Por: Andreia Juliana Rodrigues Caldeira, Mariana Pires de Campos Telles, Thais Rodrigues Oliveira, Josana de Castro Peixoto, Karine Aparecida Obalhe da Silva Piorski, Ana Clara Diniz, Emanuella Messias de Souza, Maria João Santos, Tatiana Martelli Mazzo, Thais Failache Ribeiro Pileggi, Andrezza Justino Gozzo Andreotti, Jussara Moretto Martinelli Lemos – Especial para o Jornal “Opção”

A Cultura Oceânica

A relação do Brasil com o oceano passa por uma transformação que amplia sua compreensão para além do litoral, reconhecendo-o como parte de um sistema integrado que começa nas nascentes, rios, biomas e nas conexões sociais que ligam todo o território ao mar. Ao considerar a trajetória da água “da nascente ao mar” essa abordagem amplia o olhar sobre os desafios ambientais contemporâneos e convida a uma nova forma de pertencimento. Em um país marcado pela diversidade de biomas, culturas e dinâmicas hídricas, pensar a cultura oceânica é, sobretudo, reconhecer que o oceano não está desconectado de nós, ele começa em cada território. 

A cultura oceânica (Ocean Literacy) é a compreensão de que o oceano e as águas continentais fazem parte de um mesmo sistema interdependente, essenciais para a vida no planeta e diretamente influenciados pelas ações humanas. Trata-se de um conceito que integra conhecimentos científicos, saberes tradicionais e práticas sociais para reconhecer o papel do oceano na regulação do clima, na produção do oxigênio, na manutenção da biodiversidade e da vida na Terra. Sob a perspectiva econômica, o oceano não é apenas um recurso natural, mas um ativo estratégico que sustenta modos de vida, cadeias produtivas e expressões culturais. Nesse sentido, a cultura oceânica fundamenta a construção de modelos econômicos resilientes, voltados ao desenvolvimento sustentável, segurança alimentar e à estrutura social de populações dependentes dos recursos hídricos. Desta forma, a cultura oceânica enfatiza que tudo o que acontece em terra, desde o uso do solo até a gestão da água, impacta os ambientes marinhos, preconizando o desenvolvimento de consciência crítica, responsabilidade coletiva e capacidade de ação para a conservação e o uso sustentável de todos os recursos hídricos.

Uma síntese dos sete princípios essenciais da cultura Oceânica, que destacam o papel do oceano como sistema global e diverso, sua influência na dinâmica da Terra e no clima, sua importância para a habitabilidade do planeta, a vasta biodiversidade que sustenta, a interconexão com a humanidade e o potencial ainda existente para descobertas científicas e exploração sustentável

No Brasil, essa abordagem reposiciona a água como sendo o fio condutor entre territórios, ecossistemas e sociedades. Nesse entendimento, a água não é apenas um recurso localizado, mas um elemento em fluxo contínuo que nasce no seio dos biomas, infiltra-se nos solos, alimenta aquíferos, percorre rios e bacias hidrográficas, sustenta e dá vida a milhares de organismos, e, por fim, deságua no oceano levando consigo tudo o que encontrou pelo caminho. Esse percurso transporta não apenas sedimentos e nutrientes essenciais à produtividade costeira, mas também poluentes, fármacos, resíduos e marcas das atividades humanas, evidenciando como decisões tomadas no interior de cada território impactam diretamente nos ecossistemas marinhos.

