Italo Wolff
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As cigarras entendem aritmética?

Existe razão sem uma racionalidade para interpretá-la?

Exúvias de cigarras jovens | Foto: Italo Wolff/Jornal Opção

Os asteroides já tinham um centro de massa antes de os físicos inventarem o conceito da gravidade? O centro de massa é apenas uma convenção – uma região próxima ao centro do objeto – e a matéria neste lugar não é diferente da matéria que forma o restante do asteroide. E quantos planetas existiam antes de os humanos inventarem números para contá-los? As 150 espécies da família das cigarras (Cicadidae) têm ciclos de vida em que passam de um a 17 anos enterradas na fase jovem (ninfa), mas há muito mais espécies que passam 7, 11, 13 e 17 anos enterradas. Todos números primos! Por que nenhuma espécie escolheu passar 16 anos no subterrâneo? As cigarras entendem aritmética?

Essas perguntas têm em comum a questão filosófica subjacente: existe razão sem uma racionalidade para interpretá-la? Os três exemplos acima foram retirados do excelente livro “Intuition Pumps and Other Tools for Thinking” (2013, W. W. Norton & Company, 496 páginas), sem tradução para o português. O autor, o filósofo americano Daniel C. Dennett, é considerado um popstar entre os pensadores por seu estilo ácido, direto e simples (insuportavelmente simples para aqueles filósofos que escondem seus trabalhos atrás de linguagem arcana, mistificadora).

Daniel C. Dennett é precedido por milênios de filosofia na área da investigação da consciência, que se preocupa com as questões: “como atribuímos razão aos fenômenos naturais?”, “como sabemos que sabemos?”, “o que é essa voz interna que parece conversar conosco?”, entre outros. Mas a novidade trazida por Dennett está no método de sua investigação: ele se baseia principalmente na investigação científica conduzida por seus amigos cientistas, biólogos evolucionistas, matemáticos, neurologistas e engenheiros da computação. 

Um dos preceitos que guia a racionalização de Dennett, por exemplo, é a evolução darwiniana. Biólogos evolucionistas buscam respostas para a pergunta: por quê. Por que, em particular, as cigarras passam 13 e 17 anos enterradas na fase jovem, mas nunca 15 ou 16? Por que evoluiu tal sincronicidade impressionante entre diferentes espécies da família Cicadae, e por que o período entre os episódios de reprodução sexual deve ser tão longo?

A resposta – que parece óbvia em retrospecto – é que ao terem um grande número primo de anos entre as aparições, as cigarras minimizam a probabilidade de serem descobertas e posteriormente rastreadas como um banquete previsível por predadores que aparecem a cada dois anos, ou três anos, ou cinco anos. Se as cigarras tivessem uma periodicidade de, digamos, dezesseis anos, então seriam um petisco raro para predadores que aparecem todos os anos, mas uma fonte mais confiável de alimento para predadores que aparecem a cada dois ou quatro anos. Se a duração de seu período reprodutivo não for um múltiplo de qualquer número inferior, não vale a pena para predadores prever e aguardar a emergência das cigarras. 

Daniel C. Dennett escreve: “Deve ficar claro que a validade dessa explicação não depende de nenhuma hipótese que sugira que as cigarras entendem aritmética, muito menos o conceito de números primos. Nem sugere que compreender números primos é favorecido pela seleção natural. A seleção natural é cega para as motivações, mas pode explorar propriedades importantes da aritmética sem ter que entendê-la de forma alguma”. 

Assim, para Dennett, a seleção natural é um localizador automático da razão; ela “descobre”, “endossa” e “enfoca” razões ao longo de muitas gerações. As aspas são para nos lembrar que a seleção natural não tem uma mente, ela mesma não tem motivos, mas, no entanto, é competente em realizar esta “tarefa” de refinamento do projeto. Este é em si um exemplo de competência sem compreensão.

Uma resposta para “As cigarras entendem aritmética?”

  1. Nilson Jaime Nilson Jaime disse:

    O raciocínio de Dennett tem um erro original.

    Descendentes de um mesmo espécime podem aparecer a cada 13 ou 17 anos, os tais números primos.

    Mas dentro de uma mesma espécie, sempre haverá indivíduos adultos aparecendo todos os anos. Ou seja, o aparecimento fortuito a cada X anos se aplica a indivíduos descendentes de um mesmo indivíduo, mas não a todos os indivíduos da mesma espécie.

    Assim, todos os anos teremos algum indivíduo de uma espécie, eclodindo do solo, de forma que essa não é uma forma que a seleção use para driblar predadores. É apenas um ciclo, que pode ser influenciado e alterado por fatores biótico e abióticos a cada ano.

    Parabéns pelo informe.

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