Nos últimos anos, as Inteligências Artificiais (IAs) ganharam protagonismo na análise de dados em tempo recorde e na geração de conteúdos. Seja em conversas com o ChatGPT ou nas imagens e vídeos produzidos por ferramentas como a Sora, a tecnologia transformou o cenário digital e se consolidou como uma nova ferramenta poderosa em diversos setores — entre eles, o direito e a saúde. Nesse contexto, o especialista em Direito Eleitoral, Danúbio Remy, e o médico pediatra e cardiointensivista Daniel Raylander alertam para armadilhas e limitações que os usuários devem observar ao recorrer aos algoritmos.

IAs na Justiça

Segundo Remy, as IAs não podem — e não conseguem — substituir a atuação de um advogado. Para o eleitoralista, usar a tecnologia como meio de análise de textos e obtenção de conselhos jurídicos configura exercício ilegal da advocacia, atividade exclusiva de profissionais habilitados.“A consultoria, assessoria e direção jurídicas são reservadas exclusivamente a profissionais qualificados. A automação dessas funções sem supervisão humana representa violação direta à reserva legal da advocacia”, afirma.

Ele destaca ainda que as IAs estão sujeitas a erros que podem levar o usuário a cometer irregularidades e até enfrentar responsabilização legal caso siga orientações imprecisas. Entre os riscos, estão o descumprimento de normas, a prática de atos processuais irregulares sem acompanhamento de um advogado e a possibilidade de caracterização de negligência ou má-fé processual.

Em suma, as respostas automatizadas têm caráter meramente informativo e auxiliar. O usuário deve sempre buscar confirmação profissional antes de agir juridicamente.

Remy defende a criação de normas específicas para regulamentar o uso de IAs no campo jurídico, mas pondera que o excesso de rigidez pode inibir a inovação e limitar o acesso à Justiça por meio de tecnologias inclusivas.

IAs na medicina

Assim como no direito, o uso de IAs na saúde também exige cautela. O médico Daniel Raylander afirma que a principal armadilha está na contestação crescente da autoridade médica por parte de pacientes — muitas vezes sem o conhecimento necessário para interpretar informações.

Para ele, esse comportamento tem origem geracional e pode ser intensificado (ou reduzido) conforme o uso adequado das IAs como ferramenta de acesso à informação, sempre acompanhada de orientação profissional.

Não é incomum que pacientes divaguem sobre o que é científico — ou certo — e o que não é, sem que haja conhecimento suficiente. Já vivemos uma situação de contestação médica.

O especialista reforça que a IA deve ser entendida como uma ferramenta de busca refinada que apenas devolve o que o usuário procura — o que pode ser problemático para quem não domina conceitos médicos. “A IA pode apresentar um artigo de um site sem qualquer validação científica, escrito por qualquer pessoa. Isso não serve como evidência”, explica.

Apesar das limitações, Raylander reconhece o potencial da tecnologia no campo médico, especialmente em ambientes acadêmicos e no desenvolvimento de novas ferramentas para diagnóstico e tratamento. Entre os avanços em curso, ele cita: a construção de modelos 3D pré-operatórios para cirurgias complexas; e cirurgia robótica à distância, com comunicação intercontinental — já usada em redes privadas e em desenvolvimento no SUS.

Por fim, o médico ressalta que a IA deve ser integrada à prática clínica para corroborar, e não substituir, o conhecimento especializado, sempre dentro dos limites do Código de Ética Médica. “As possibilidades são imensas, mas o cuidado no uso da IA deve ser igualmente imenso.”

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