Ao ampliar essa perspectiva, o conceito também incorpora dimensões atmosféricas como os “rios voadores”, que conectam a umidade da floresta amazônica a outras regiões do país, influenciando regimes de chuva, alteração na temperatura e aumento de eventos extremos no continente. A cultura oceânica no contexto brasileiro passa, portanto, a dialogar com a gestão integrada de bacias hidrográficas, com a segurança hídrica e com a adaptação às mudanças climáticas, aproximando agendas que historicamente iniciaram a sua caminhada separadas. Essa visão integrada rompe definitivamente com a divisão entre “ambiente terrestre e marinho” ao reconhecer que ambos fazem parte de um mesmo sistema socioecológico. Mais do que uma mudança conceitual, necessária diante das crises climáticas e hídricas contemporâneas, trata-se de uma mudança de mentalidade, em que a proteção do oceano começa pela conservação das nascentes, pelo uso responsável do solo, pelo saneamento básico e pelo reconhecimento dos saberes locais que historicamente já operam nessa lógica de interdependência.

A década do Oceano e o Surgimento do “Currículo Azul”

A partir de 2020, no contexto de mobilização da “Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável” (2021–2030), oficinas nacionais realizadas em diferentes regiões do país já indicavam uma convergência clara entre cientistas, educadores e gestores públicos, destacando a necessidade de inserir a cultura oceânica de forma estruturada na educação básica brasileira. Esse processo participativo, que envolveu universidades, escolas, organizações da sociedade civil e comunidades tradicionais, consolidou uma agenda que ultrapassava a divulgação científica e apontava para uma transformação curricular. O resultado foi um movimento inédito que culminou, em abril de 2025, com o Brasil se tornando o primeiro país do mundo a formalizar a inclusão da cultura oceânica em um currículo escolar de alcance nacional, com apoio da UNESCO.

Desse avanço emerge o chamado Currículo Azul, uma proposta que integra ciência, educação e sustentabilidade ao conectar temas como oceano, clima, economia e sociedade em uma abordagem transversal e interdisciplinar. Pensado para dialogar com a diversidade territorial brasileira, o currículo é adaptável às diferentes realidades regionais e aos diferentes biomas, permitindo que a cultura oceânica seja trabalhada tanto em áreas costeiras quanto no interior do país, a partir da lógica “da nascente ao mar”. Seu objetivo não é apenas ampliar conteúdos, mas formar cidadãos com consciência ambiental e climática, capazes de compreender as interdependências entre sistemas naturais e sociais e nosso papel nessas mudanças. Mais do que uma inovação pedagógica, o Currículo Azul se configura como uma política pública estruturante, ao articular ministérios, universidades, redes de ensino, comunidades e iniciativas locais em torno de um projeto educativo integrado e de longo prazo.

Linha do tempo da cultura oceânica no Brasil (1990–2026), destacando os principais marcos desde a consolidação das bases ambientais, passando pela articulação internacional e mobilização nacional durante a Década do Oceano, até a experimentação educacional, institucionalização e perspectivas futuras de implementação, com integração da temática nos sistemas de ensino e políticas públicas

Cultura Oceânica nos Biomas Brasileiros

Um dos aspectos mais inovadores da cultura oceânica no Brasil é o reconhecimento de que ela não é única, mas diversa e profundamente moldada pelos biomas do país. O azul do oceano nos conecta. Não existem fronteiras intransponíveis, e cada bioma influencia profundamente a saúde dos ecossistemas e a nossa própria saúde. Nesse contexto, a cultura oceânica nos une ao revelar as riquezas e interdependências de cada território e maretório, essenciais para a manutenção da vida no planeta. Na Amazônia, por exemplo, discute-se a conexão entre floresta, rios e mar por meio do transporte de sedimentos e nutrientes e dos saberes indígenas sobre os ciclos da água, o que exige uma abordagem que amplie a compreensão do ciclo hidrológico e relacione o desmatamento a impactos marinhos. Na Caatinga, marcada pela escassez hídrica e pela resiliência, a irregularidade das chuvas e os processos de desertificação demandam uma abordagem voltada ao uso sustentável da água e à compreensão dos impactos indiretos no oceano. Na Mata Atlântica, bioma costeiro por excelência e altamente urbanizado, a interface entre terra e mar evidencia problemas como a poluição por plásticos e esgoto, ao mesmo tempo em que reforça a necessidade de conservar ecossistemas como manguezais e restingas. No Pantanal, a dinâmica dos pulsos de inundação e sua influência sobre grandes sistemas fluviais sul-americanos permitem compreender cheias e secas como fenômenos conectados ao sistema oceânico e sensíveis às mudanças climáticas. No Pampa, as conexões com o oceano se expressam na influência das correntes marinhas sobre o clima regional e nas atividades ligadas à pesca e à economia azul, exigindo uma abordagem que integre clima, biodiversidade e cooperação com países vizinhos. Já o Cerrado, conhecido como o “berço das águas”, concentra a origem das principais bacias hidrográficas do país, o que torna evidente a influência direta desse bioma sobre a qualidade da água que chega ao oceano, destacando a importância da proteção de nascentes e da relação entre uso do solo, erosão e zonas costeiras.

