Afonso Lopes
Afonso Lopes

Até o Lula reclama

Quatro anos e meio após “inventar” a candidatura de Dilma Rousseff em sua sucessão, ex-presidente Lula reclama do governo da companheira

Ex-presidente Lula da Silva: sem poupar críticas ao seu partido e  à presidente que ele inventou

Ex-presidente Lula da Silva: sem poupar críticas ao seu partido e à presidente que ele inventou

Em meados de 2009, quando já se encaminhava para o fim do segundo mandato como presidente do Brasil, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a enfiar a candidatura de Dilma Rousseff à sua sucessão goela abaixo do PT. Inicialmente, ela era um dos nomes menos prováveis. Primeiro em função do seu histórico partidário. Dilma era brizolista quando da formação do PT, e só assinou a ficha no partido da estrela vermelha em 2001. Para os petistas mais fervorosos, esse era um pecado bastante grave na ordem hierárquica interna.

Mas como manda quem pode e obedece quem tem juízo, Dilma virou a mãe do PAC e candidatou-se com o apoio do PT. Pois agora, após a reeleição no final do ano passado, até o Lula está reclamando do governo de sua escolhida.

A primeira avaliação dos observadores do cenário político nacional é de que Lula está procurando uma maneira de se afastar da presidente Dilma para não ser contaminado pelo mau humor da população em relação aos rumos deste início de segundo mandato. Há um ou dois meses, Lula teria admitido que uma possível candidatura dele à Presidência em 2018 só seria viável se o governo Dilma se recuperasse. De duas, uma: ou ele chegou a conclusão que o governo é um caso perdido, ou Dil­ma criou uma rota de colisão com os interesses do ex-presidente na es­fera administrativa. Como hipóteses, as duas teses fazem sentido.

Embora ainda restem três anos e meio de mandato, dificilmente o governo Dilma vai conseguir recuperar completamente o prestígio que já teve antes. O tranco que foi dado na economia com um todo não apenas levou o país para uma recessão, que o próprio governo admite que será acima de 1% este ano, como também liquidou com qualquer esperança de melhora a curto prazo. Economia, como se sabe, nem sempre precisa estar tinindo, mas deve passar otimismo. Recessão temperada com forte dose de pessimismo cria uma espécie de moto-contínuo de complicadíssima e demorada solução. Em tese, é isso o que está acontecendo.

Por outro lado, Dilma pode ter chegado à conclusão que os escândalos que explodiram em seu governo, e que ajudaram muito a baixar ainda mais a sua popularidade, são na verdade uma bomba de efeito retardado que vinha desde os governos de Lu­la, mas que explodiram somente agora. Além disso, o próprio ajuste fiscal é uma necessidade gerada muito mais nos governos anteriores, quando a crise mundial foi desdenhada como simples marolinha, do que nas gas­tanças atuais. Daí, provavelmente se extrai o enredo da tese de que Lula e Dilma estão em rota de colisão.

Por uma razão ou pela soma de vários motivos, a verdade é que o ex-presidente tem reclamado de tudo, até do seu próprio partido, a quem acusou de estar mais preocupado em manter cargos do que com projeto. As críticas diretas ao governo Dilma também foram em tom pesado.

Mas, como sempre fez, Lula critica, bate em vários pontos, e não apresenta sugestões. Qual é a saída para a crise que está se agravando com o ajuste fiscal? O que ele acha que pode ser feito para que a tempestade passe o mais rápido possível? Se o Lula sabe o que fazer, ele não disse pra ninguém.

O pacotaço de Dilma para conter a crise de caixa do governo é mesmo problemático. Ele atinge somente a parcela dos impostos, taxas e contribuições pagas pelos cidadãos brasileiros, sem diminuir em nada a mastodôntica estrutura do próprio governo, que é, por sinal, onde estão os problemas mais sérios. O governo do Brasil, apesar de oficialmente afirmar que está tentando debelar uma crise fortíssima, continua sendo campeoníssimo em número de Ministérios. São quase 40 pastas de primeiro escalão. E ainda assim há descontentamento geral tanto no PT como também no principal aliado, o PMDB.

Como está completamente abalado e enfraquecido, o Palácio do Planalto perdeu as condições de fazer política, e caminha muito rapidamente para abrir oficialmente um varejão dos votos no Congresso Nacional. Embora a prática não seja exatamente inédita na política brasileira, pode ser que a proporção desse autêntico escambo de votos por cargos aumente até o sangramento final do governo Dilma.

Ao se afastar da presidente e do seu governo, e até do PT, esfrangalhado em sua popularidade por causa do envolvimento de tantos petistas nos muitos escândalos, do mensalão ao petrolão, Lula quer mesmo evitar alguma contaminação mais grave. A imagem dele já foi afetada. O Datafolha, em recente pesquisa temporã, revelou que o senador tucano Aécio Neves estaria com 10% a mais do que Lula numa eventual disputa pela Presidência da República. É lógico que uma pesquisa como essa tem muito pouco do conceito eleitoral e muito mais da conjuntura de desgastes atual. Em outras palavras, essa pesquisa tem muito pouca importância em relação a 2018, mas revela que, sim, a imagem do ex-presidente Lula foi bastante danificada. Talvez não seja o caso de se dizer que o “rei está nu”, mas é certo afirmar que ele já não possui aquele manto real que exibia quando terminou seu segundo mandato, em 2010.

Esse é hoje mais um dilema para Dilma. Se Lula realmente continuar esse caminho como opositor a ela e ao seu governo, cria-se um quadro geral absolutamente incerto. Não só para ela e seu mandato, mas também para ele, como padrinho. Embora não seja de dar tapas ou murros na mesa, Dilma pode, num último gesto, se abraçar a Lula e, assim, levar a ambos para o mesmo buraco.

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Caio Maior

“Lula da Silva” deveria ser apenas mais um personagem histriônico e charlatão sepultado na lata de lixo da história. Fez da ética um panfleto. Mudou de discurso conforme a ocasião e ao sabor das conveniências. Sabia que “todo artista deve ir aonde o povo está” – e se movimentou nessa direção. Hoje ataca “companheiros” atualizando o oportunismo utilizado contra os adversários décadas atrás – quando “defendia” a Petrobrás e clamava por “cadeia para os corruptos”. A comédia trágica só poderia acabar assim: refastelado no poder depois de aliar-se àqueles a quem dizia combater o “filho do Brasil” adotou as mesmas… Leia mais