As marretadas do Estado: uma crucificação social

“Veja, escute e lute por aqueles que se encontram em situação de rua! Saia de sua ignorância e sua ‘cegueira branca’”

Allana Beatriz Soares de Sousa, Bianca Ribeiro Soares, Lucas Diórgenes Carvalho Freitas e Wanessa do Nascimento Souza

@padrejulio.lancellotti. Abra o Instagram, agora! Pesquise essa arroba. Não se aconchegue. Prepare-se para pisar (virtualmente, pelo menos) no território dos excluídos. Território esse que é sinônimo de controle — produto da força de um projeto higienista e historicamente adotado por você sabe quem. Ora, não sabe? É aquela mesma autoridade que em 1988 — com um brado retumbante e Constitucional — prometeu que o acesso à moradia seria um direito social garantido a todos os cidadãos. É, também, a mesma soberania que, em agosto de 2004, nas escadarias da Praça da Sé, deixou secar o sangue inocente do Massacre. E, pasme! De mesmo modo, é aquele que instituiu a Política Nacional para a População em Situação de Rua pelo Decreto nº 7.053 de 23 de dezembro de 2009.

Retirantes, de Portinari | Foto: Reprodução

Se ainda está confuso, neste plano tão nítido, alguém pode te ajudar… Munido de uma máscara bem reforçada, um velho sacerdote troca a batina pelo avental. O ostensório, o cálice e o altar reconfiguram-se em revolucionárias formas de marmitas, absorventes e, às vezes, uma marreta. Na última Sexta-Feira Santa, conduzindo a peregrinação pela tradicional Via-Sacra do Povo, a resposta do Estado não foi diferente. Em entrevista ao portal de notícias do jornal “Correio Braziliense”, o padre Júlio Lancellotti relata o percurso da manifestação religiosa onde, frente à crueldade e à truculência policial, “nós devolvemos com flores”. Numa megacidade, um homem religioso e a comunidade (mais de 1 milhão de seguidores) de seu perfil — nada esteticamente “instagramável” — são porta-voz e rede de ajuda da barbárie social, definitivamente, de ordem genocida, enfrentada pela população em situação de rua. O problema, contudo, é que sozinhos, visto o tamanho continental do país verde e amarelo, não conseguirão assistir o fenômeno sociodemográfico, cultural e político da população em situação de rua no Brasil. É debochado, satírico e bruto. O calvário, para a população em situação de rua, continua sendo a crucificação social.

Agora, depois desse mergulho no mar dos excluídos, te faço um convite: pense comigo… Possivelmente, vivendo no Brasil, você já desejou se juntar à massa de indiferentes ao assunto; afinal, está difícil para todos, não é?! Gente indiferente deve, no mínimo, ter uma preocupação a menos. Eu já quis. Já desejei acordar, tomar um banho e caminhar para o trabalho ignorando todos aqueles que clamam, diariamente, por ajuda. É assim que parte significativa da população age abraçada por discursos que colocam o morar na rua como uma opção. É assim que se fundamenta a arquitetura hostil e o seu discurso horripilante: coloque parapeitos nesta janela aqui, parafusos naquele degrau lá, algumas grades na porta da loja – de preferência pontiagudas – e, para finalizar com chave de ouro, vamos dividir o banco da praça… Ninguém merece não ter onde sentar para tomar água de coco depois de fazer a caminhada matinal; onde já se viu alguém usar um banco público como cama?

Segunda classe, de Tarsila do Amaral | Foto: Reprodução

E foi assim, encarando esse discurso com benevolência àqueles que têm seus direitos básicos negados, que se tornou breve, para mim, o desejar a indiferença. Não dá! Isso, definitivamente, não é — assim como o segregar — humano. Gente indiferente não é gente e, em um país marcado pelas diferenças de seu povo, ser indiferente deveria ser crime, tal como a aporofobia. Triste é saber que, por vezes, nem mesmo grandes delitos causam a comoção que deveriam causar. Você acredita, por exemplo, que todos aqueles com quem convive se lembram ou, ao menos, ouviram falar de massacres como o que há pouco mencionei (o Massacre da Sé)? Aquela chacina está prestes a completar 18 anos e nos leva a dois outros questionamentos: “há realmente uma punição?” “De que lado estão as autoridades?” A resposta para a primeira pergunta é não; para a segunda, com toda a certeza, não estão do lado do povo – ainda que isso afirmem.