A cultura oceânica integra ciência, cultura, educação e políticas públicas, promovendo uma visão sistêmica que conecta áreas como oceanografia, climatologia, hidrologia e ecologia. Valoriza saberes e identidades das comunidades costeiras, forma cidadãos preparados para enfrentar crises ambientais e orienta decisões sobre uso do solo, gestão da água e economia azul. Nesse contexto, reforça que o oceano começa no território, conectando biomas, culturas e sistemas naturais em uma mesma lógica de pertencimento e responsabilidade. Proteger o oceano, portanto, passa a significar proteger nascentes, rios, florestas, cidades e modos de vida. É nessa perspectiva que o Currículo Azul se consolida não apenas como uma inovação educacional, mas como um projeto de país orientado pela água. Ainda assim, o pioneirismo traz desafios concretos como formar professores, adaptar conteúdos às realidades locais, dialogar com saberes tradicionais e enfrentar desigualdades regionais. Mais do que institucionalizar o tema, será necessário engajar os sistemas educacionais para que a cultura oceânica se torne uma experiência viva e transformadora dentro e fora da sala de aula. Reconhecer que o oceano começa no território é, sobretudo, reconhecer que as soluções de muitos problemas também começam ali.

Cerrado, Berço do mar

O Cerrado, segundo maior bioma brasileiro, é frequentemente chamado de “berço das águas” por abrigar as nascentes de algumas das principais bacias hidrográficas da América do Sul, como as que alimentam os sistemas Tocantins-Araguaia, São Francisco e Prata. Essa característica confere ao bioma um papel estratégico na regulação dos ciclos hidrológicos, na recarga de aquíferos e na manutenção da disponibilidade hídrica em escala continental. Seus solos profundos e sua vegetação adaptada funcionam como uma grande esponja natural, permitindo a infiltração da água da chuva e garantindo o fluxo contínuo dos rios ao longo do ano, inclusive em períodos de estiagem.

A água que nasce nesse bioma percorre milhares de quilômetros até desaguar no mar, transportando não apenas sedimentos e nutrientes essenciais à produtividade marinha, mas também impactos decorrentes do uso do solo, como assoreamento, contaminação por agrotóxicos e perda de cobertura vegetal. Assim, alterações no Cerrado como desmatamento, expansão agropecuária desordenada e degradação de nascentes, reverberam diretamente nos ecossistemas costeiros e marinhos, afetando a qualidade da água, a biodiversidade e até  a produtividade econômica, elevando custos (por exemplo, com tratamento de água) e comprometendo a sustentabilidade de atividades que dependem de ecossistemas aquáticos equilibrados, tais como a pesca nos rios e no mar. Além da dimensão hidrológica, o Cerrado também influencia o equilíbrio climático em escala regional e global. A interação entre vegetação, solo e atmosfera contribui para a formação de chuvas e para a regulação térmica, conectando-se a sistemas maiores que envolvem a circulação oceânica e atmosférica. 

