Afonso Lopes
Afonso Lopes

A última guerra?

Em 17 eleições desde 1982, partido conseguiu alguma união em apenas 4

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Pelo menos em um aspecto, PT e PMDB são muito parecidos: as disputas internas. A grande diferença é que os petistas quase sempre conseguem unificar derrotados e vitoriosos na busca do eleitor, enquanto os peemedebistas se isolam cada qual para o seu canto. O histórico de guerras no PMDB é fantástico, e de certa forma acaba revelando o império partidário criado pelas lideranças peemedebistas em Goiás. Nenhum outro partido resistiria por tanto tempo ao vendaval permanente de caças às bruxas domésticas entre suas lideranças. A dissidência acumulada, se reunida sob um único partido, ocuparia facilmente a segunda colocação no ranking partidário no Estado.
Essa história sangrenta e fratricida pode estar em seu último capítulo. Maguitistas e iristas medem forças atrás do controle do diretório estadual do partido. Quem vencer certamente vai dificultar a vida dos derrotados. Será o ponto final de uma guerra que se iniciou em 1998, quando os iristas atropelaram a reeleição do então governador Maguito Vilela.
De 1982 até agora, foram 17 eleições. Embora com alguma disputa prévia, um grande acordo interno garantiu a paz entre os grupos de Iris, Mauro Borges e Henrique Santillo naquela eleição. Dai em diante até o ano de 2000, foi tempo de muita pancadaria interna.

Em 1985, o então deputado estadual Daniel Antonio tinha apoio total do grupo santillista na disputa pela Prefeitura de Goiânia. Mas não a de Iris, que era governador. A pressão foi tamanha que Daniel decidiu sair do PMDB e entrar para o PDT, partido criado por Leonel Brizola após o PTB cair nas mãos de Ivete Vargas, que era parente distante de Getúlio. Santillo percebeu a manobra de Iris, que facilmente conseguiria impor uma candidatura alinhada com seu grupo, e interveio no processo. Não foi uma saída negociada, não. Foi tapa na mesa mesmo, com Santillo ameaçando apoiar a candidatura de Daniel em qualquer partido. Qualquer pesquisa na época apontava uma preferência do eleitorado goianiense próxima da unanimidade. Além disso, o gesto de Santillo certamente vitalizaria ainda mais a sua candidatura porque se destacaria a vitimização dele por ação de Iris. Sem alternativa, Iris recuou.

Um ano depois, em 86, a eleição para a sucessão de Iris foi profundamente marcada por uma grande dissidência. O então senador Mauro Borges, principal responsável pelo acordo de 1982, se desentendeu com Iris durante o governo e resolveu enfrentar Santillo nas urnas. O alvo dele jamais foi o ex-companheiro de partido, mas única e exclusivamente Iris Rezende. Mesmo disputando o governo de Estado contra Santillo, Mauro passou a campanha toda batendo com muita disposição nas ações políticas e administrativas de Iris.

Na eleição goianiense de 1988, mais uma vez iristas e santillistas partiram para o confronto. No comando do governo estadual, Henrique Santillo incentivou o lançamento interno de vários nomes para tentar contrapor o então irista Nion Albernaz, que mais tarde, em 1994, conseguiu apenas disputar o Senado já no PSDB, após ser preterido por Maguito Vilela na disputa pelo governo. Nion venceu as eleições.

Em 1990, na sucessão de Santillo, o irismo finalmente conseguiu derrotar de maneira definitiva as forças santillistas, que começaram a deixar o PMDB, juntamente com o grupo liderado pelo ex-governador Irapuan Costa Júnior. Em resumo, em menos de uma década, a primeira após o retorno das eleições diretas para governador e prefeito de capitais e cidades classificadas como de interesse da segurança nacional, o PMDB perdeu nada menos que três grandes grupamentos: Mauro Borges, Henrique Santillo e Irapuan Costa Júnior.

Em 1998, quando tinha popularidade suficiente para atropelar qualquer candidato oposicionista que tivesse a petulância política de disputar o governo estadual, Maguito Vilela viu os iristas atropelarem sua candidatura à reeleição. Em 1994, quando foi escolhido, ele inicialmente teve que vencer Nion. Depois, a maioria dos iristas o apoiou contra Naphtali Alves, que compôs na última hora e aceitou indicação a vice-governador na chapa liderada por Maguito. Os maguitistas jamais se esqueceram disso.

Após a derrota em 1998 para a oposição capitaneada por Marconi Perillo, que foi do grupo santillista do PMDB no início de sua carreira, em 2000, a eleição em Goiânia finalmente demonstrou certa união interna para os peemedebistas. Mas essa era uma paz de cemitério. Apenas dois anos depois, com mais uma derrota, e desta vez custando a reeleição de Iris Rezende ao Senado, a guerra entre maguitistas e iristas reacendeu a fogueira interna.

A eleição de 2002 é histórica por dois fatores principais. Candidato à reeleição, Marconi Perillo se tornou o único político de Goiás a ser eleito governador no primeiro turno, com 51,2% dos votos válidos, elegendo também os dois candidatos ao Senado, o estreante Demóstenes Torres e a então deputada federal Lúcia Vânia. No PMDB, além de perder o governo e os dois senadores, a campanha externou a enorme diferença interna entre iristas e maguitistas. O candidato a governador não pedia votos para os senadores e os senadores nem se lembravam da candidatura ao governo. Era como se fossem duas chapas independentes uma da outra e não uma só.

Em 2013, com a chegada do empresário Júnior Friboi ao PMDB, os maguitistas enxergaram novamente a oportunidade de confrontar o poder interno do irismo. A briga foi duríssima, absurdamente aberta e franca, com pancadaria abaixo e acima da linha de cintura. Friboi havia buscado em Brasília, no comando nacional do PMDB, apoio para entrar no partido com o objetivo declarado de se candidatar a governador. Iris jamais aceitou o gesto. No final, Friboi perdeu, mas sua derrota também significou atropelamento político das decisões do comando nacional. A briga, que sempre foi estadual, ganhou a esfera maior do partido.

Michel Temer aceitou a derrota de 2014, mas deu o troco no final do ano passado ao entregar o comando provisório do diretório estadual aos maguitistas com o deputado federal Pedro Chaves, que em 2013 apoiou Friboi. Essa manobra quase foi decisiva, mas os iristas reagiram e lançaram chapa alternativa, com o ex-prefeito Nailton Oliveira. Na sexta-feira, 5, Daniel Vilela a batalha pelo diretório. Será este o confronto final? l

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