Augusto Diniz
Augusto Diniz

Brasil trilha rumo impreciso

A 91 dias das eleições, quantidade de eleitores indecisos é superior ao registrado no mesmo período nas disputas de 2010 e 2014

Tudo que o brasileiro quer é progredir, mas está longe de decidir seu voto | Foto: Alan Santos/PR

Estamos a três meses das eleições e ninguém sabe o que vai acontecer, nem mesmo faz ideia, com os rumos da disputa presidencial no dia 7 de outubro, quando iremos votar no primeiro turno. Restam 91 dias para escolher – ou não – nas urnas o melhor candidato na escolha de cada um e nem sequer temos o quadro de candidatos definidos pelas convenções partidárias. Com a mudança no calendário do pleito, que encurtou a campanha, só saberemos quem são de fato os presidenciáveis no dia 15 de agosto, que marca o prazo final para registro das candidaturas.

A campanha só começa no dia 16 de agosto. E a propaganda de rádio e TV apenas 15 dias depois. Até lá, temos três pré-candidatos que lideram as pesquisas de intenção de votos e atingem um mínimo de 10% no levantamento estimulado da última rodada Datafolha – o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 30%, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL), que tem 17%, e a ex-senadora Marina Silva (Rede) com exatos 10%. Os demais, até mesmo o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) e o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), cada um com 6% das intenções de votos, correm contra o tempo para viabilizar o apoio de outros partidos e fortalecer suas possíveis candidaturas.

Tanto que tucano e pedetista disputam a atenção das legendas de centro, como DEM, PP, PRB, SD e PSC. Em seguida aparece o senador Álvaro Dias (Podemos), que corre por fora pelo apoio das siglas de centro, mas se nega a negociar com PSDB e MDB, na marca dos 4%. A deputada Manuela D’Ávila (PCdoB) e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), oscilam entre 1% e 2%, à frente do pelotão de 0% a 1% composto por Aldo Rebelo (SD), Fernando Collor de Mello (PTC), Flávio Rocha (PRB), Guilherme Afif (PSD), Guilherme Boulos (Psol), Henrique Meirelles (MDB), João Amoêdo (Novo), João Goulart Filho (PPL), Josué Alencar (PR) e Levy Fidelix (PRTB). Ainda aparece entre os nomes o de Paulo Rabello de Castro (PSC) que não chega a 1% na última pesquisa estimulada do Datafolha, divulgada em 10 de junho.

Alckmin sentiu, em jantar com os partidos citados, que a confiança em seu discurso de que irá crescer nas pesquisas quando a máquina do PSDB for para a rua ainda não é certa. O próprio DEM, antes PFL, histórico aliado dos tucanos nas eleições presidenciais, se divide entre anunciar coligação com a sigla do pré-candidato peessedebista e migrar para o lado de Ciro Gomes. Já o possível candidato do PDT – vale lembrar que ninguém é candidato é o registro da candidatura até 15 de agosto – ainda briga pelo apoio do PT, que deve insistir com Lula presidenciável até que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decida sobre a situação, que deve ser muito complicada para o petista.

Se soma à ingrata busca do PT pelo registro da candidatura de Lula a condenação em segunda instância a 12 anos de prisão no processo referente ao tríplex do Guarujá (SP), a prisão autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) há três meses e uma possível nova condenação em segunda instância pelo juiz federal Sergio Moro, em Curitiba (PR), no caso do sítio de Atibaia (SP).  Mesmo se Lula não poder concorrer, a chance é pequena de que o PT apoie Ciro, que continua a atacar o Partido dos Trabalhadores em entrevistas e se nega a prestar solidariedade pública ao ex-presidente, em postura que é vista por petistas como a de alguém que não sai de cima do muro.

Marina Silva, que negocia com PHS, PPL e PMN, mas pode acabar sozinha, resta o ainda pesadelo de, em sua terceira pré-candidatura à Presidência da República, amargar apenas 8 segundos de TV durante a propaganda eleitoral. Tratada por seus eleitores ouvidos pela Folha de S.Paulo como política de discurso complicado, a postulante da Rede precisará enfrentar o estrago à sua imagem eleitoral que o apoio a senador Aécio Neves (PSDB) no segundo turno da eleição de 2014 ainda faz na avaliação do eleitor.