As práticas culturais e econômicas de comunidades tradicionais, povos indígenas e agricultores familiares no Cerrado revelam saberes de manejo alinhados à conservação dos recursos hídricos. Integrar esses conhecimentos à cultura oceânica fortalece uma abordagem inclusiva, que reconhece o território como espaço de produção de saber e amplia a compreensão ambiental ao unir ciência, cultura e vivências locais. Nesse sentido, a cultura oceânica se consolida como um campo estratégico para a educação ambiental e pesquisas em bacias hidrográficas.

Cultura Oceânica na Bacia do Araguaia

De modo a incluir os recursos hídricos do Cerrado na discussão sobre cultura oceânica, surgiu o projeto “Cerrado, o berço do Mar: águas que nascem, saberes e biodiversidade que fluem”, que propõe uma abordagem interdisciplinar, evidenciando como os rios que nascem nesse bioma, alimentam grandes bacias hidrográficas e influenciam diretamente a saúde do oceano, conectando territórios a sistemas marinhos por meio de fluxos ecológicos, sociais e econômicos. Por meio de atividades como mapeamentos, expedições a rios locais, entrevistas com comunidades tradicionais, experimentos científicos, produções artísticas e audiovisuais, estudantes e pesquisadores investigam a biodiversidade do Cerrado, o ciclo da água e os impactos ambientais que percorrem os cursos d’água até chegar ao mar. O projeto busca desenvolver a consciência ecológica, valorizar os saberes locais e fortalecer a percepção de que os ambientes continentais e marinhos são interdependentes, promovendo o engajamento em ações de preservação e cidadania ambiental. 

O projeto tem como parceria o grupo “Maré da Ciência” da Universidade Federal de São Paulo, no Brasil, e o Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR) da Universidade do Porto, em Portugal, no outro lado do oceano, mas unidos pelo mar, reforçando que mesmo distantes, os territórios estão intrinsecamente conectadas ao oceano por meio dos ciclos hidrológicos, atmosféricos e ecológicos, o que amplia o escopo da cultura oceânica para além das zonas costeiras. Essa construção da cultura oceânica no Cerrado, a partir da bacia do Araguaia, representa um processo de ressignificação dos territórios hídricos que articulam ciência, educação ambiental e saberes tradicionais. Essa abordagem integrada fortalece a consciência socioambiental e amplia a participação das comunidades na governança das águas, contribuindo para a conservação da sociobiodiversidade e para o enfrentamento das mudanças climáticas. Ao reconhecer a conexão entre o interior e o oceano, promove-se uma perspectiva sistêmica essencial para a sustentabilidade e para a valorização dos povos tradicionais como protagonistas na proteção dos ecossistemas.

No contexto da bacia do Rio Araguaia, têm sido desenvolvidas ações específicas que reforçam essa abordagem. A escolha desta bacia não é aleatória, trata-se de um território emblemático do Cerrado, onde se manifestam as interações entre uso do solo, dinâmicas hidrológicas e práticas econômicas, como a agropecuária, o turismo e a pesca. Além disso, a presença de comunidades tradicionais e a relevância socioeconômica do rio tornam a região um espaço privilegiado para observar como os impactos ambientais e as decisões produtivas locais se conectam a processos ecológicos mais amplos, que extrapolam a escala regional e alcançam os sistemas fluviais e, indiretamente, os ambientes marinhos. Assim, a bacia do Araguaia permite evidenciar, de maneira situada, como a gestão dos recursos hídricos no Cerrado está intrinsecamente ligada à sustentabilidade de sistemas ecológicos e econômicos em múltiplas escalas. 

