Do Leitor
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“A menina e o cachorro: um caso de inversão de valores”

História da menina de 5 anos violentada em Anápolis é comparada à do cachorro supostamente vítima de maus-tratos em artigo do presidente do CRMV

História da menina de 5 anos violentada em Anápolis é comparada à do cachorro supostamente vítima de maus-tratos em artigo do presidente do CRMV | Fotos: Reprodução

Benedito Dias de Oliveira Filho

As redes sociais trouxeram dois fatos há duas semanas que merecem nossa reflexão: um cachorro magro num pet shop de Goiânia que imediatamente foi considerado vítima de maus-tratos. Sua foto registrou mais de 20 mil compartilhamentos, uma verdadeira força-tarefa em defesa dos animais. Imprensa mobilizada, várias entrevistas concedidas e, por fim, a verdade: o animal estava apenas um pouco debilitado devido ao recente desmame, pois ainda se adaptava ao novo alimento. Não havia sinais de maus-tratos.

Simultaneamente a esse caso, uma criança de apenas 5 anos havia sido estuprada na cidade de Anápolis. Ao analisar as duas notícias, o que chamou minha atenção foi que o assunto “cachorro magro no pet shop” acabou sendo alvo de mais indignação e comoção que o fato de uma menina inocente ter sido estuprada por um criminoso que se aproveitou de um descuido dos responsáveis para raptá-la e violentá-la, um trauma que pode deixar sequelas psicológicas e mesmo físicas para o resto da vida de um ser humano.

“Cachorro magro no pet shop” acabou sendo alvo de mais indignação e comoção que o fato de uma menina inocente ter sido estuprada

“Cachorro magro no pet shop” acabou sendo alvo de mais indignação e comoção que o fato de uma menina inocente ter sido estuprada

Os animais são importantes, inclusive para Deus. Para quem crê no cristianismo, lembramos que o Criador mandou Noé construir a arca para abrigar as diversas espécies antes do dilúvio. Isso se chama cuidado e preservação. Qualquer ser humano com um mínimo de bom senso tem apreço pelos animais. Eles merecem afeto, atenção e muito amor. Essa é minha pregação diária, como médico veterinário e ser humano. Para quem é indignado com a ideia de zoológico, por exemplo, saiba que eles existem porque os animais ali não podem mais voltar à natureza, principalmente porque foram vítimas de maus-tratos. Seres incapacitados para a vida livre, embora mereçam viver, filhotes que perderam os pais e não aprenderam a caçar, outros mutilados por atropelamento e até os que estão em extinção. Todos com direito à vida.

É simples bradar “sou contra zoológico” e sequer procuram saber o motivo pelo qual os espaços existem ou a função social, científica e educativa desses ambientes. Assim como é fácil dizer “o cachorro está maltratado”, porém, não conhecer o real fundamento da acusação, pois o conceito está no artigo 32 da Lei 9.605/98. Os amantes de animais, especialmente, deveriam ter mais conhecimento da legislação do que afinidade com o botão de fotos e vídeos dos modernos aparelhos celulares. Se um bebê for levado ao pediatra e esse profissional constatar que a criança está abaixo do peso, significa que a mãe está maltratando seu filho?

Creio que não. Mas as redes sociais parecem não ter limites. Todos são médicos, médicos veterinários, psicológicos, advogados, jornalistas, sociólogos, professores, enfim, “grandes especialistas”. Vivemos na era do relativismo, inclusive moral, e da idiossincrasia. Cada um relativiza sua própria ideia de ofensa, de violência, mesmo quando essa violência seja indiscutível e passível de cadeia. Sempre existe alguém para justificar a não punição dos crimes mais escabrosos, porque existe um tal relativismo, uma válvula para deixar escapar nosso senso de análise crítica e acreditar em “ondas” impostas pelas redes sociais, publicidade ou outros mecanismos de persuasão. Por outro lado, há os que exigem punição a qualquer custo mesmo sem embasamento da acusação, simplesmente por uma obtusa visão pessoal. E assim inaugura-se um novo código de ética, novas leis e demais normativas, principalmente virtuais. Lembro que a Resolução do CFMV n° 1069 (editada no início do ano, que trata de animais em exposição e comercialização) foi equivocadamente divulgada, gerando grandes transtornos para médicos veterinários e donos de pet shops em todo o Brasil, já que o jornal que publicou o texto errado tem grande circulação nacional.

