A.C. Scartezini
A.C. Scartezini

Lula teme a voz rouca das ruas pelo impeachment de Dilma Rousseff como um obstáculo em 2018

Contra a crise econômica, presidente e o ex decidem desafiar a resistência do PT ao ajuste fiscal que reduz direitos trabalhistas

Lula está ansioso e desafia seu partido em preocupação com a estabilidade política Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

Lula está ansioso e desafia seu partido em preocupação com a estabilidade política Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

A volta das manifestações de protestos nas ruas deve trazer Lula a Bra­sí­lia, nesta semana, com uma agenda de conversas com o PT e o aliado PMDB, nu­ma articulação de contatos que in­cluem a combinação entre a crise na economia, a corrupção na Petrobrás e as dificuldades da presidente Dilma  Rousseff com votações no Congresso.

A vinda do ex seria um desdobramento da retomada de consulta mútua com Dilma na viagem dela a São Paulo antes do carnaval. Agora seria o momento de execução do que combinaram na conversa a sós no hotel paulistano, quando Lula alertou a companheira para a hipótese de uma convergência entre as crises que reforce o apelo das ruas pelo impeachment de Dilma.

Lula está ansioso em conhecer o tom e a dimensão da voz rouca das ruas na manifestação nacional contra o governo programada, desde o início do ano, para acontecer em escala nacional dentro de dois domingos, em 15 de março. Com a cabeça voltada para uma nova candidatura presidencial em 2018, Lula apela à militância do PT para não cair em provocação.

A dimensão da preocupação do ex com a estabilidade política e econômica nos próximos três anos leva Lula a desafiar a resistência do PT contra a redução de direitos trabalhistas no ajuste fiscal. Reunido em Belo Horizonte há duas semanas com a presidente e o ex, um documento do Diretório Nacional do partido pediu a Dilma coerência com a tradição petista.

Dois dias depois da aprovação do documento, Lula aconselhou Dilma a reunir-se com governadores e prefeitos para pedir apoio à aprovação do ajuste fiscal, inclusive o trabalhista, no novo Congresso emoldurado pela presença do deputado Eduardo Cunha (PMDB) na presidência da Câmara, eleito apesar do empenho do governo a favor do companheiro Arlindo Chinaglia.

A busca de apoio de governadores e prefeitos ao arrocho na economia é uma tentativa oportunista de dividir com eles a responsabilidade por medidas impopulares, valendo-se do poder do lobby estadual sobre deputados e senadores – a assessoria da presidente diria que ela está se blindando contra a insatisfação popular.

O governo aproveita a circunstância de que, agora, os eleitores irão às urnas apenas em outubro do próximo ano, para eleger prefeitos e vereadores, quando não estarão em jogo os mandatos atuais dos congressistas. Tudo bem, mas o apoio ao arrocho não sairá de graça, especialmente agora com o sopro de autonomia do PMDB, estimulado pelo efeito Eduardo Cunha.

Com os olhos nos calendários lá da frente, Lula insistiu com Dilma para afastar as resistências pessoais ao antigo desafeto Cunha e aproximar-se dele nos termos que a repórter Andréia Sadi relatou:

— A gente faz acordo com quem a gente não gosta. Com quem a gente gosta, não precisa de acordo.

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