No contexto dos projetos incluindo na região do Araguaia, incluindo o PPBio Araguaia (@ppbio.araguaia), executado pela PUC-Goiás com financiamento do CNPq, e o “Araguaia Vivo 2030” (@araguaiavivo), financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG), gerenciado pela Tropical Water Research Alliance (TWRA), e do Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração do Araguaia (PELD Araguaia), tivemos diversos desdobramento de ações e estratégia de difusão do conhecimento. Foi organizada, por exemplo, uma feira de ciências e mostra científica que ocorreu em outubro de 2025, em comemoração à 22ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, trazendo como tema principal “Planeta Água: a cultura oceânica para enfrentar as mudanças climáticas no meu território”. Por meio de produções artísticas (fotos, vídeos, mapas, esculturas, entre outros), projetos científicos e apresentações culturais, abordamos a biodiversidade do Cerrado e os impactos ambientais que percorrem os cursos d’água até chegar ao mar. Essas ações buscaram valorizar saberes locais, fortalecendo a percepção de que os ambientes de água doce e marinhos são interdependentes, promovendo o engajamento de estudantes e comunidade em geral. A atividade aconteceu no centro de convenções da cidade de Aruanã, com a participação de toda comunidade escolar e apoio da prefeitura.

Equipe organizadora na abertura, execução e encerramento da primeira feira de ciências e mostra científica de Aruanã.

A implementação inicial das “Escolas Azuis” no Cerrado, fruto de uma parceria estratégica recentemente estabelecida, configura-se como uma ação educacional voltada à ampliação do debate e ao fortalecimento da cultura oceânica nos contextos escolares, promovendo a compreensão das interrelações entre sociedade e oceano. No Brasil, essa iniciativa tem se consolidado por meio de políticas públicas, redes colaborativas de educadores e participação em programas internacionais de sustentabilidade, com destaque para a atuação do grupo Maré da Ciência. Nesse contexto, a proposta contribui para evidenciar a conexão entre a conservação dos recursos hídricos continentais e a saúde dos ecossistemas marinhos, ao mesmo tempo em que reforça o papel do Cerrado como “berço das águas”. Também promove uma educação socioambiental crítica, incentivando o protagonismo estudantil na análise e no enfrentamento de problemáticas locais, como desmatamento, poluição e uso inadequado da água, com vistas à formação de sujeitos comprometidos com a sustentabilidade em diferentes escalas. Consolidando essa parceria, realizamos atividades colaborativas na 22ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia em Brasília no evento promovido pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação.

Encontro de equipes na 22ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia em Brasília no evento promovido pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, em que foram desenvolvidas várias atividades colaborativas

A produção de recursos didáticos é um fator importante para articular ciência, cultura e território por meio de linguagem acessível e envolvente, de modo a estimular o protagonismo juvenil, incentivando a construção de projetos locais de intervenção socioambiental. Cita-se como exemplo, a história em quadrinhos “Bhia e Oxy”, que será acompanhada de cadernos de atividades. O tema central é a cultura oceânica no Cerrado, tomando como fio condutor o rio Araguaia, abordando desde sua nascente até sua relevância socioambiental. A narrativa acompanha a nascente do rio, destacando sua fragilidade e importância, e segue por diferentes trechos do Araguaia, mostrando paisagens, espécies e práticas culturais. Ao longo da história, surgem conflitos e desafios ambientais reais, como o desmatamento do Cerrado, o assoreamento dos rios, a poluição por resíduos sólidos e agrotóxicos, além dos impactos das mudanças climáticas. Esses elementos são trabalhados de forma contextualizada, permitindo que os leitores reconheçam problemas presentes em seu próprio território. 

Outra atividade desenvolvida avalia as bases biosocioeconômicas para a gestão hídrica em Aruanã-GO, evidenciando a centralidade da construção de bases biosocioeconômicas para a gestão hídrica, ao pesquisar de forma integrada as percepções, práticas de uso, formas de regulação e níveis de engajamento dos diferentes atores locais em relação à água em Aruanã-GO – município situado às margens do Rio Araguaia. O estudo, baseado em métodos mistos, analisa como diferentes atores utilizam e participam da governança da água, entendendo-a como bem comum essencial às relações entre sociedade, economia e natureza. A pesquisa subsidia estratégias mais integradas, democráticas e sustentáveis de gestão hídrica, alinhando eficiência, justiça social e equilíbrio ecológico. Além disso, seus resultados podem ser transformados em materiais educativos, fortalecendo a consciência ambiental e o engajamento social.