Crianças são violentadas por pedófilos desprezíveis, idosos ganharam até delegacias especiais devido aos inúmeros casos de maus-tratos, além dos excluídos diariamente que muitas vezes passam por nós como seres invisíveis nas redes sociais e nas ruas. Há aqueles que preferem uma justificativa confortável: “Os animais são melhores que os homens.” Será mesmo que, por trás de tanta mobilização, esforço e gritos de proteção animal, muitas pessoas não estão urrando em favor delas mesmas? Pedindo socorro? Clamando por assistência, menos solidão ou sendo vítimas de modismos na busca desenfreada por uma curtida ou por mais amigos?

Não tenho a resposta nem estou dizendo que protetores de animais sejam desequilibrados ou carentes, mas devemos repensar nosso papel como seres humanos e cidadãos ativos na sociedade. Essa inversão de valores não nos torna mais dignos, justos ou corretos. A vida animal deve ser protegida, mas não podemos fechar os olhos diante da desvalorização das pessoas, muitas efetivamente magras, famintas e maltratadas pela dureza da vida, como é o caso dos moradores de rua e das crianças abandonadas. Por que o estupro de uma criança que deveria ser protegida por um adulto é considerado irrelevante ou menos importante na imprensa? Já ouvi de muitas pessoas: “Como Deus permite isso tudo?” A pergunta que Deus pode nos fazer um dia é “como vocês permitiram isso tudo?”. Será que estamos preparados para responder um questionamento como esse? Para apertar o botão “compartilhar”, tenho certeza que o ser humano está plenamente habilitado e ainda se julga perfeito.

Benedito Dias de Oliveira Filho
é presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária de Goiás (CRMV-GO).

Luciano Corrêa, judoca, foi um dos medalhistas a bater continência

Luciano Corrêa, judoca, foi um dos medalhistas a bater continência

“Medalhistas em continência, imagem importante para nossos jovens”

Porto Pinheiro

Excelente, o texto “Continência prestada por brasileiros no Pan-Americano é gesto patriótico, legal e admirável”, de Frederico Vitor (Jornal Opção Online). Fico emocionado quando vejo esses vitoriosos tomarem atitude tão patriótica. É uma imagem importante para os nossos jovens. Bem mais marcante do que ver André Vargas [ex-deputado federal, expulso pelo PT e preso na Operação Lavajato] e José Dirceu [ex-deputado do PT, condenado no mensalão] com o punho esquerdo cerrado. Patriotismo 7, corrupção 1.

E-mail: [email protected]

4 respostas para ““A menina e o cachorro: um caso de inversão de valores””

  1. Avatar Djegovsky disse:

    Zoológicos não têm função social, educativa e científica.
    São campos de concentração animal, pura e simplesmente.

  2. Avatar Rosana Franzin disse:

    Concordo com sua opinião, sobre os zoológicos, a maioria dos animais, são caçados na natureza, e colocados nos zoológicos.

  3. verdade a inversão de valores e responsabilidade nossa e vamos ser cobrados do próprio Deus.ele que s dono de tudo não faz isso

  4. Avatar João Magalhães disse:

    Sobre o zoológico,”função social, científica e educativa”; será que você realmente acredita no que está falando? Hoje em dia já existe NatGeo, Discovery Channel, Animal Planet, internet, ninguém precisa mais desse tipo de exposição.

    O que eu acho engraçado atualmente é que consultas animais e exames são mais caros que certos procedimentos em humanos pagos à parte. Isso é uma coisa que não entra na minha cabeça; chego a julgar mal os veterinários que, cá entre nós, se bobear também foram enganados pela sociedade e acreditaram que conseguiriam conciliar duas coisas ao mesmo tempo: a dedicação necessária aos bichos e uma profissão para prover o sustento.

    Agora, sendo honesto, essa questão da supervalorização dos bichos não é muito diferente do que qualquer outro tipo de doença mental da qual todos nós estamos sujeitos. A verdade é que o ser humano é uma criatura muito frágil, se você for observar de perto. Eu poderia ser bem cruel e jogar a peteca pra você, levantando o seguinte questionamento sobre os animais que foram resgatados da natureza: foram resgatados de que exatamente? Da ordem natural das coisas. Não seria então esse resgate uma intervenção humana na vontade divina?

    Entenda que não existe certo ou errado na resposta que pode ser dada a essa pergunta, porque tudo é uma questão de crença. Agora, o quanto de convicção que a gente põe na resposta e o quanto nós estamos dispostos a negar a opinião do outro, isso sim é o grande problema.

    Enquanto não aprendermos a enxergar o ponto de vista do outro, a gente sempre vai incorrer no erro de acreditar que somos os donos da razão. Mas vale lembrar que toda afirmação tem limite, e dizer que “bicho é melhor do que gente” definitivamente não é a solução para os nossos problemas.

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