Bala de prata ou tiro de festim?

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Comando central da campanha de Iris Rezende criou suspense ao anunciar explosão de
um fato novo que mexeria com a eleição. Nem explodiu, nem repercutiu tanto assim
Era para ser um fato novo com poder de fogo suficiente para incendiar a reta final do segundo turno em Goiás. Imaginado como uma bomba poderosa por comandantes do quartel general eleitoral, a solução levada a Iris Rezende era bem mais singela: anunciar que, se eleito, Ronaldo Caiado será o próximo secretário de Segurança Pública de Goiás. Não se sabe exatamente o que levou os idealizadores do plano a imaginar que a indicação do agora senador eleito como secretário de Estado poderia causar impacto tão grande ao ponto de estrangular a curva histórica que tem se verificado até aqui em relação ao desempenho das candidaturas de Iris e Marconi nesta eleição, conforme indicam as pesquisas eleitorais e o próprio resultado do primeiro turno. Caiado tem uma imagem forte, consistente e bastante positiva até quando se apresenta ideologicamente na linha radical, mas seguramente essa imagem jamais sequer se aproximou a de um “xerifão” justiceiro. A imagem de Caiado é muitíssimo mais refinada que isso.
Talvez o comando da campanha de Iris tenha cometido não somente um deslize ao provavelmente errar no diagnóstico do impacto. No fundo, e sobre isso o futuro oferecerá a resposta, pode ser que a “solução Caiado/Xerife” cause um dano substancial à imagem que o senador trabalhou tanto anos para conseguir erguer. Desde 1989, quando disputou a eleição presidencial, jamais a imagem de Caiado foi tão amena e positiva do ponto de vista da rejeição e de certo temor que causava. E é uma imagem tão consistente essa que ele conseguiu construir que não se identificou em nenhum momento com o quase sempre demagógico “caiadinho-paz-e-amor”. Ele continuou sendo um Caiado, com toda a força que isso representa, com todo o radicalismo que carrega intrinsecamente, mas sem qualquer vestígio de crueldade.
É óbvio que a campanha de Iris queria surfar nessa onda favorável a Ronaldo Caiado. Até porque não resta mais nada a se fazer a não ser acreditar em algum santo eleitoral milagreiro. Iris está derrotado. Ele sabe disso, seus comandantes sabem disso, e os militantes, mesmo os mais apaixonados, sabem que a derrota, pelo curso normal dos acontecimentos, é inevitável. E para constatar que essa dura realidade bateu forte nas hostes iristas basta prestar alguma atenção nas manifestações atuais: praticamente ninguém mais fala em virada.
Houve um certo alento quando do anúncio da explosão da bomba que mudaria os destinos do turno final. Peemedebistas se animaram, militantes afiaram as baionetas. Mas a “explosão” simplesmente não aconteceu. Caiado realmente teve uma vitória extraordinária na disputa pela única vaga ao Senado, mas daí a imaginar que ele poderia ser o efeito detonador de uma virada eleitoral para governador como possível futuro secretário de Estado é exigir demais.
É quase certo que o pleno êxito de Ronaldo Caiado na campanha de senador tenha gerado a impressão de que ele poderia ser o efeito bomba do segundo turno. Afinal, pela primeira vez desde 1982 — quando do retorno à eleição direta de governadores — jamais um senador goiano foi eleito pela oposição (em 82, Mauro Borges venceu). O mais próximo do que se viu de oposicionista vencer para o Senado depois daquela eleição foi em 2010, quando foram reeleitos Demóstenes Torres e Lúcia Vânia, mas nesse caso deve-se levar em conta que houve divisão no grupo governista majoritário. A eleição de Caiado portanto representou a quebra de um tabu eleitoral que durou mais de 30 anos.
Somente esse fato pode oferecer alguma pista para se entender o que levou os estrategistas de Iris Rezende a imaginar que um Caiado-secretário teria mais força eleitoral no segundo turno do que um Caiado-senador. Mas ainda assim é difícil compreender a matemática eleitoral desses estrategistas. Simplesmente, vai contra a lógica. É mais do que nadar contra a correnteza. É contrariar o senso.
Se era essa a “bala de prata” da campanha de Iris para esta última semana no segundo turno, o efeito bomba ficou com jeito de “tiro de festim”, além de prejudicar duramente a imagem que Caiado levou anos para conquistar. Na propaganda de Iris na TV, o “Caiado/Xerifão/Justiceiro” aparece num desenho animado distribuindo sopapos. É exatamente essa imagem que Caiado havia superado, e com isso se tornado um político com baixa rejeição. Iris pode até vencer no domingo que vem por algum fato imponderável e ainda improvável, mas certamente não será por rebaixar um Senador da República a mero futuro secretário de Estado.

