Elder Dias
Elder Dias

A esquerda também virou gado com o som do berrante bolsonarista

Enquanto o mundo real acontece e pautas essências são julgadas e votadas, imprensa e oposição discutem bravatas. Tem muito método nessa bizarrice

Domingo passado, 22 de agosto, começaram a ser compartilhados alguns vídeos feitos por bolsonaristas em Brasília na tarde daquele dia. Dentro de seus automóveis, eles filmaram um lado de uma via tomado por centenas de barracas montadas e “acreditaram” – e fizeram acreditar em seus grupos de WhatsApp, com certeza – que aquilo já seria a militância da extrema-direita atendendo à convocação de ir a Brasília para a aguardada manifestação do dia 7 de setembro.

A data da Independência do Brasil, neste ano, é vista por esse grupamento como a “nova Independência”, conforme influenciadores bolsonaristas pregam para suas plateias. Um slogan bem típico para a atitude golpista que pretendem, na base do “tudo ou nada” pela “liberdade” que consideram estar perdendo diante do que tomam por uma “ditadura” dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente de Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso. Claro, sempre sobra para o Congresso “safado”, “cheio de bandidos”, “corrupto” e “que não deixa o Brasil caminhar”. A velha confusão metonímica entre o todo e a parte.

Voltando aos vídeos, em um deles uma mulher diz que o acampamento montado estava, veja só, na Praça dos Três Poderes – ou seja, mais de duas semanas antes, os militantes já estariam fazendo “vizinhança de muro” às Casas contra as quais protestariam no dia 7. Primeiro “engano”: aquela concentração, na verdade, se dava na Praça da Cidadania, próxima ao Teatro Nacional, no fim do Eixo Monumental a 2,2 quilômetros do lugar apontado. Um “equívoco” conveniente, não? Sim, mas apenas o menor.

Em outra filmagem, um homem se mostra maravilhado com o tamanho do acampamento: “Isso é só o comecinho, quantos dias faltam para 7 de setembro?”, diz, para emendar com “ô, Brasil que tá crescendo, o povo tá acordando!” e perceber que “tem muito indígena aqui, muito, muito!”. E chegar a uma conclusão: “Depois dizem que os índios não gostam do Bolsonaro, tá (sic) tudo aqui, ó!”.

É verdade, a praça, embora não a dos Três Poderes, estava cheia de indígenas de aldeias de todo o País. Mas o intuito não era se antecipar para a manifestação “patriota”: eles estavam ali, no acampamento Luta Pela Vida, para pressionar as instituições a não atentar contra o que eles têm de mais sagrado: suas terras.

Em noite no acampamento Luta Pela Vida, indígenas usam luzes para escrever mensagem | Foto: Reprodução

A pressão era também para o Congresso, onde os ruralistas aproveitam a onda atual e navegam tranquilamente nas águas do Centrão, especialmente na Câmara, aprovando leis que reduzem os direitos dos povos originários. Mas a situação mais grave e imediata se dava no STF, que deveria ter votado – mas adiou para esta semana – a tese do marco temporal, segundo a qual só podem ser demarcadas como indígenas terras que estivessem por eles ocupadas – ou se ficasse comprovado conflito pela posse – em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição.

O julgamento no Supremo não se refere apenas aos indígenas, embora lhes seja crucial: vai ditar também o rumo para vários setores estratégicos da Nação. Entre eles, economia, meio ambiente, agricultura, pecuária, mineração e, talvez principalmente, a política internacional.

Mas o assunto esteve longe de ganhar hegemonia. Na madrugada do dia marcado para o início da votação, a quarta-feira, 25, ao acessar a busca por “marco temporal” no Twitter, praticamente todos os principais perfis que tocavam no tema eram estrangeiros, desde veículos de comunicação até diplomatas. A questão indígena parece importar mais lá fora do que aqui, justamente por envolver, como pano de fundo, qual será o rumo do ordenamento ambiental do Brasil, que certamente impactará nas metas do País e do mundo em relação ao Acordo de Paris e em um patamar menos ou mais crítico das mudanças climáticas.

Deveria ser, portanto, uma pauta também crucial para a cobertura jornalística. Mas na noite de quinta-feira, 26, após o anúncio de que o julgamento do marco temporal havia ficado para a semana seguinte, a notícia não era destaque em nenhum portal. As manchetes dos sites de Estadão, Folha, O Globo, Correio Braziliense, UOL e G1 se dividiam entre a carnificina causada pelo Estado Islâmico no aeroporto de Cabul e declarações de Jair Bolsonaro (sem partido, ainda) sobre a questão energética.

Claro, o fato de a decisão do STF ter sido adiada tornava o assunto menor em termos de hierarquia. Mas a questão – que, ressaltando novamente, envolve o Brasil em desdobramentos estratégicos interna e externamente – mereceria mais do que uma nota na primeira página dos portais. E, em alguns, nem isso havia.

Essa hierarquia de assuntos serve a interesses dos próprios veículos de comunicação. A preocupação correta (e humanitária) com a questão do Afeganistão e o imbróglio em que os Estados Unidos se meteram é realmente importante; mas o fato de qualquer declaração de Bolsonaro se tornar imediatamente manchete diz muito sobre o momento que vivemos. Inclusive para os setores progressistas, que pouco se envolveram, nas redes, na discussão do marco temporal, mas, como toda semana, vociferaram contra o presidente da República, cujas estultices soltas ao vento seguem tomando de assalto todos os corações, prós e contras.

Existe método na bizarrice
Basta tomar este próprio texto como exemplo: pelo menos 30% dele foi construído sob e sobre a narrativa bolsonarista, que consegue se impor pelo alarde que provoca, seja pelo radicalismo bizarro, seja pelas bizarrices radicais. E é difícil não falar de um absurdo de alguém confundir uma bandeira de Guiné Bissau tremulando com o comunismo invadindo as cores brasileiras ou o presidente falando em trocar feijão por fuzil.

Steve Bannon, o guru da comunicação da extrema-direita, com Jair Bolsonaro nos Estados Unidos | Foto: Reprodução

Talvez nem os próprios militantes saibam, mas o que fazem por meio de vídeos e declarações notadamente sem noção, a começar do “mito”, é uma estratégia muito bem montada pelo guru da extrema-direita global, Steve Bannon. O mesmo que ajudou a eleger Donald Trump nos Estados Unidos e – ainda que não de forma tão direta – Bolsonaro por aqui.

Dessa forma, o caso do apagamento do marco temporal das manchetes mostra a cilada em que estão aprisionados os setores progressistas: enquanto batalhas reais importantíssimas acontecem, o canto de sereia do bolsonarismo para a guerra cultural contra tudo e contra todos atua com apelo irresistível. A energia dispendida pela imprensa para desmentir as fake news é a mesma gasta pela oposição para responder às bravatas do desgoverno federal.

É verdade que a Covid-19 foi e ainda é um grande entrave para as mobilizações sociais. Mas, enquanto isso, as coisas aconteciam e continuam a acontecer.

Apesar de Bolsonaro, o Brasil não para: o Parlamento trabalha, o Judiciário, também. E as mobilizações não conseguem avançar. E, se a “boiada” sugerida pelo então antiministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, não passou por inteiro, estamos vendo boa parte do rebanho avançar facilmente. E que ninguém se iluda: diante do berrante tocado e reverberado a partir do cercadinho do Palácio da Alvorada, não só os “patriotas”, mas todos nós estamos reagindo como gado tangido para o matadouro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.