Pode até parecer que foram os atos golpistas do 8 de Janeiro que trouxeram à tona as dificuldades entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e os militares. Mas obviamente não é bem assim, nem conjunturalmente nem historicamente. Seu ainda brevíssimo terceiro governo já tinha sofrido com insubordinação mesmo antes da posse, quando comandantes das Forças Armadas decidiram antecipar a saída do cargo para, ainda que não dissessem isso, não ter de prestar continência ao petista.

O vandalismo e o terrorismo, “tolerados” naquele dia de caos durante bom tempo pelas forças de segurança, só convalidam um período de mais de dois meses em que os criminosos – sim, pedir golpe de Estado é crime, mesmo que de forma pretensamente “pacífica” – estiveram nas portas dos quartéis gritando “Forças Armadas, salvem o Brasil!”.

Na tarde de sábado, 21, uma notícia que chegou de forma inesperada: o presidente havia demitido o comandante do Exército Brasileiro, general Júlio César de Arruda. Sem entender o contexto, a notícia naturalmente causava apreensão.

O anúncio ocorreu um dia após uma reunião de Lula com o ministro da Defesa, José Múcio, e os três comandos das Forças Armadas. Apesar de Múcio ter falado aos jornalistas que os episódios de 8 de janeiro não haviam sido tratados e que era hora de “virar a página”. Uma conversa do ministro com Arruda e uma ordem de Lula não obedecida de pronto – retirar do comando do Batalhão de Operações Especiais, em Goiânia, o tenente-coronel Mauro Cesar Barbosa Cid, nomeado por Jair Bolsonaro (PL) no fim do governo – selaram o destino do general.

Para seu lugar, Lula escolheu Tomás Paiva, que até a data era o comandante militar do Sudeste. Dias antes, o general havia feito um duro discurso contra a politização dentro dos quartéis e em defesa do resultados das urnas e da democracia.

O saldo da disputa em modo guerra fria entre o governo federal e os militares, até o momento, é altamente favorável aos civis. O presidente quer “desbolsonarizar” as Forças Armadas – uma ação que vai muito além de uma perspectiva governista, mas chega à necessidade premente de restaurar a democracia plena no País. Como Arruda, ainda que não seja golpista, sinalizou que traria obstáculos a esse processo, a decisão foi firme e rápida.

A questão militar permeia e sabota a história do Brasil desde o século 19 e se confunde não apenas com a fundação da República, mas com todo seu transcorrer. Infelizmente, não de forma positiva: os ares republicanos vieram por meio de um golpe de Estado contra o Império. Novos golpes ocorreriam em 1891, 1930, 1937, 1945, 1955 e 1964. Ao todo, sete vezes em que o poder foi tomado à força, todas elas com participação de militares. Apenas em duas, para defender a democracia – contra o autoritarismo do Estado Novo de Getúlio Vargas, em 45, e com o contragolpe do marechal Henrique Lott em 55, para a garantia da posse de Juscelino Kubitschek.

Mesmo com todas as crises e todos os distúrbios das últimas quatro décadas, a redemocratização, a partir de 1985, e, principalmente, com a promulgação da Constituição de 1988, parecia ter colocado fim à tutela dos militares. Até o fim do segundo governo Lula, em 2010, pouco se falava em generais, almirantes e brigadeiros. Naquele período, houve farta distribuição de verba para o Ministério da Defesa, o que fez com que novos caças forem comprados para a Força Aérea Brasileira (FAB), que se desenvolvesse o programa do submarino nuclear da Marinha do Brasil e que se instalasse o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), anseio antigo do Exército Brasileiro.

A volta da sombra dos militares à pauta do dia vem a partir da iniciativa da então presidente Dilma Rousseff (PT) de instalar a Comissão da Verdade, para apurar as atrocidades do período da ditadura militar. Nem Dilma nem Lula nem o PT foram perdoados desde então.

Para entender de fato o que está acontecendo, é preciso voltar ainda antes no tempo – a 2014

Ao tramar a destituição de Dilma, Michel Temer (MDB) cuidou de se resguardar do apoio dos militares. Foi a partir de seu governo, entre 2016 e 2018, que os fardados voltaram a compor a cena política, principalmente com a figura do general Sérgio Etchegoyen, que passou a chefiar o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), cargo que seria herdado pelo general Augusto Heleno.

Mas, para entender de fato o que está acontecendo, é preciso voltar ainda antes no tempo – a 2014, mais precisamente ao dia 29 de novembro, quando o então deputado federal Jair Bolsonaro é recebido aos grito de “líder, líder!” na formatura dos aspirantes da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), no Rio de Janeiro. Já “bombando” na grande mídia pelos impropérios que dizia como presença frequente em programas como Superpop e CQC, ele foi ovacionado pela turma. Enquanto os novos oficiais ainda se prepararam para a cerimônia, o “Mito” se dirigiu ao grupo e fez um minicomício em menos de um minuto e meio, naquilo que pode ser considerado sua primeira fala como postulante à Presidência da República da eleição seguinte, em 2018. No discurso, disse que “alguns vão morrer pelo caminho”, mas que estava disposto a “jogar o Brasil para a direita” dali a quatro anos.

O regulamento disciplinar do Exército é explícito: autorizar, promover ou tomar parte em qualquer manifestação de caráter político constitui uma transgressão que pode resultar em punições para os oficiais, que vão desde advertência até a exclusão “a bem da disciplina”. Apesar de tudo ter sido registrado em vídeo (veja logo abaixo), à época Bolsonaro negou ter feito discurso político e ressaltou o caráter “espontâneo” do encontro.

O fato é que todas as circunstâncias lhe foram favoráveis, desde o ódio crescente à política e aos políticos até a facada de Adélio Bispo naquela tarde em Juiz de Fora (MG). Mas certamente Bolsonaro não teria conseguido chegar lá não houvesse aquilo que já havia ali na formatura da Aman: o endosso dos ex-colegas da caserna.

E, durante quatro anos, Bolsonaro aprimorou com doses cavalares o desserviço que Temer havia começado: trouxe 8 mil militares para cargos no governo, a maioria ocupando postos que deveriam ser de civis. Obviamente, teve um ministério recheado de gente com estrelas nos ombros, até mais do que presidentes do próprio regime militar.

Agora, a missão de Lula, diante dessa “fratura” na confiança com os militares – utilizando o termo que José Múcio dirigiu aos repórteres, na rapidíssima apresentação do novo comandante, general Tomás –, é a mesma que terá de fazer nas demais áreas do governo: reconstruir a terra arrasada que o País se encontra.

Para tanto, no principal posto das Forças Armadas nacionais, o comando do Exército, conta agora com alguém que se dispõe a expor um discurso legalista na caserna: Tomás Miguel Miné Ribeiro de Paiva já esteve na lista de “melancias” da militância bolsonarista. “Melancia” é a designação que os extremistas dão aos militares que são “verdes por fora e vermelhos por dentro”, aludindo a certo “comunismo” por parte dos fardados.

Também por isso, o anúncio do novo comandante é reconfortante: se os bolsonaristas estão contra, é porque o Brasil caminha no rumo certo. A troca no Exército mostra que Lula se impôs como o que de fato é, até 2026: o comandante supremo das Forças Armadas.