Afonso Lopes
Afonso Lopes

A crise fabricada

Enquanto todos os holofotes nacionais focam as idas e vindas da instabilidade política, a economia brasileira segue piorando. O jeito é torcer pelas mudanças no comando

A bolsa de valores e o dólar estão completamente “malucos”. Aliás, é difícil saber qual situação é mais estressante nestes dias, se operador da bolsa e do câmbio ou político investigado pela Lava Jato. É claro que o mercado de aplicação volátil, como o dólar e a bolsa, sempre tem uma sensibilidade para os fatos políticos exarcebada, mas o que se tem observado atualmente é quase uma insanidade total. De qualquer forma, o mercado tem sido bastante enfático em relação ao comando da política: quanto mais enfraquecido o governo, e maior é a possibilidade de troca de comando, melhor.

É a única forma de interpretar as altas espantosas das ações da bolsa, especialmente os saltos espetaculares da Petrobrás, e a queda vertiginosa do dólar quando o noticiário político aponta para agravamento do status quo do governo. Quanto maior é a ameaça, maior é a euforia do mercado.

Como se sabe desde sempre que o mercado de investimentos não está nem aí para as questões político-partidárias — dinheiro não tem cor ideológica, obviamente —, seria o caso de se perguntar se há razão para essas oscilações. Há, sim. Pelo menos em termos de perspectiva.

O Brasil jamais enfrentou uma crise tão séria quanto a atual, nem nos piores momentos da hiperinflação e desemprego. Mesmo naqueles duríssimos tempos, o país balançava gravemente, mas escapava do aprofundamento do problema até pelos mecanismos bem brasileiros criados na época para a proteção do valor monetário, como aplicações instantâneas e tantas outras, incluindo a correção monetária oficializada. Isso não existia em outras economias. Era nossa jabuticaba. Foram esses mecanismos que serviram de seguro contra o aprofundamento daquelas crises.

O problema hoje não é esse. O mercado se acomodou em outros mecanismos para se proteger contra a desvalorização do patrimônio monetário, mas é incapaz de desviar do grave problema insolúvel da recessão nascida na irresponsabilidade gerencial e fiscal do governo.
O mundo todo vive incertezas na economia, mas em poucos países esse problema é agravado pelo comportamento do governo. O Brasil é uma dessas exceções negativas. Com as contas estouradas em 2014, adotou-se um caminho absolutamente doloroso que foi a recessão. É uma solução para momentos assim? Sim, é, mas ela só funciona bem se o governo se comportar bem. No nosso caso, o governo se comportou muito mal.

É muito fácil entender o que aconteceu e, infelizmente, continua acontecendo. A recessão baixada por canetaço de Brasília atingiu apenas o setor privado, e não o público, origem de todo o mal da economia do país. O correto seria exatamente o inverso, com o setor público sofrendo menos os efeitos recessivos do que o governo.

Descontrolado, e para tentar colocar a sua economia dentro da arrecadação, as autoridades em Brasília realinharam os preços controlados muito rapidamente, como ocorreu com os combustíveis e a energia elétrica, e cortou/adiou gastos com a manutenção dos serviços de sua atividade fim. Com isso, onerou as empresas e a população, ampliando negativamente o processo recessivo. Ao mesmo tempo, Brasília se manteve a pleno vapor em todas as atividades meio, beneficiando apenas o esquema de poder do próprio governo. Em outras palavras, exigiu que a população cortasse a carne, o arroz e a conta na mercearia, mas não diminuiu seu paquidérmico pacote de inutilidades. Brasília continuou com seus convescotes regados a escocês e canapés de caviar beluga, enquanto para os empresários e trabalhadores, população de uma forma geral, ficou o intragável prato salgado da recessão.

Há possibilidade de o Brasil escapar da crise econômica com o atual comando do país? O mercado tem dito o tempo todo que não acredita nessa possibilidade. E tem razão para pensar assim. O governo atual e o grupamento que o acolhe politicamente criou uma armadilha administrativa fatal da qual não consegue mais escapar. É por isso que a cada notícia que coloque o status quo do atual governo na balança há tanta agitação na bolsa de valores e no mercado do dólar. O governo não tem credibilidade para mudar coisa alguma no rumo econômico. E, o que é pior, sempre que o comando político tenta plantar alguma notícia boa ela é péssima, como é o caso da notória intenção de se acelerar os gastos do governo para criar mecanismos de recuperação da economia como um todo.

O Brasil vai sair da crise? Vai, sim, mas não com este comando. Ou falta dele, o que não seria inapropriado dizer. O governo atual nos jogou numa crise por se comportar mal, e nós continuamos afundando do pântano da recessão porque o governo continua se comportamento mal. Então, sequer é razoável acreditar que a orientação gerencial da economia brasileira possa recuperar o bom senso sob o governo que aí está.

E se houver uma mudança com essa linha sucessória desastrosa que temos? Ainda assim, será maior a possibilidade de a mudança ser positiva porque não haveria compromisso com a tal armadilha fatal da fantasia econômica que embala o atual governo. Pode até ser não, e não é, a melhor das soluções, mas é a única possível.

O governo atual acabou. Não tem credibilidade para mudar coisa alguma, nem a ele próprio. O que ainda existe é apenas a estrutura de poder, e isso não é suficiente para dar rumo à economia. E na falta de rumo, na ausência total de objetivos, o único destino é o agravamento do caos econômico que assola o Brasil. l

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