Elder Dias
Elder Dias
Editor-executivo

A Nação espera as águas de março para as eleições

O que aguardar quando chegar abril? Três questões fundamentais precisarão estar decididas até lá para os presidenciáveis

Bolsonaro, Moro, Ciro e Lula: à espera das definições políticas| Foto: Reprodução

Quando Tom Jobim compôs Águas de Março, um de seus maiores clássicos, não imaginava que aquela letra, quase uma poesia concreta, viraria metáfora de expectativa por mudanças.

No cenário político, é no fim do terceiro mês do ano – e primeiros dias do quarto – que vem a hora fatal do calendário eleitoral para candidaturas e partidos. É que nesse período estão os limites dos principais prazos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Neste ano, três grandes questões precisam ser resolvidas até o dia 2 de abril, exatos seis meses antes do primeiro turno. A que vai mexer com mais nomes individualmente, com impacto relativamente menor no cenário macro, será a janela partidária. É a brecha que o sistema criou diante da fidelidade partidária: para o parlamentar não tenha de ser tão fiel assim à sigla que o elegeu, entre 3 de março e 1º de abril, deputadas e deputados federais e estaduais – e também distritais, no caso do Distrito Federal – poderão trocar de partido sem perder o mandato.

Uma questão inovadora da última reforma eleitoral e que vai ser testada pela primeira vez tem como prazo final o dia 2 de abril: as federações partidárias terão de estar com seus estatutos registrados no TSE até essa data para concorrer em outubro. Este também é último dia para uma grande expectativa em relação à Presidência da República: caso pretendam concorrer a outros cargos em 2022, quem está no Executivo (prefeituras, governos estaduais e a cadeira de presidente) têm até essa data para renunciar aos respectivos mandatos. Acontece muito com governadores em segunda gestão consecutiva, que geralmente saem para concorrer ao Senado. Mas pode acontecer, neste ano, também com Jair Bolsonaro (PL). Alguma surpresa? Não deveria haver, diante das pesquisas eleitorais e da busca de sobrevivência.

Vamos, pois começar a comentar essas questões a partir das últimas linhas do parágrafo anterior. A situação de Bolsonaro para as eleições em outubro se complica a cada mês que passa e seus índices de popularidade e de intenção de voto continuam estagnados, quando não em involução. Se em março isso não estiver com nenhum viés de melhora, não haverá mais prazo para espera: ou renuncia em prol de uma vaga no Senado em seu domicilio eleitoral – o Rio de Janeiro –, onde teria, em tese, uma eleição tranquila; ou encara as urnas com um altíssimo risco de ficar sem mandato a partir de janeiro de 2023. Mais do que perder poder, o temor de Bolsonaro é perder junto também a liberdade. Sem foro privilegiado e com tantos indiciamentos à espera de cumprimento, as barras da Justiça são algo iminente, nesse caso.

Na verdade, por ficar sem mandato a partir de abril, já haveria uma janela imensa para que se fizesse alguma operação contra Jair Bolsonaro sendo “cidadão comum”, diante de inúmeras acusações. Porém, politicamente falando – e promotores e policiais no Brasil pensam politicamente, como se sabe já há algum tempo –, seria um tiro pela culatra, mais espetaculoso do que efetivo, que daria ao eventual ex-presidente senatoriável uma condição perfeita para fazer o papel de vítima.

Outro que pode, diante do complexo quadro, buscar a câmara alta do Congresso é Sergio Moro. O pré-candidato do Podemos, depois de uma pomposa “overture”, não consegue decolar. Posa como “terceira via viável”, mas não demonstra estofo para o cargo. Seu discurso anticorrupção parece velho, está desgastado pelo lado B da Lava Jato e só tem convencido quem já estava convicto de antemão. Desse modo, não consegue chegar a dois dígitos em nenhuma pesquisa de intenção de voto.

Mais: nem todo deputado do Podemos é lavajatista. Mais ainda: mesmo os lavajatistas são menos lavajatistas do que militantes da própria sobrevivência política. Dividir ou não o bolo do fundo partidário-eleitoral com uma candidatura presidencial pode significar vida ou morte nas urnas para um partido pequeno. Não vão se dar ao luxo de ficar com o ex-juiz se julgarem que o barco pode e deve fazer água. Um lado está pronto para bolsonarizar de vez – já apoiam quase tudo que o governo manda para o Congresso – e o outro brilha os olhos quando vê a estrela do PT.

E Ciro Gomes? A coisa não estava fácil para a pré-candidatura pedetista antes da entrada de Moro, mas pelo menos estava clara sua melhor condição, em intenção de votos, aos nomes alternativos até então conhecidos. Para tentar crescer acima do sarrafo psicológico dos 12%, Ciro fez o PDT contratar o mago João Santana para pensar o caminho até as urnas. Começou a atacar Bolsonaro e Lula de forma alternada e por razões diferentes, tendo de esmurrar, mas com cuidado, porque queria convencer eleitores tendentes a qualquer dos dois lados, mas não poderia fazê-los se sentir ofendidos. Com a entrada de Moro, passou direto para o 4º lugar e ganhou mais um trabalho de contenda.

Por isso, se não o PDT, pelo menos os pedetistas estão cada vez mais tendendo a correr para o lado que acham que vai vencer. Muitos já têm afinidade com o programa do PT e ficaria muito prático aproveitarem a janela partidária para somar 1 ao 12 e virar estrelinhas. Sem contar que o problema da divisão do bolo financiador das campanhas com o candidato à Presidência também soa indigesto, como no caso do Podemos.

Ganhando sem entrar em campo
E o PT? E o Lula? Com a autossabotagem do presidente, que insiste em remar contra as evidências e criar a própria realidade – por exemplo, na questão da eficácia das vacinas –, a vantagem na liderança vai se consolidando. Mais do que isso, há cada vez mais um sentimento geral – não no partido, mas entre os políticos em geral – de que tudo pode ser decidido já no primeiro turno.

Lula, então, vai ganhando sem precisar entrar em campo. O tempo corre a seu favor e faz com que, sem que nenhum terceiro consiga quebrar a inércia da corrida presidencial, a eleição se torne plebiscitária: o eleitorado passa a ter de decidir se quer levar a eleição a um segundo turno, sabendo que do outro lado estará – caso não renuncie antes – Jair Bolsonaro. E o progressista que detesta Lula e votaria em Ciro Gomes, é bom lembrar, repugna mais ainda o atual presidente. Chegará o momento em que, se Ciro mantiver a candidatura, correrá o risco de ser prejudicado pelo voto pragmático – que então, na cabeça de seus eleitores, seria uma proteção à democracia. Muito eleitores anti-PT, mas de esquerda, centro-esquerda ou mesmo de centro, votariam 13 de nariz tapado para evitar um embate em segundo turno de consequências imprevisíveis, nas urnas e longe delas.

No meio de tudo isso, ainda têm as federações, que podem juntar partidos que hoje não se bicam – até mesmo PT e PDT, e aí tudo o que foi dito acima mudaria desde antes de tudo.

Faltam ainda quase dois meses e meio para o epílogo dessa novela e muitas águas vão rolar. Inclusive as de março. O que agora ainda é mera especulação pode ganhar contornos mais graves à medida que a data fatal se aproximar.

 

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