Afonso Lopes
Afonso Lopes

As marcas perenes após quatro governos

Foram quase 16 anos como governador do Estado de Goiás. Algumas ações se tornam indeléveis, e estão marcadas para durar ainda por décadas

Governador de Goiás, Marconi Perillo: ações que ganharam visibilidade nacional | Foto: Divulgação

O então jovem deputado federal Marconi Pe­rillo tinha uma re­elei­ção considerada na época como absolutamente tranquila. Sua carreira pública até então se resumia à participação no governo de seu inspirador político, Henrique Santillo, presidente do PMDB Jovem, deputado estadual – o único santillista eleito em 1990 para a Assembleia Legis­la­ti­va em razão do cerco eleitoral pro­movido por Iris Rezende após rom­pimento com Henrique — e de­putado federal. Um início promissor, sem dúvida, mas apenas um começo. O que veio a seguir foi uma subida vertiginosa e formidavelmente vitoriosa.

Na eleição de 1998, a oposição, que se resumia a um exército absur­damente pequeno em militância, apesar de razoavelmente re­pre­sentado em matéria de lideranças, era composta por quatro partidos: PSDB, PP, DEM e PTB — que era comandado pelo então deputado federal Pedrinho Abrão. Iris Re­zende, que deixou o Minis­té­rio da Justiça, no governo do presidente Fernando Henrique Car­doso, atropelou a candidatura à re­elei­ção do governador Ma­gui­to Vi­le­la, que nadava numa popularidade recorde. Seu favoritismo era tão grande que os opositores fa­lavam mui­to, promoviam enorme barulho, mas não aparecia um úni­co nome disposto a arriscar-se na disputa eleitoral contra o líder pe­emedebista. Ou melhor, tinha, sim, alguém na oposição com to­pe­te suficiente para abandonar um projeto seguro e partir para aquela que seria a mais extraordinária aventura eleitoral bem sucedida da história de Goiás. A ousadia de enfrentar Iris Rezende, que sur­gia nas pesquisas seis meses an­tes da eleição com cerca de 70% das intenções de voto, era tão grande e arriscada que pessoas mais próximas de Marconi o acon­selhavam a não en­trar na barcaça furada da oposição goi­ana. Nos bastidores, inventou-se então uma desculpa para acalmar os poucos “marconistas” da épo­ca, de que em caso de derrota, co­mo se esperava realmente, o mi­nis­tro Sérgio Motta (já falecido), que funcionava como um primeiro-ministro, lhe garantiria um mi­nis­tério no segundo mandato de FHC. Não tinha ministério algum. O que certamente haveria no má­xi­mo seria uma vaga entre os auxiliares do próprio ministro Sérgio Mo­tta, com quem Marconi desenvolveu uma excelente relação durante seu mandato de deputado em Brasília.

Marconi na época era tão desconhecido, o que lhe conferia igualmente uma inegável insignificância eleitoral com abrangência estadual — ele tinha, sim, votos suficientes para se eleger, mas em determinados colégios eleitorais, como Goiânia, Palmeiras e Pi­re­nó­po­lis — que um hábito pessoal dele, de usar camisa na cor azul, se tornou uma espécie de carteira de identidade nos comícios e carreatas. Era ele, o “moço da camisa azul”, o candidato a governador pe­las oposições.

O final daquela aventura foi o início de uma fase de grandes mudanças no Estado de Goiás.
O primeiro ano de Marconi no Palácio das Esmeraldas foi marcado pela descrença da oposição peemedebista. As principais lideranças do partido julgavam que a juventude do governador contava pontos negativos dentro de sua inexperiência tanto no campo político como, e principalmente, no comando da administração da gigantesca máquina governamental.
Em 2002, Marconi não apenas foi reeleito. Ele ganhou, mais uma vez de virada, já no primeiro turno. O elei­tor o reelegeu não porque rejeitava o candidato do PMDB, então se­nador Maguito Vilela, que ainda contava com bastante recall de sua popularidade como governador entre 1994 e 1998. Marconi venceu deixando como marca daquele mandato algo que hoje seria absolutamente inaceitável: a valorização e reconhecimento dos servidores pú­blicos, o que resultou em me­lhor atendimento na ponta final, a po­pulação recebedora dos serviços. Pela primeira vez introduziu-se em um Estado brasileiro o pa­ga­mento rigorosamente em dia dos salários dos servidores. Ao mes­mo tempo, foi iniciado um pro­grama de recuperação salarial iné­dito. Para se ter uma melhor ideia como era essa situação, o soldo dos policiais militares era in­fe­rior ao salário mínimo vigente, e precisava ser suplementado mensalmente para cumprir o requisito mínimo legal. Eram tempos em que salários de servidores chegavam a ser chamados de “carne po­dre” que nem sal merecia.

