O som metálico da ficha caindo e o ritual de discar em teclas duras já fazem parte da memória coletiva dos brasileiros. Em Goiás, os orelhões, outrora indispensáveis em praças, esquinas e rodoviárias, estão prestes a desaparecer de vez. Segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) verificados nesta quinta-feira, 21, restam apenas 104 aparelhos em funcionamento em todo o estado, enquanto outros 59 seguem em manutenção, muitos deles sem previsão de retorno devido à escassez de peças e ao baixo uso. (No fim da matéria está disponível a quantidade de orelhões por cidade goiana).

O processo de extinção ganhou força após o fim dos contratos de concessão em 2025, que liberou as operadoras da obrigação de manter os Telefones de Uso Público (TUP) em locais já atendidos por sinal de celular. Com a expansão das redes móveis, os orelhões perderam relevância e se tornaram obsoletos, sobrevivendo apenas em bolsões onde a cobertura ainda é falha.

Entre os municípios goianos, Cristalina lidera a resistência com 8 aparelhos ativos, a maioria instalada em comunidades rurais e assentamentos. Logo atrás aparece Nova Roma, com 6 orelhões em operação. Nessas localidades, o telefone público ainda cumpre papel essencial para quem enfrenta dificuldades de acesso à telefonia móvel.

Os poucos orelhões que resistem cumprem hoje a função de “ilhas de conectividade” em áreas remotas, como o Projeto de Assentamento Vitória e a Vila Borba. A previsão é de que até 2028 esses últimos exemplares desapareçam completamente, substituídos pela expansão das redes 4G, 5G e pela conectividade via satélite.

O plano das operadoras

Em nota ao Jornal Opção, a Algar Telecom informou que possui um plano nacional para a desativação dos telefones públicos, em conformidade com a nova regulamentação da Anatel e diante da drástica redução de uso. Hoje, mais da metade dos aparelhos registra menos de uma chamada por dia.

A empresa destacou que os orelhões cumpriram seu papel histórico, mas foram superados pela telefonia móvel e novas tecnologias. Garantiu ainda que a retirada das estruturas será feita com destinação responsável e sustentável do material, além do compromisso de manter em operação os aparelhos que ainda são a única opção de comunicação em determinadas regiões, até que alternativas tecnológicas estejam disponíveis.

No entanto, a companhia não apresentou informações específicas sobre a situação em Goiás, limitando-se a tratar do cenário em nível nacional.

Em resposta ao Jornal Opção, a Oi informou que não atua mais como concessionária de telefonia fixa e, portanto, não tem obrigação de manter os orelhões nas localidades onde já existem alternativas para o serviço de voz, como celulares e outros meios de comunicação.

Memórias de quem viveu a era das fichas

Salatiel Correia, que foi usuário de orelhões, o aparelho cumpria uma função social vital em um Brasil deficitário em telecomunicações. “Basicamente me atendia numa demanda local. Onde eu estava, se precisasse de telefone, alguma coisa na cidade, eu usava a ficha telefônica”, conta.

Ele lembra que, em um período em que o telefone residencial era caro e pouco acessível, os orelhões se tornaram alternativa popular. “Os orelhões eram colocados exatamente porque o país era muito deficitário em telecomunicações”, explica.

Salatiel ressalta ainda que a ficha telefônica representou uma solução para financiar os investimentos necessários na expansão do sistema. Enquanto países como França e Estados Unidos já avançavam em outras tecnologias, o Brasil buscava consolidar sua infraestrutura. Com o desenvolvimento da fibra ótica, a qualidade das telecomunicações cresceu significativamente, e os orelhões começaram a perder espaço.

Ele relaciona esse processo ao conceito de “destruição criativa” de Joseph Schumpeter, em que a inovação derruba modelos antigos para dar lugar a novas formas de organização. “A ficha telefônica entrou nesse ciclo de Schumpeter. Ela foi destruída porque houve uma grande avalanche no sistema de telecomunicações, no qual a Telebras cumpriu um papel muito importante”, afirma.

Com a modernização, vieram os telefones mais avançados e, posteriormente, os celulares, que acabaram por substituir tanto os orelhões quanto os aparelhos fixos nas residências. “O celular veio com outra proposta, com uma flexibilidade que destruiu a utilidade do telefone fixo, que por muitos anos perdurou no Brasil”, aponta.