A realidade dos centros urbanos nos mostra, ainda, que os princípios e as diretrizes da Política Nacional, apesar de donosos, parecem não sair do papel. Nos obrigando a estabelecer movimentos independentes que auxiliem no resgate dos direitos básicos como moradia e trabalho dignos, um salário suficiente para o sustento e, também, ao acesso à saúde para aqueles que se encontram nas ruas do país. Que Brasil é esse que normaliza o viver na rua e culpabiliza aqueles que assim vivem? Alguém optaria por viver no desconforto, escolheria passar necessidades, ser maltratado e injuriado?

Júlio Lancellotti, padre em São Paulo | Foto: Reprodução

Encobertos pelo frio e perfumados pelo esgoto, acomodados pelo concreto; a casa deles é em todo lugar, mas nem por isso chamam de lar. Não há um retorno para o lar porque não há para onde ir. É uma “invisibilidade vista”: O quê? Como podem ser vistos e não vistos? Eles estão ali, presentes no ir e vir, nas labutas do dia-a-dia. É visto pelos olhos de todos, mas não enxergado pelos prismas constitutivos.

Eles não são humanos, para a Política Nacional, são espetáculos que afrontam a dignidade. As diretrizes são como palavras ideais, mas esvoaçam pelo palpável entregando a verdadeira complexidade; na vida real, no encontro com a realidade, impera a contrariedade em forma de arquitetura hostil. Vivemos em uma Política de morte? Agora, o Estado pode escolher, em micro ou macro escala, quem deve viver ou morrer? E quem optaria, no momento mais lúcido, escolher viver na morte? A verdade é que as calçadas representam o purgatório, e lá encontra-se, pelos menos simbolicamente, a morte em vida.

Ironicamente, o Enem de 2021 teve o tema invisibilidade social; enquanto isso, o número da população que se encontra na rua só aumenta. Esse governo e essa necropolítica não são de hoje mas, claramente, se tornam cada vez mais estarrecedores. Tem-se que defender o cidadão de bem e seu direito à propriedade da arma — que se encontra, segura, embaixo de sua cama —, mas é dever do estado esquecer daqueles que mais precisam de sua ajuda? E o que fica, ao final de toda essa exposição, a se fazer? Primeiro, precisamos delimitar o trabalho do Estado: a tarefa que o deixamos não é algo impossível, pedimos apenas que se faça o que já está estabelecido em lei, na própria Constituição Federal: a garantia, pelo Estado, a moradia. Uma tarefa que já está embebida aos executivos federais, estaduais e municipais, mas infelizmente uma tarefa esquecida.

Deixamos também uma tarefa à população em geral: veja, escute e lute por aqueles que se encontram em situação de rua! Saia de sua ignorância e sua “cegueira branca”, como nos mostrou uma vez Saramago. É tarefa a todos lembrar que aquele monte de roupas não é uma peça arquitetônica de decoração da cidade, mas, sim, uma pessoa completamente diminuída de sua humanidade.

Allana Beatriz Soares de Sousa (FE/UFG), Bianca Ribeiro Soares (FE/UFG), Lucas Diórgenes Carvalho Freitas (FE/UFG) e Wanessa do Nascimento Souza (FE/UFG) são estudantes do curso de Psicologia da Universidade Federal de Goiás, orientadas(os) pela professora-doutora Gardenia de Souza Furtado Lemos, na disciplina de Psicologia e Políticas Públicas Sociais: Famílias e Comunidades em 2021/2. Contato: [email protected]

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