Vítima de violência doméstica desiste de medidas protetivas: “ele pode concretizar o que sempre quis, há tanto tempo: me matar”, diz
08 abril 2026 às 17h03

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Uma vítima de violência doméstica desiste de medidas protetivas para tentar seguir a vida. Carolina Câmara, advogada, relatou, nesta quarta-feira, 8, em entrevista ao Jornal Opção, os episódios de violência doméstica que sofreu durante quase três anos de relacionamento e a decisão de desistir da ação judicial por não encontrar respaldo efetivo nas medidas protetivas.
Ela contou que no dia 7 de setembro, de 2025, após gritos de socorro ouvidos por vizinhos, foi encaminhada ao IML, onde exames de corpo de delito constataram diversas lesões no tórax, cabeça e corpo. O agressor chegou a ser preso, mas foi solto na audiência de custódia e passou a responder em liberdade. Diante de descumprimentos, em novembro foi determinada a utilização de tornozeleira eletrônica e entregue a Carolina um botão de pânico.
Segundo a advogada, o dispositivo toca e envia mensagens de alerta, mas desde novembro, apesar de mais de 50 acionamentos, a polícia compareceu apenas uma vez. “Eles pedem para eu ficar tranquila, dizem que não podem fazer nada e até pedem para desligar o botão porque o barulho causa transtornos”, relatou.
Ela acrescentou que o agressor circula em locais como sua casa e trabalho, e que o botão chega a tocar de madrugada, gerando mensagens também para sua mãe, cadastrada como contato de segurança.
A Carolina afirmou que a medida protetiva não foi eficaz em momento algum. “Eu já ouvi de uma escrivã que problema mesmo era ter um câncer. Já ouvi da delegada que ele ia me matar. Eu falei: ‘Quer é que eu fico esperando?’”, disse.
Ela destacou que já realizou mais de 12 denúncias, sem resultado prático.
O impacto psicológico, segundo ela, foi devastador. “Gera um pânico tanto para mim quanto para a minha família. Se eu não atendo o telefone, eles ficam desesperados. Amigos se afastaram, não querem ficar nesse ambiente pesado… meus afilhados entram em pânico quando o botão toca”, contou.
Carolina descreveu o relacionamento como conturbado e marcado por escalada de agressões. “Começou com xingamentos, beliscões, depois empurrões, tapas. Logo no início eu descobri que ele tinha medida protetiva contra a própria mãe, mas ele distorceu os fatos. Aos poucos fui me afastando da família e dos amigos, até que só restava ele”, disse.
Ela afirmou que só conseguiu romper após a denúncia dos vizinhos. “Eu nunca tive coragem de denunciar porque sabia das consequências jurídicas e pessoais para ele. O avô dele chegou a me pedir para não fazer isso. Se não fosse a denúncia das pessoas, eu estaria até hoje vivendo esse relacionamento”, apontou.
A advogada disse que houve tentativas de diálogo institucional com juízes, promotores e policiais, mas sem sucesso. “Na última visita da polícia ao meu escritório, me recomendaram denunciar ao CNJ e à Ouvidoria do Estado de Goiás, o que já fiz e tenho o protocolo”, afirmou.
Carolina relatou que sua decisão de interromper o processo judicial não se deu por falta de vontade de buscar justiça, mas pelo entendimento de que o sistema não garantiria a punição adequada ao agressor. Segundo ela, o percurso seria longo e doloroso, com audiências e fases recursais, para ao final resultar em medidas brandas como prestação de serviços ou pagamento de cesta básica.
Mesmo com a medida protetiva em vigor, Carolina contou que o agressor continuou a intimidá-la. Em uma madrugada recente, ele passou em frente à sua casa, acionando o botão de pânico e provocando um barulho estrondoso. O episódio gerou pânico em toda a família, incluindo seus avós de 82 anos que vivem com ela. “Eu até falei para o meu advogado: se eu tivesse algum problema do coração, eu tinha morrido”, disse.
A mãe de Carolina demonstrou preocupação ao saber da decisão da filha. Ela recordou o caso de uma mulher que havia retirado a medida protetiva e acabou sendo morta pelo marido na frente dos filhos. Para a família, o medo é constante. Carolina, por sua vez, optou por não compartilhar a decisão com os avós, para evitar ainda mais transtornos.
Apesar da desistência, Carolina afirmou que poderia retomar a luta judicial caso houvesse garantias mais efetivas de proteção. Ela destacou que sua missão sempre foi dar voz às mulheres silenciadas, seja por desistirem do processo ou por terem sido mortas. “Hoje eu entendo por que tem tanta mulher desiste”, afirmou.
Na avaliação de Carolina, o Estado deveria assegurar o cumprimento rigoroso das medidas protetivas. Ela explicou que sua medida contém oito requisitos e que o descumprimento deveria resultar em prisão imediata. Para ela, a impunidade faz com que o agressor se sinta livre para intensificar as ameaças.
“Era como um degrau: ele faz algo e não é punido. Ele vai subindo mais um pouco, até o momento que realmente ele pode concretizar o que ele tanto quis há tanto tempo, que é me matar”, relatou.
Ela contou que histórico do agressor inclui também episódios de violência contra a própria mãe, que chegou a solicitar medidas protetivas em duas ocasiões, mas acabou revogando ambas. Carolina disse ter presenciado agressões contra ela, incluindo xingamentos e tapas.
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