O petista pode se dar ao luxo de alfinetar possíveis aliados, já que o presidente trabalha diuturnamente no modo autossabotagem

Lula e Bolsonaro, a menos de quatro meses das eleições, distância se mantém e vira “conforto” para um e drama para o outro | Foto: Reprodução

No início do mês passado, mais precisamente em 5 de maio, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (pP-AL), se mostrava bastante otimista com o desempenho de Jair Bolsonaro (PL) nas pesquisas que haviam saído por aqueles dias e que indicavam a tendência de redução da distância dele em relação ao nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em entrevista ao jornal “Valor Econômico”, o parlamentar analisava aqueles números positivos e, buscando uma explicação, dizia que o País é constituído, em sua maioria, de pessoas de centro-direita. “Entendo que o Brasil ainda é majoritariamente de centro-direita hoje e o Congresso será majoritariamente de centro-direita. E esse Brasil de centro-direita não quer ver o retorno de algumas condições que o candidato Lula representa.” E arrematou. “É uma expectativa que, pelas últimas pesquisas, ele [Bolsonaro] passe no final de maio ou junho.”

Lira deve estar aflito neste momento. Fim de maio chegou, junho começou e as pesquisas desvelaram não a tal aproximação, mas um maior distanciamento do petista em relação ao candidato à reeleição. Foi assim em vários dos principais levantamentos, mas um especialmente afetou a moral do Planalto, de maneira bem mais profunda: o da mais recente Datafolha, que aumentou de 17 (43% a 26%) para 21 pontos (48% a 27%) a vantagem do ex-presidente para o atual, em comparação ao levantamento de março.

Depois que o Ibope encerrou seus trabalhos eleitorais, o Datafolha se tornou o grande referencial, ainda que constantemente detonado pelos próprios bolsonaristas. Isso porque a narrativa é uma coisa, o discurso interno é outra. As conversas de bastidores dão conta de que o desespero teria batido pesado nos palacianos e que Bolsonaro estaria, digamos, abusando das palavras mal-educadas, bastante estressado com os resultados desfavoráveis.

Os números da pesquisa surpreenderam até aliados de Lula, porque se entendia como algo bem-vindo mesmo uma manutenção do quadro – obviamente, porque o tempo corre a favor de quem está na frente, que gostaria de “congelar” tudo até as eleições.

Entra mês e sai mês, as pesquisas de intenção de voto têm se movimentado muito pouco. Quando se toma a perspectiva em “zoom out”, olhando para o quadro desde o ponto de partida – que, aqui, poderíamos colocar como sendo a volta dos direitos políticos de Lula, com a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin –, percebe-se ainda mais a monotonia do quadro.

Vejamos: a primeira pesquisa Datafolha após a “ressurreição” de Lula foi em maio de 2021. E ele já apareceu bem acima: 41% das intenções de voto no primeiro turno, contra 23% de Bolsonaro. O ex-juiz Sergio Moro, então nem filiado, tinha 7%; o ex-ministro e mais uma vez postulante Ciro Gomes (PDT), 6%; o apresentador Luciano Huck ainda era cotado como pré-candidato e batia os 4%; e, fechando os principais nomes, o então governador de São Paulo, João Doria (PSDB), tinha 3%.

Um ano depois, a maioria dos nomes da terceira via pediu arrego e repassaram seus votos não para os coleguinhas “sobreviventes”, mas para a dupla da dianteira. Isso está exposto cristalinamente nos índices atuais: Lula com 48%, Bolsonaro com 27%, Ciro com 7% e a senadora Simone Tebet (MDB-MS) – agora a principal aposta do centro –, juntamente com o deputado federal André Janones (Avante-MG), beliscando 2% cada. É como se os dois protagonistas tivessem, com sua soma de 11 pontos a mais, ficado com tudo o que tinham, um ano atrás, Moro e Huck.

O desespero de Bolsonaro tem toda razão de ser porque não há mais um ano e meio até as eleições, como havia quando Lula recuperou seus direitos políticos; restam, isso sim, menos de quatro meses para o encontro com as urnas. E, no frigir dos votos, nada mudou substancialmente. Por quê?

Há vários motivos para tal, mas o principal é que os dois principais nomes já são extremamente conhecidos. Lula mantém o mesmo eleitorado que lhe era fiel ainda em 2018, mesmo da cadeia, quando era pré-candidato mesmo preso após as sentenças de Sergio Moro terem sido confirmadas em segunda instância.

Outro ponto fundamental para a estabilidade das curvas eleitorais é que Bolsonaro continua sendo Bolsonaro. Primeiramente, continua confiando toda sua força – e a alimentando com bastante veneno anti-institucional – sua base radical. Se essa não cresce mais, como ele gostaria, evita que haja seu fatal definhamento. Isso mantém a disputa polarizada entre o “bem e o mal” – como costuma ressaltar em seus discursos – e tira qualquer chance de aparecer o “tertius” do centro.

Mas para por aí. Não produz mais nada com suas falas extremistas e raivosas, nem mesmo para si. Existe um país para governar e, por acaso, ele é o presidente, mas Bolsonaro quer o que sempre quis: que o simplismo e o pensamento mágico gerem as mudanças na conjuntura das quais seria ele a se incumbir para causar uma reação positiva, para sua campanha, no mundo real.

Um exemplo de simplismo é o que fez implantando o Auxílio Brasil. Talvez os bolsonaristas considerassem que os pobres adeririam em massa à base do governo apenas porque passariam a receber uns trocados a mais – claro, quaisquer 10 reais para quem conta toda moeda para poder comer são valiosos. Esqueceram-se de combinar com a alta da inflação e também do fato de que pobre vive também de memória e de esperança. E isso se resume, no momento crítico por que passam todos, especialmente os mais carentes, nas quatro letras de Lula. Mas não há sensibilidade nenhuma em Bolsonaro e seus assessores para interpretar nas pesquisas, com os dados extremamente desfavoráveis entre os mais pobres lhes saltando aos olhos. “Como são tão ingratos assim, depois de tudo?”, devem pensar.

Uma amostra de pensamento mágico é a novela sobre as altas constantes dos combustíveis. Já morreu faz tempo aquele Bolsonaro liberal que prometia jamais interferir no valor da gasolina e do diesel. Se pudesse ele mesmo, já teria congelado lá embaixo todos os preços até a chegada das urnas. Como a lei o impede, detona como pode a Petrobrás, uma empresa do governo, para dizer que a culpa não é dele – como de resto é sua atitude em tudo que lhe é negativo. Em sua forma de gerir, acha que a solução paliativa passa pela demissão em série de ministros e executivos. Desorganizando o planejamento da estatal, quer retardar o repasse dos aumentos dos combustíveis e, de forma irresponsável, vai aos poucos comprometendo o abastecimento nacional, especialmente do transporte rodoviário movido a diesel.

Enquanto isso, Lula se dá ao luxo de alfinetar – de modo desnecessário, arrogante e até pouco inteligente, diga-se – seus desafetos. Semana passada, disse que “o PSDB acabou”. Não está errado, os tucanos estão se implodindo desde que Aécio Neves comandava o partido de modo personalista. Mas quebrar essa ponte quando uma parte da sigla poderia caminhar em seu projeto mostra que o petista está bem confiante em sua vitória.

O “mito” lhe dá razão para calçar esse “salto alto”. Sentindo-se um “messias” não apenas no sobrenome, talvez Jair Bolsonaro considere que Deus salvará seu projeto de reeleição. Sua segunda aposta é que, caso ele resolva não interferir, pelo menos mande seus “anjos” vestidos de farda.