Elder Dias
Elder Dias

Bolsomito e o homem que subia a montanha com a tocha na mão

Se o presidente insiste em não governar, enquanto seu séquito o carrega nos braços, é bom lembrar que não enganou ninguém em momento algum

Em uma pequena estrada de um país distante, havia uma pacata aldeia ao sopé de uma grande montanha. Eis que um dia passa por lá uma novidade: um grupo carregando um homem em um trono. Enquanto ele ergue uma tocha, seu séquito grita “Viva Chu! Quero Chu! Chu é bom! Chu é demais!”. E assim seguem subindo pela estrada, rumo ao alto, enquanto alguns habitantes da localidade, atiçados pela curiosidade, resolvem acompanhá-los.

No povoado seguinte, o mesmo homem, no mesmo trono, com a mesma tocha acesa. E o mesmo séquito, agora já um pouco maior, bradando repetidamente: “Viva Chu! Quero Chu! Chu é bom! Chu é demais!”.E dali mais pessoas se unem à turma. Acontece o mesmo na terceira aldeia, com a procissão original cada vez mais inflada: “Viva Chu! Quero Chu! Chu é bom! Chu é demais!”.

E assim vão, aquele homem levado como imagem num andor, com a tocha em chamas erguida, de localidade em localidade atraindo curiosos que logo se tornam discípulos, até que chegam ao pico da montanha. Lá no alto, então, todos param e a multidão ecoa pelos ventos o grito em uma só voz: “Viva Chu! Quero Chu! Chu é bom! Chu é demais!”.O homem finalmente desce do trono e levanta a chama para o alto. A turba entra em êxtase: “Viva Chu!! Quero Chu!! Chu é bom!! Chu é demais!!!”. Dois assistentes colocam uma bacia com água em cima de um pequeno altar. Com toda a reverência, o pretenso guru, eleva a tocha ardente para mostrá-la à multidão, depois a abaixa devagar, até mergulhá-la dentro na bacia, no ato final: “chuuuuu…”.

Claro que agora só posso pedir perdão pela infâmia. É uma piada de 5ª série, aliás velha – eu fazia a 5ª série, quando era chamada “série” ainda –, mas, para combinar com o tema deste artigo, temos de entrar nessa dança. Isso porque, desde que assumiu a cadeira presidencial, o debate político estimulado por Jair Bolsonaro (sem partido) tem tido esse tom pré-colegial.

Então, este é o tema da redação de hoje: diga o que Bolsonaro tem acrescentado ao País e o que o credencia a merecer a reeleição.

Para isso, vamos contar outra historieta, essa da vida real. No sábado, 15, houve em Brasília uma manifestação financiada pelo agronegócio e que levou milhares de ruralistas e seus colaboradores do Brasil inteiro à capital federal. Algo tão bem planejado como executado, com gente realmente empolgada com o Chu, ops, com o presidente.

Jair Bolsonaro chega ao evento com uma minicomitiva de ministros. Toda a pequena tropa a cavalo. Enquanto isso, do alto do palanque improvisado sobre um trio elétrico, um mestre de cerimônias contratado de algum circuito de rodeios anuncia o homenageado (leia abaixo como se ouvisse aquela entonação indefectível das arenas):

— Presidente Bolsonaro, parabéns, presidente! Presidente patriota, Brasil acima de tudo, homem temente a Deus, homem família! Aí está o Brasil, presidente!

No alto do veículo-palanque, a faixa afixada: “Brasil, celeiro do mundo, pátria do Evangelho. Que nenhum filho teu passe fome – Movimento Brasil Verde e Amarelo”. Tudo isso envolto pelo uso esteticamente excessivo das cores da bandeira nacional e por ela própria – distribuída aos montes a praticamente todos os presentes.

Lá de cima, um Bolsonaro como sempre deslumbrado acena e discursa para seus fãs. Eles gritam de volta (não importa o que ele diga ao microfone) “mito, mito, mito!” e “eu autorizo, eu autorizo!”. Tente ouvir tudo isso como algo entre um show de uma popstar e um jogo do Brasil em Copa do Mundo. Em algum momento, todos cantam o hino nacional (essa parte eu realmente não flagrei, mas não só deduzo como aposto que você não apostaria o contrário comigo).

Parodiando aquele funk, ele não governa: ele desfila. Ser presidente é trabalhoso, ser candidato é divertido

Neste domingo, 23, faz 874 dias que esse enredo e suas versões – no cercadinho do Alvorada, numa inauguração de ponte em Rondônia, num passeio de moto por Brasília ou de jet ski numa praia do Sul – têm sido impostos a brasileiras e brasileiros. Desde sua posse, ele tem tido a condescendência de situação e oposição (esta, pouco reativa, para não dizer inerte; aquela, entre satisfeita e empolgada) com o espetáculo particular que Bolsonaro estrela para seu próprio deleite e o de seus seguidores.

Parodiando aquele funk, ele não governa: ele desfila. Ser presidente é trabalhoso, ser candidato é divertido. Assim, o único foco que tem é em sua reeleição, desde o dia em que tomou posse – ou, não seria exagero dizer, desde que venceu nas urnas. Minto aqui: há também o interesse em proteger sua família de qualquer investigação. Por instinto paternal, suponho, mas talvez também por entender que, se cair a casa de Zero 1, Zero 2, Zero 3 ou Zero 4, também caia a do Zero 0.

Entretanto, se o presidente insiste em não governar, enquanto seu séquito o carrega nos braços, é preciso assinalar que nunca enganou ninguém, em momento algum. Durante a campanha eleitoral, quem se atreveu a acessar na internet sua proposta de governo, viu algo que poderia ser mais bem produzido por… uma boa turma de 5ª série. Bolsonaro caiu no gosto de um povão esquisito ameaçando bravatas e tendo como principal promessa “acabar com tudo isso aí”. Ainda hoje continua bravateando e tem mesmo tentado acabar com tudo, seja por ação ou omissão.

Entre as obras de seu governo estão a negligência mortal com a pandemia, o derretimento da reputação do Itamaraty, a entrega da Amazônia aos traficantes de madeira, de animais e de minérios, o Pantanal pegando fogo, as reformas liberais em hora inapropriada se desenrolando ao largo de seu interesse, o desmonte da ciência e da educação. Tudo isso, sem fazer esforço, até porque fazer esforço não é muito de seu perfil. Bolsonaro está, sim, entregando a destruição que prometeu.

Sobre a segunda parte do enunciado para a redação da 5ª série, parece que o eleitorado em geral já sabe que seria melhor ter seguido um guru subindo uma montanha qualquer. Mas a estranha torcida verde-amarela do cercadinho e suas variantes – leia com duplo sentido – continuará vibrando cada vez que seu líder fizer chuuu enfiando a tocha na bacia.

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