Integração das equipes de estudos socioambientais e territoriais em Aruanã-GO, durante as “Expedições Araguaia”

A integração da cultura oceânica com comunidades indígenas fortalece uma educação socioambiental baseada no diálogo de saberes, valorizando conhecimentos tradicionais sobre água, território e biodiversidade. Experiências como as de Aruanã mostram o potencial dessa articulação ao promover ações colaborativas, respeitando culturas locais e incentivando o protagonismo comunitário. Essas iniciativas contribuem para a conservação dos recursos hídricos e o enfrentamento de desafios socioambientais no Cerrado. Como exemplo uma atividade envolvendo a Comunidade INỸ-KARAJÁ e os saberes tradicionais na catalogação da flora medicinal em território hídrico (Rio Araguaia). A pesquisa destaca a importância dos saberes tradicionais na catalogação de plantas medicinais no Cerrado, especialmente em territórios ligados ao Rio Araguaia, valorizando práticas transmitidas entre gerações e fortalecendo a autonomia cultural. Ao conectar esses conhecimentos à cultura oceânica, evidencia-se a relação entre ambientes interiores e o oceano por meio das redes hidrográficas. Assim, o estudo reforça a integração entre conservação, cultura e sustentabilidade, com protagonismo das comunidades tradicionais.

Integração com a comunidade indígena INỸ-KARAJÁ.

Outra discussão importante é destacar que o protagonismo feminino tem sido fundamental para a implementação e o fortalecimento da cultura oceânica no Brasil, inclusive em territórios como o Cerrado, ao articular a atuação de cientistas, educadoras e lideranças comunitárias na produção e disseminação de conhecimentos contextualizados. Nesse processo, os coletivos femininos destacam-se como espaços estratégicos de mobilização, visibilidade e colaboração, ao mesmo tempo em que promovem o engajamento de meninas da educação básica por meio do acesso a referências na ciência e da participação ativa em ações socioambientais. Essas experiências têm sido reforçadas pelo “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede” e pelo “Meninas STEMar: Clube de Cultura Oceânica Escola Azul”, que têm unido forças para atuar como grupos parceiros no avanço dessa rede. Assim, ao ampliar a diversidade na produção do conhecimento e fortalecer redes de atuação, essas iniciativas contribuem de forma decisiva para a construção de uma educação mais inclusiva, crítica e comprometida com a sustentabilidade, consolidando caminhos para transformações sociais e ambientais em diferentes territórios.

Cientistas que compõem o núcleo “Mulheres e Meninas do Araguaia”, que desenvolvem projetos para o incentivo de meninas na ciência, além de pensar projetos focados em soluções baseadas na natureza para engajamento ambiental e complementação de renda das mulheres da região

Nesse cenário, o documentário de curta metragem Mulheres da Pesca no Araguaia (2026), produzido no contexto dos projetos “Mulheres Cientistas em Rede”, “PPBio Araguaia” e “Araguaia Vivo”, emerge como um registro dessa transformação na região do Rio Araguaia (veja também um ensaio recente aqui no “Araguaia em Foco” sobre a questão da pesca feminina). O filme evidencia como mulheres da região vêm ocupando e ressignificando espaços tradicionalmente masculinos, como a pesca, ao mesmo tempo em que fortalecem práticas de cuidado, preservação ambiental e desenvolvimento local. Os relatos do filme mostram que a presença feminina na pesca vai além de conquistas individuais, constituindo um movimento coletivo que fortalece o turismo local e impacta o contexto social e econômico. Ligada a tradições familiares, a pesca também carrega dimensões culturais e afetivas, preservando saberes entre gerações. Nesse processo, as mulheres assumem papel protagonista, promovendo inclusão, transformação social e práticas sustentáveis, além de inspirar novas gerações.

