A.C. Scartezini

A tensão da campanha cresceu com o novo escândalo e voltou a separar Lula e Dilma

Crise na Petrobras serviu para Dilma Rousseff marcar presença l Foto: Ichiro Guerra/ Dilma 13

Crise na Petrobras serviu para Dilma Rousseff marcar presença l Foto: Ichiro Guerra/ Dilma 13

A três domingos do primeiro turno, a voltagem na sucessão presidencial permanece alta e acelera a tensão entre os partidos, confirmada, nas pesquisas de opinião, a estabilidade entre os três principais candidatos. Por coincidência, o PT de Lula e Dilma chega amanhã, segunda-feira, ao último dia do prazo para a troca de candidato, que teria de ser aprovada na Justiça.
A tensão reeditou a disputa entre Dilma e Lula pelo comando da campanha da reeleição.Ambos voltaram a se afastar um do outro no momento em que a revista “Veja” divulgou o novo escândalo de corrupção do PT na Petrobras com a coleta de bilhões de reais entre fornecedores da empresa para a compra do apoio de políticos ao governo.

Era o mesmo filme que se viu no mensalão do governo Lula, mas agora em dimensão mais ampla. Assim que a revista revelou o vazamento da delação premiada de Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da petroleira, Dilma deu um novo passo para se afastar de Lula.

Anunciou, a escolha do Minis­tro do Desenvolvi­mento Agrário, o companheiro e amigo gaúcho Miguel Rossetto, para a coordenação da campanha da reeleição, ao lado do presidente do PT, Rui Falcão. No dia seguinte, Lula não compareceu à reunião noturna do comando da campanha para discutir, no Alvorada, o impacto do novo escândalo.

É rotina o sumiço de Lula quando surgem denúncias que acionam o instinto de preservação do ex-presidente. Reapare­ceu apenas na quinta-feira, ao dis­cursar no comício em Ma­naus. Os repórteres o viram apenas no palco. Havia uma barreira a proteger o ex-presidente contra jornalistas cu­riosos interessados em ouvir algo sobre a trepidante Petrobras.

Porém, Lula, se tivesse interesse, poderia participar daquela reunião no palácio presidencial, como esteve em outras. Todas reduzidas a um seleto grupo petista, sem plateia. Acontece que a divisão do poder de Rui Falcão com Rossetto foi uma fórmula de esvaziar a presença lulista na chefia da campanha.

Não chegou a durar um mês a delegação informal que Lula concedeu ao companheiro Falcão para intervir na campanha. A concessão veio naquela entrevista que Falcão, à revelia do Planalto, ofereceu ao jornal “Valor”. Nela, o presidente do PT afirmou que Lula terá uma presença maior num segundo governo de Dilma.

Num primeiro passo, Lula luta para mandar na campanha, o que implica influência também no governo desde logo para orientar mudanças que favoreçam a reeleição da presidente. Num segundo ato, conquistar espaço no novo governo para vigiar Dilma e impedir medidas que prejudiquem a volta dele ao Planalto dentro de quatro anos.

Em sua entrevista ao jornal, Falcão foi claro, como se fosse um porta-voz do companheiro Lula:
“Precisamos eleger a Dilma para o Lula voltar em 2018. Isso significa que ela, reeleita, começa o ciclo de debate, de planejamento para que o nosso projeto tenha continuidade com o retorno de Lula, em 2018, que é a maior segurança eleitoral de que o projeto pode continuar.”

Atrevido, Falcão afirmou que um segundo mandato de Dilma será necessariamente melhor do que o primeiro porque ela “aprendeu muitas lições”. Uma delas seria a de partilhar com Lula decisões do governo. Nessa versão, o ex-presidente não foi protagonista até agora apenas porque desejou, espontaneamente, não ofuscar a sucessora.

Dilma não esqueceu o agravo. Aproveitou o mensalão da Pe­trobras para marcar presença. Coube a Lula se manter discreto quanto ao avanço de Rossetto e não se afastar da sucessora por muito tempo. O prejuízo político seria maior se ele se afastasse demais do Planalto.

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