A.C. Scartezini
A.C. Scartezini

Temer pode ser a ponte para reduzir o isolamento de Dilma no poder

A dúvida está no temperamento histórico da presidente: até quando ela aceitará a partilha de poder?

Apesar de seus compromissos com o oportunista PMDB, Michel Temer representa a chance para o governo de Dilma  | Anderson Riedel/ Vice PR

Apesar de seus compromissos com o oportunista PMDB, Michel Temer representa a chance para o governo de Dilma | Anderson Riedel/ Vice PR

Como coordenador político do governo, o vice-presidente Michel Temer representa uma chance para a redução da distância com que as forças políticas e econômicas se afastaram do Planalto de Dilma Rousseff. Apesar dos compromissos dele com o PMDB oportunista.

Não é nada, Temer não tem escândalo no currículo, o que até o torna um estranho no ninho do partido, onde os presidentes do Con­gresso, senador Renan Ca­lhei­ros e deputado Eduardo Cunha, possuem litígios na Justiça, sem contar as suspeitas como clientes do petrolão.

A contaminação pelo escândalo com o dinheiro da Petrobrás alcança o vice-presidente do partido, senador Waldir Raupp, catarinense que se elege por Rondônia. Interino de Temer no comando do PMDB, Raupp tende a tornar-se mais ativo enquanto o companheiro for coordenador politico.

Aí mora a dúvida. Até quando a presidente Dilma aceitará ser refém de uma nova composição de poder dentro do poder que emergiu com a exaustão do mando politico e econômico que a própria exerceu en­quanto pôde? Até ser acuada por crises em geral, como a da popularidade.

A entrega de poder político a Temer nunca antes passou pela cabeça de Dilma. Nasceu de uma improvisação imposta pelas trapalhadas da presidente na montagem da assessoria imediata no Planalto. Implicou até uma convergência entre Dilma e Lula, que há tempo sugeria Temer.

O sorriso, exposto nas fotos, com que ex-presidente recebeu a visita de Temer, na quinta-feira em São Paulo, assinala um sentimento de vitória. Símbolo de um companheiro que, finalmente, impôs-se à teimosa sucessora no palácio.

Visita que já estava marcada antes, diga-se. Assim como o vice irá a FHC, na terça-feira, dentro de um roteiro de conversas sobre a reforma politica. Tema que se tornará mais forte com o novo papel de coordenação do vice-presidente.

Ele assumiu a coordenação política sob um compromisso de autonomia na função, o que implicaria liberdade para negociar e preencher cargos de segundo escalão para aliados. Mas a autonomia poderá ter prazo de validade. Além disso, não será fácil conciliar petistas e aliados na reforma politica, por exemplo.

Por conta de conflitos previsíveis, Temer deseja menos centralismo do governo e mais liberdade para as bancadas governistas, como informou ao repórter Ilimar Franco, cuja coluna oferece janelas ao vice para se expressar, quase sempre em off.

A ideia do novo coordenador é que o governo se meta apenas em pautas de seu interesse imediato, como o arrocho fiscal. As bancadas seriam livres em casos como a maioridade penal, a aposentadoria aos 75 anos no Judiciário e a ampliação de terceirização por parte de empresas.

“Uma coisa são os partidos da base divergirem, outra coisa é o governo”, ponderou o vice. “Se os partidos aliados perderem alguma votação, essa derrota não será do governo”, concluiu em seu conselho. Enfim, se for assim, reduz-se o espaço para o troca-troca de favores entre o palácio e políticos.

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