Cena do documentário de curta metragem Mulheres da Pesca no Araguaia (2026), produzido no contexto dos projetos “Mulheres Cientistas em Rede”, “PPBio Araguaia” e “Araguaia Vivo”

A cultura oceânica, ao conectar o Cerrado ao oceano por meio de seus rios, revela assim a profunda interdependência entre territórios, ecossistemas e sociedades. Reconhecer que o oceano começa nas nascentes reforça a necessidade de práticas sustentáveis no uso do solo, na gestão da água e na valorização dos saberes locais. Incorporar iniciativas como o Currículo Azul aos nossos projetos na bacia do Araguaia demonstra o potencial transformador da educação ambiental com uma visão integradora e global, promovendo consciência, igualdade, responsabilidade coletiva para uma conservação efetiva da sociobiodiversidade.

Confira quem são as autoras desse artigo

Andreia Juliana Rodrigues Caldeira – Professora da Universidade Estadual de Goiás e coordenadora da atividade 4 do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA. Pesquisadora responsável pela educação socioambiental no “PPBio Araguaia”, no INCT em Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade (EECBio), no Peld Araguaia e CEHIDRA CERRADO. Coordenadora do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede”.

Mariana Pires de Campos Telles – Professora da PUC Goiás e da Universidade Federal de Goiás (UFG), coordenadora geral do Programa “Araguaia Vivo 2030” e do “PPBio Araguaia”, Coordenadora do CGEN e pesquisadora do PELD Araguaia e do INCT EECBio . Integrante do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede (CNPq)”

Thais Rodrigues Oliveira – Professora na Universidade Estadual de Goiás (UEG), Coordenadora do Laboratório NAUFO da UEG (núcleo audiovisual de produção de foleys e sons), e Pesquisadora do Programa Araguaia Vivo 2030, do PPBio Araguaia e do INCT EECBio. Integrante do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede”. 

Josana de Castro Peixoto – Professora da Universidade Estadual de Goiás e Vice-coordenadora da atividade 4 do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA. Integrante do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede” e do INCT EECBio.

Karine Aparecida Obalhe da Silva Piorski – Professora da Universidade Estadual de Goiás e integrante do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede”.

Emanuella Messias de Souza – Graduanda em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Goiás. Integrante do “Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede (CNPq)”

Ana Clara Diniz – Publicitária e Especialista em Marketing e Branding, comunicadora do Programa Araguaia Vivo 2030 e do Coletivo de Mulheres Cientistas em Rede (CNPq).

Maria João Santos – Professora na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP)/Portugal. Pesquisadora associada do CIIMAR – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental. Coordenadora do Laboratório de Patologia Animal da (FCUP).

Tatiana Martelli Mazzo – Professora do Instituto do Mar da UNIFESP, Integrante da equipe de pesquisadores do Programa Maré de Ciência, Coordenadora do projeto nacional “Meninas STEMar: clubes de cultura oceânica escola azul”.

Thais Failache Ribeiro Pileggi – Consultora UNESCO, Coordenadora Pedagógica do Programa Escola Azul Brasil. Integrante do “Meninas STEMar: Clube de Cultura Oceânica Escola Azul”

Andrezza Justino Gozzo Andreotti – Professora do Instituto do Mar, integrante da equipe de pesquisadores do Programa Maré de Ciência, coordenadora de projetos relacionados à criação de Clubes de Ciência e Cultura Oceânica em Escolas Azuis da Baixada Santista. Integrante do “Meninas STEMar: Clube de Cultura Oceânica Escola Azul”Jussara Moretto Martinelli Lemos – Professora e Diretora Geral do Núcleo de Ecologia Aquática e Pesca da Amazônia da Universidade Federal do Pará, Coordenadora da Olimpíada Nacional do Oceano. Integrante do “Meninas STEMar: Clube de Cultura Oceânica Escola Azul”