O mesmo Aécio que, réu no STF por acusações de crimes investigados pela Operação Lava Jato, divide os eleitores de Alckmin sobre a postura do pré-candidato a presidente e líder nacional dos tucanos em não ter expulsado até agora o mineiro do PSDB. Inclusive o eleitorado do peessedebista se divide sobre qual seria o melhor nome, apesar de Alckmin não abrir mão de ser candidato: o ex-governador de São Paulo ou o ex-prefeito da capital paulista, João Doria. Até a expressão “picolé de chuchu”, que trata Alckmin como um postulante sem graça, que não incomoda, é discutida por quem pretende votar no tucano se seria uma boa definição ou algo que grudou de forma ruim na imagem do presidente nacional do PSDB.

No meio da Copa do Mundo, que chegará às semifinais nesta terça-feira, 10, ainda há uma esperança para Alckmin, Ciro, Marina e outros pré-candidatos. Ou talvez um enorme desafio: convencer o eleitorado indeciso e que pretende não votar e anular seu voto que são o nome ideal para retomar o crescimento econômico e a estabilidade financeira dos brasileiros. Em entrevista ao Jornal Opção na semana passada, o cientista político Alberto Carlos Almeida reforçou a ideia discutida em seu livro “O Voto do Brasileiro” (Record, 2018) de que a tendência, mesmo com todo cenário desfavorável, é a de que o segundo turno seja disputado por PT e PSDB.

Para os dois partidos e os demais chegarem à reta final nas urnas, será preciso reverter um cenário apontado pela Datafolha de 21% de eleitores indecisos no cenário estimulado, que chega a até 34% na possibilidade não haver um candidato do PT na disputa – 33% nos casos de Fernando Haddad ou Jaques Wagner no lugar de Lula. Quando a pesquisa analisada é a espontânea, aqueles que ainda não sabem em quem votar sobem para 46%, acompanhados de 23% que pretendem votar nulo ou em branco. Em 2014, os indecisos na Datafolha em junho eram 30%, e na eleição de 2010 apenas 13%. O que pode ser explicado pela desilusão que tem aumentado entre os brasileiros de que os nomes apresentados representem de fato uma boa escolha para governar o País. Desencanto com a política que tem aumentado desde as manifestações de 2013, e que se ampliaram com a não solução dos problemas a partir do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016.

Em segundo lugar nas pesquisas com Lula entre os nomes apresentados ao eleitor e na liderança de todos levantamentos quando o petista é retirado das opções, Bolsonaro, tratado como o outsider que está há 21 anos na Câmara, têm arrancado aplausos em palestras e eventos de líderes empresariais, com o da Confederação Nacional da Indústria (CNI) na semana passada – o mesmo em que Ciro Gomes foi vaiado ao criticar a reforma trabalhista. Com um discurso recheado de frases de efeito, o pré-candidato do PSL tem demonstrado que está mesmo interessado em ser tratado como o representante da direita nas eleições. Sua mais ousada proposta é a tentativa de elaborar a “Carta de Foz”, em Foz do Iguaçu, se conseguir reunir as lideranças conservadoras da América Latina ao seu lado.

Assim como os eleitores de Ciro ignoram seus momentos de impaciência e grosseria ao responder perguntas ou se referir a adversários, os adeptos do “mito” Bolsonaro também relativizam disparos de preconceito carregados de ódio na fala de seu possível presidenciável. Para ganhar mais fôlego, Bolsonaro tenta atrair o senador Magno Malta (PR-ES) para sua vice na chapa. Mas exige do PR que abandone a coligação com o PT em Minas Gerais e Bahia. O alerta ao deputado do PSL foi dado por Alberto Carlos Almeida, que avalia como complicada a candidatura de Bolsonaro com uma estrutura partidária tão frágil como a do PSL em comparação com partidos com máquinas maiores ao longo do País, como PT e PSDB.

Eleição não é como escolher o que assistir na Netflix quando chegamos do trabalho. Não basta estourar a pipoca e puxar a coberta na cama. Precisaremos analisar bem as propostas dos presidenciáveis até 6 de outubro para tentarmos fazer com que o Brasil encontre o rumo que Dilma e depois o sem legitimidade Michel Temer (MDB) nem de longe acharam. Resta saber se a população está disposta a ouvir o que os políticos têm a dizer ou fará o mesmo que quase 61% dos tocantinenses nas eleições suplementares e simplesmente boicotará a votação por descrença em um pleito atípico e que não resolverá os problemas do Estado, que terá de voltar às urnas em outubro com o resto do País.

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