Para Correia, é essencial reconhecer que a ficha telefônica cumpriu um papel histórico em um Brasil que vivia uma fase primária do capitalismo. Dentro de um contexto de inovação schumpeteriana e de investimentos em telecomunicações, ela foi fundamental para a transição rumo a um sistema mais moderno. Hoje, assim como os orelhões desapareceram, o telefone fixo também perdeu espaço diante da mobilidade e da praticidade dos celulares.

Sem nostalgia

Ao Jornal Opção, Honorato, que também foi um usuário de orelhão, disse que não guarda saudades. “Olha, eu te confesso que eu não tenho falta nenhuma”, afirma. Para ele, o orelhão foi apenas o “celular público da época”, resume.

Honorato lembra das filas para conseguir falar com alguém. “Uma vez eu fiquei numa fila de orelhão que tinha seis pessoas, foi a máxima que eu já fiquei”, conta. Apesar da espera, não havia irritação. “Não, porque eu não tinha outra opção. Ou era isso ou era a carta, né? Eu vou mandar uma carta”, explica.

As conversas rápidas também marcaram relacionamentos e encontros. “Foi uma coisa rápida, não durou muito tempo por telefone”, diz sobre um namoro da juventude. Ainda assim, o aparelho era essencial para combinar encontros e programar atividades. “Isso era muito bom para a gente falar com alguém: ‘vamos marcar para sair para tal dia’. Nessa época a gente tinha que marcar uma coisa para o futuro. Falava assim: ‘ó, vamos semana que vem para tal lugar’. E pelo menos na turma que eu andava era assim, a gente marcava e aí não precisava ligar na época. Todo mundo já sabia”, relembra.

Hoje, com o avanço da tecnologia, Honorato garante que não sente falta dos orelhões, nem mesmo pela nostalgia. “Nenhuma”, reforça. Para ele, os aparelhos cumpriram seu papel em um tempo em que eram indispensáveis, mas ficaram no passado.

Quadro

MunicípioTotal de OrelhõesAtivosEm Manutenção
Buriti Alegre220
Cachoeira Dourada532
Inaciolândia101
Itumbiara707
Paranaiguara312
São Simão303
Araguapaz321
Caiapônia321
Cavalcante532
Cristalina880
Niquelândia633
Paraúna110
Porangatu422
Rio Verde101
São João d’Aliança321
Teresina de Goiás110
Acreúna101
Água Fria de Goiás101
Anápolis101
Anicuns220
Barro Alto110
Bela Vista de Goiás211
Bom Jesus de Goiás110
Bonópolis110
Buritinópolis110
Cabeceiras101
Catalão202
Cocalzinho de Goiás101
Colinas do Sul110
Corumbá de Goiás110
Corumbaíba110
Cromínia110
Damianópolis110
Divinópolis de Goiás211
Edéia101
Faina101
Fazenda Nova211
Firminópolis110
Flores de Goiás110
Formosa110
Goiandira110
Goiás312
Goiatuba110
Guarani de Goiás110
Hidrolândia211
Hidrolina211
Ipameri211
Iporá101
Israelândia110
Itaberaí101
Itapirapuã110
Itapuranga110
Jandaia101
Jaraguá330
Luziânia110
Mara Rosa202
Matrinchã101
Monte Alegre de Goiás220
Montes Claros de Goiás202
Montividiu do Norte101
Morrinhos101
Nova Crixás101
Nova Roma660
Novo Brasil110
Novo Planalto110
Orizona541
Padre Bernardo330
Piracanjuba101
Pirenópolis110
Planaltina110
Porangatu202
Posse211
Santa Cruz de Goiás110
Santa Isabel110
Santa Rita do Novo Destino101
Santa Terezinha de Goiás330
São Domingos330
São João d’Aliança211
São Luís de Montes Belos110
Silvânia101
Sítio d’Abadia220
Uruaçu110
Uruana321
Vianópolis312

Leia também:

Homem de 28 anos, preso em Chapadão do Céu, se passava por adolescente para cometer crimes sexuais; delegado detalha

Sindicatos promovem ato nesta quinta-feira, 22, em Defesa da Previdência pública e de qualidade

Goiânia retira 32 toneladas de vidro por mês, diz Consórcio Limpa Gyn