Augusto Diniz
Augusto Diniz

Caiado encontrou a pedra no caminho que não queria em seu discurso de oposição: Daniel Vilela

Pesquisas mostram cenário de momentânea tranquilidade ao senador do DEM para as eleições de outubro, mas ainda não é possível medir o estrago do fator Daniel Vilela

No terceiro debate entre cinco dos candidatos a governador, o deputado Daniel Vilela (MDB) tirou o senador Ronaldo Caiado (DEM) da zona de conforto | Foto: Reprodução/Facebook

O nome da coligação do senador Ronaldo Caiado (DEM) na eleição para governador chama-se A Mudança É Agora. Formada por DEM, PRP, Pros, PMN, PMB, PSC, DC, PSL, Podemos, PTC, PRTB e PDT, atraiu para o lado do democrata o deputado estadual Lincoln Tejota, seu candidato a vice-governador e presidente estadual do Pros. Ao lado de outros 11 partidos, Caiado conseguiu 1 minuto e 19 segundos nos blocos de 9 minutos da propaganda eleitoral de rádio e TV destinados aos concorrentes ao governo de Goiás.

Depois de duas eleições sem sucesso para cargos no Executivo – a primeira delas em 1989 para presidente da República e a segunda para o cargo de governador no ano de 1994 -, Caiado tem a maior chance de sua vida de se tornar o inquilino do Palácio das Esmeraldas a partir do dia 1º de janeiro de 2019. Essa oportunidade nunca foi tão factível antes na carreira política do democrata. Tratado como político ético e coerente pelo eleitor, o senador aparece com 40,3% das intenções de votos na última rodada estimulada da pesquisa Serpes/O Popular e 38,4% no primeiro levantamento Rádio Sagres 730/Instituto Signates.

Caiado tem até aqui, há 35 dias da votação no primeiro turno, muitos motivos para tentar manter a postura de candidato moderado e calmo nos debates e propor uma campanha com apoiadores empolgados e vibrantes como trunfo de seu trabalho eleitoral na disputa deste ano para governador. Só que o candidato do DEM tem dois desafios que podem derrubá-lo do cavalo, animal que ele demonstrou conhecer bem nos vídeos da corrida presidencial em que Fernando Collor foi eleito, a de 1989. “Eu não fui criado na barra da saia não, companheiro. Eu fui criado fazendo vaquejada no cerrado de Goiás, montado num cavalo.”

Se o democrata havia passado ileso das poucas tentativas de críticas levantadas contra o candidato por adversários nos debates realizados pela Rádio Interativa na segunda-feira, 27 de agosto, e pela TBC na terça, 28, no terceiro encontro entre os cinco melhores colocados nas pesquisas começou a mostrar um novo cenário. Quando Caiado, o governador José Eliton (PSDB), o deputado federal Daniel Vilela (MDB), Kátia Maria (PT) e Weslei Garcia (PSOL) se reencontraram na manhã de quinta-feira, 30, no primeiro debate digital – promovido por Mais Goiás, A Redação e Diário de Goiás -, a situação confortável a Caiado começou a mudar.

Confiança exagerada

Antes de citar o confronto de ideias mais polêmico que o democrata precisou enfrentar no último debate, vamos falar sobre a estreia do senador na propaganda eleitoral na TV na sexta-feira, 31. O programa de Caiado começa com uma imagem em preto e branco, um calendário de papel na parede de casa e uma trilha sonora que traz apreensão. As folhas começam a cair a partir do ano de 1998.

A narração é feita por Caiado, que diz que Goiás está cansado de escândalos de corrupção e problemas. “A população de Goiás está cansada. Está cansada da violência, de escândalos de corrupção, de pagar uma das taxas de água e energia mais caras do País, cansada das multas, cansada da falta de oportunidades e de emprego”, discursa Caiado em seu programa de TV exibido na noite de sexta.

E conclui com a seguinte frase as críticas ao grupo do governador José Eliton, que está há quase 20 anos à frente do Estado: “Mas tudo isso, você sabe, tem data para acabar”. Neste momento, a folha do calendário que é mostrada é a do domingo 7 de outubro de 2018, data do primeiro turno das eleições.

A primeira ideia que passa pela cabeça do eleitor é a de que a fatura está ganha. Ou, no mínimo, há um candidato capaz de mudar a realidade que é descrita como de terra arrasada. Mas há batalha vencida antes de ser disputada? É aqui que cabe lembrar o debate do Mais Goiás, Diário de Goiás e A Redação, realizado um dia antes de o eleitor assistir ao vídeo de campanha de Caiado na TV.

Quando reclamou da agressividade de Daniel Vilela e tentou dizer que o candidato do MDB era muito jovem para queimar uma carreira promissora com tanta incoerência, quem se viu caindo na armadilha do discurso fácil foi o próprio Caiado. O senador tentou minimizar as críticas feitas pelo deputado federal a ele com uma resposta aparentemente moderada, mas recheada de ataques, inclusive declarou que causava estranheza ver a agressividade de Daniel, quase que como uma candidatura paralela de defesa dos governos de Marconi Perillo (PSDB). Só que a tática não deu certo.

Oposição de verdade?
A resposta de Daniel aos ataques de Caiado começaram a mostrar que a imagem que o democrata tenta vender de opositor de verdade aos governos do PSDB em Goiás não passam de um arranjo eleitoral de conveniência que o levou ao Senado nas urnas em 2014. Político experimentado, como sua propaganda na manhã de sexta bem lembrou – “cinco vezes deputado, eleito senador, homem sério, ficha limpa, honesto, trabalhador” -, ao se ver sem espaço na chapa majoritária tucana há quatro anos, o democrata correu para onde nunca se imaginava que um dia estaria, ao lado de Iris Rezende e do MDB, para conseguir se eleger ao Senado.