Mais experiente, e com sensível aumento na arrecadação estadual, via programa aperfeiçoado de in­cen­tivos fiscais — anterior, Fo­mentar, introduzido no primeiro go­verno de Iris Rezende, tornou-se praticamente obsoleto com o fim da inflação provocado pelo Pla­no Real, o governador Marconi Pe­rillo introduziu mudanças estruturais que alteraram outro setor que ainda hoje é tema central nas dis­cussões ambientais: o esgotamento sanitário. Goiânia, a cidade mais bem servida com rede de esgoto no Estado, era uma cidade profundamente dependente de fossas sanitárias. Foi nessa época que um antigo projeto, ainda do governo de Henrique Santillo, foi retirado da gaveta e iniciado: a es­ta­ção de tratamento de esgoto de Goi­ânia. Nos anos seguintes, vá­rias outras cidades receberam o be­ne­fício. O segundo mandato também foi marcado pela introdução de um projeto que certamente ain­da será tema de discussões nas pró­ximas décadas até a sua total im­plementação: a criação da Uni­ver­sidade Estadual de Goiás (UEG). Hoje, a UEG é provavelmente uma das uni­versidade públicas com maior pre­sença em número de cidades aten­didas. Essa rede espalhada custou um preço: a consolidação e ama­durecimento mais lento, em­bo­ra tenha levado o benefício a mu­nicípios que nunca imaginaram ter uma escola de ensino superior. Também é do segundo mandato a construção do Centro de Cultura, que igualmente caminha para sua consolidação.

O terceiro mandato, conquistado nas urnas em 2010, foi praticamente um recomeço. Muitos dos pro­jetos que estavam em andamento foram abandonados e ou­tros priorizados. Os salários dos servidores públicos, por exemplo, retornaram aos dias incertos. Nas até então bem cuidadas rodovias estaduais, o que se via era a de­terioração praticamente total. Por isso, um recomeço: tudo o que já tinha sido feito desde 1999 teve que ser refeito. Das estradas às es­co­las, dos quartéis militares e delegacias da Polícia Civil aos grandes hospitais públicos.
Foi quando se buscou uma al­ter­nativa mais dinâmica de administração hospitalar com a adoção das Organizações Sociais. No início, e ainda hoje, o sistema é tremendamente criticado por opositores, mas quem recebe tratamento nes­ses hospitais, ou visita parentes hos­pitalizados, se impressiona. Em Bra­sília, comentaristas da Rede Glo­bo local admitiram que os gran­des hospitais estaduais de Goi­ás estão em nível bastante superior aos demais existentes no Distrito Fe­deral e em outros Estados.

O quatro mandato de Marconi Pe­rillo como governador de Goiás che­ga ao fim, antecipado pela de­sin­compatibilização, com algumas ca­racterísticas que se tornaram re­gra comum em todos os períodos administrativos, como a forte vo­ca­ção do desenvolvimento industrial e fortalecimento comercial. A aber­tura de novos mercados internacionais provocou uma mudança no perfil da economia de modo a co­locar o Estado de Goiás no ma­pa dos maiores exportadores do país. A contínua e permanente agres­sividade na atração de novos em­preendimentos provocou até reações em Estados como São Pau­lo, o mais poderoso do Brasil, que de certa forma se sentiu incomodado com a ação dos goianos.

Quem quer que seja o próximo governador do Estado terá que trabalhar intensamente para não decepcionar a população, como aconteceu no período de 2007 a 2010. O que se encerra na semana que vem é o quarto mandato de Marconi Perillo. O que não acaba é o desejo dos goianos de que o Estado seja cada vez melhor para se viver. Se os problemas antigos foram vencidos, pelo menos a maioria deles, há novos desafios para se vencer. A vida administrativa é sempre assim.

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