. Poucos deram atenção à Bélgica, que dificultou a vida dos franceses e ficou entre as quatro melhores seleções da competição. Muitos esperavam que craques como Neymar (Brasil), Messi (Argentina), Cristiano Ronaldo (Portugal), Iniesta (Espanha) e Thomas Müller (Alemanha) fossem os protagonistas da Copa de Lukaku (Bélgica) e do quarteto croata Modrić, Perišić, Rakitić e Mandžukić.

Enquanto esperamos uma eleição protagonizada por Bolsonaro e Lula ou pelo pré-candidato do PSL e o indicado do petista, podemos ver outros nomes subir na reta final da campanha e tomar o posto dos favoritos antes de a curta campanha de 52 dias de duração de fato começar, em 16 de agosto, e surpreender a todos. O que está na superfície da disputa eleitoral é algo bem distante do que tem acontecido nos bastidores para consolidar candidatos, enquanto pequenos grupos insistem em se perder numa suposta polarização que só faz sentido nas guerras virtuais de Twitter e Facebook.

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Adalberto de Queiroz

O tiro-curto – a curta campanha de 52 dias e, teoricamente, com menos verbas, deve decidir tudo, menos talvez os votos nulos e em branco.