Caiado foi obrigado a ver Daniel dizer a verdade sobre a costura de aliança frustada com o MDB para as eleições deste ano, quando o democrata tentou forçar a desistência do emedebista da corrida governamental para impor a Daniel a vice na chapa do DEM. “O sr. falta com a verdade porque até poucos dias atrás o sr. estava me convidando para ser candidato a vice-governador e tecendo altos elogios a minha pessoa. De uma hora para a outra eu passei a ser desqualificado na política, tenho um discurso e uma prática diferente. Goiás inteiro sabe que o sr. me queria como seu aliado. De repente o sr. passa a me atacar de forma virulenta”, rebateu o candidato do MDB no debate.

Daniel poderia ter parado por aí. Mas foi justamente neste momento da discussão com Caiado que mostrou o que o democrata não queria mais encarar há muito tempo. “O sr. sempre foi aliado de Marconi Perillo. O sr. que indicou o José Eliton. O sr. nunca aceitou e nunca admitiu que o sr. que indicou o José Eliton. Seja verdadeiro.” De fato, o senador do DEM, antes PFL, fez parte da base aliada do PSDB no governo de Goiás desde o início. Só por este motivo, o discurso caiadista de ser ele o opositor de verdade ao grupo de Marconi e José Eliton já se esvazia quase que por completo.

Não bastasse o apoio e a participação na base aliada de Marconi nos governos desde 1999, Caiado fingiu um distanciamento do governo na eleição de 2010. Com discurso recheado de truculência e agressividade, na convenção do DEM naquele ano, o então deputado federal Ronaldo Caiado ameaçou Marconi e quem do PSDB afrontasse suas bases eleitorais e seus companheiros ao dizer que deixava o Democratas escolher o caminho a seguir pela votação de seus filiados. Caiado já sabia que, mesmo sendo o presidente estadual da sigla, seria voto vencido na convenção.

O DEM não só reelegeu Demóstenes Torres senador na chapa de Marconi, como Caiado indicou o candidato a vice-governador, o advogado eleitoral José Eliton, hoje governador e adversário do senador democrata. Depois da vitórias nas urnas em 2010, não foi apenas em um, mas em vários eventos Caiado e José Eliton apareceram juntos, apesar de Caiado ter declarado independência do governo Marconi.

O problema é que Caiado rompeu com José Eliton ainda vice-governador e tentou conseguir o cargo do ex-aliado na Justiça, medida na qual não obteve sucesso. José Eliton migrou para o PP e depois encontrou residência política no PSDB. Por que Caiado tem vergonha de assumir que escolheu o vice de Marconi na formação da chapa nas eleições de 2010? Seria a comprovação da incoerência do discurso de que teria ficado independente e distante do processo eleitoral do partido, que decidiu apoitar o então governador Marconi Perillo?

Vergonha do ex-aliado José Eliton não parece ser o problema político de Caiado com o tucano. Críticas aos programas lançados pelo governador ainda não foram feitas. Não se fala nada na campanha sobre o Batalhão de Terminal, o Programa 3º Turno nos hospitais estaduais ou as propostas apresentadas pelo governador, como o Bolsa Permanência. Concorde ou não com o governo de seu antigo pupilo, o democrata não aborda a gestão José Eliton em seu discurso de oposição.

Quando Daniel diz para o senador que ele “seja verdadeiro” no debate, o emedebista evidencia as diferenças entre os dois candidatos a governador. A primeira delas é que Daniel, filho do ex-governador Maguito Vilela (MDB), não tem no seu histórico político ter sido frequentador do Palácio Pedro Ludovico Teixeira nas gestões Marconi, Alcides Rodrigues e José Eliton. Caiado pode dizer o mesmo? Pode o democrata negar as criticas pesadas que fazia ao hoje prefeito de Goiânia, Iris Rezende, na eleição de 1998?

Ataque às bases do MDB
Sobre o convite a Daniel para ser vice de Caiado, falava-se durante a pré-campanha que existiu uma tentativa de unir as oposições em Goiás. Mas o que se viu na prática foi uma ação de tentativa de desconstrução da possibilidade de Daniel se consolidar como candidato para atrair lideranças do MDB, históricas ou não, para o lado caiadista da disputa pré-eleitoral. As pessoas citadas pela chapa de Caiado que teriam participado e referendado a aliança negam que os emedebistas em qualquer momento tenham aberto mão de estar nas urnas com um candidato a governador do partido. Veja o que Caiado dizia em 2014 sobre Daniel:

Há dúvidas difíceis de responder. Uma delas é qual Caiado o eleitor verá até o final da campanha. O que todos conhecem e estava presente na convenção do DEM em 2010, quando verbalizou com agressividade um desligamento da base aliada do então governador Marconi com adoção da independência enquanto atuava nos bastidores para se manter ligado ao governo ao indicar o vice do tucano naquelas eleições? Ou o novo Caiado, moderado, tranquilo, que evita as polêmicas, desconversa quando a discussão pode trazer abalos à sua imagem e liderança nas pesquisas de intenção de votos?

Repito: Caiado tem vários motivos para dosar bem o discurso e trabalhar com comprometimento para fazer valer o resultado das pesquisas se quiser mesmo vencer as eleições, quem sabe até no primeiro turno. Resta ao senador ser honesto com o eleitor e assumir as ações e alianças que fez ao longo de sua vida pública antes de dizer que alguém é incoerente e disparar inverdades simplesmente por desnudar o herdeiro político de Totó Caiado, com todas as vantagens e riscos que isso representa.

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