Com apenas 104 aparelhos ativos, orelhões em Goiás entram na contagem regressiva para o fim de uma era
21 janeiro 2026 às 19h10

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O som metálico da ficha caindo e o ritual de discar em teclas duras já fazem parte da memória coletiva dos brasileiros. Em Goiás, os orelhões, outrora indispensáveis em praças, esquinas e rodoviárias, estão prestes a desaparecer de vez. Segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) verificados nesta quinta-feira, 21, restam apenas 104 aparelhos em funcionamento em todo o estado, enquanto outros 59 seguem em manutenção, muitos deles sem previsão de retorno devido à escassez de peças e ao baixo uso. (No fim da matéria está disponível a quantidade de orelhões por cidade goiana).
O processo de extinção ganhou força após o fim dos contratos de concessão em 2025, que liberou as operadoras da obrigação de manter os Telefones de Uso Público (TUP) em locais já atendidos por sinal de celular. Com a expansão das redes móveis, os orelhões perderam relevância e se tornaram obsoletos, sobrevivendo apenas em bolsões onde a cobertura ainda é falha.
Entre os municípios goianos, Cristalina lidera a resistência com 8 aparelhos ativos, a maioria instalada em comunidades rurais e assentamentos. Logo atrás aparece Nova Roma, com 6 orelhões em operação. Nessas localidades, o telefone público ainda cumpre papel essencial para quem enfrenta dificuldades de acesso à telefonia móvel.
Os poucos orelhões que resistem cumprem hoje a função de “ilhas de conectividade” em áreas remotas, como o Projeto de Assentamento Vitória e a Vila Borba. A previsão é de que até 2028 esses últimos exemplares desapareçam completamente, substituídos pela expansão das redes 4G, 5G e pela conectividade via satélite.
O plano das operadoras
Em nota ao Jornal Opção, a Algar Telecom informou que possui um plano nacional para a desativação dos telefones públicos, em conformidade com a nova regulamentação da Anatel e diante da drástica redução de uso. Hoje, mais da metade dos aparelhos registra menos de uma chamada por dia.
A empresa destacou que os orelhões cumpriram seu papel histórico, mas foram superados pela telefonia móvel e novas tecnologias. Garantiu ainda que a retirada das estruturas será feita com destinação responsável e sustentável do material, além do compromisso de manter em operação os aparelhos que ainda são a única opção de comunicação em determinadas regiões, até que alternativas tecnológicas estejam disponíveis.
No entanto, a companhia não apresentou informações específicas sobre a situação em Goiás, limitando-se a tratar do cenário em nível nacional.
Em resposta ao Jornal Opção, a Oi informou que não atua mais como concessionária de telefonia fixa e, portanto, não tem obrigação de manter os orelhões nas localidades onde já existem alternativas para o serviço de voz, como celulares e outros meios de comunicação.
Memórias de quem viveu a era das fichas
Salatiel Correia, que foi usuário de orelhões, o aparelho cumpria uma função social vital em um Brasil deficitário em telecomunicações. “Basicamente me atendia numa demanda local. Onde eu estava, se precisasse de telefone, alguma coisa na cidade, eu usava a ficha telefônica”, conta.
Ele lembra que, em um período em que o telefone residencial era caro e pouco acessível, os orelhões se tornaram alternativa popular. “Os orelhões eram colocados exatamente porque o país era muito deficitário em telecomunicações”, explica.
Salatiel ressalta ainda que a ficha telefônica representou uma solução para financiar os investimentos necessários na expansão do sistema. Enquanto países como França e Estados Unidos já avançavam em outras tecnologias, o Brasil buscava consolidar sua infraestrutura. Com o desenvolvimento da fibra ótica, a qualidade das telecomunicações cresceu significativamente, e os orelhões começaram a perder espaço.
Ele relaciona esse processo ao conceito de “destruição criativa” de Joseph Schumpeter, em que a inovação derruba modelos antigos para dar lugar a novas formas de organização. “A ficha telefônica entrou nesse ciclo de Schumpeter. Ela foi destruída porque houve uma grande avalanche no sistema de telecomunicações, no qual a Telebras cumpriu um papel muito importante”, afirma.
Com a modernização, vieram os telefones mais avançados e, posteriormente, os celulares, que acabaram por substituir tanto os orelhões quanto os aparelhos fixos nas residências. “O celular veio com outra proposta, com uma flexibilidade que destruiu a utilidade do telefone fixo, que por muitos anos perdurou no Brasil”, aponta.
Para Correia, é essencial reconhecer que a ficha telefônica cumpriu um papel histórico em um Brasil que vivia uma fase primária do capitalismo. Dentro de um contexto de inovação schumpeteriana e de investimentos em telecomunicações, ela foi fundamental para a transição rumo a um sistema mais moderno. Hoje, assim como os orelhões desapareceram, o telefone fixo também perdeu espaço diante da mobilidade e da praticidade dos celulares.
Sem nostalgia
Ao Jornal Opção, Honorato, que também foi um usuário de orelhão, disse que não guarda saudades. “Olha, eu te confesso que eu não tenho falta nenhuma”, afirma. Para ele, o orelhão foi apenas o “celular público da época”, resume.
Honorato lembra das filas para conseguir falar com alguém. “Uma vez eu fiquei numa fila de orelhão que tinha seis pessoas, foi a máxima que eu já fiquei”, conta. Apesar da espera, não havia irritação. “Não, porque eu não tinha outra opção. Ou era isso ou era a carta, né? Eu vou mandar uma carta”, explica.
As conversas rápidas também marcaram relacionamentos e encontros. “Foi uma coisa rápida, não durou muito tempo por telefone”, diz sobre um namoro da juventude. Ainda assim, o aparelho era essencial para combinar encontros e programar atividades. “Isso era muito bom para a gente falar com alguém: ‘vamos marcar para sair para tal dia’. Nessa época a gente tinha que marcar uma coisa para o futuro. Falava assim: ‘ó, vamos semana que vem para tal lugar’. E pelo menos na turma que eu andava era assim, a gente marcava e aí não precisava ligar na época. Todo mundo já sabia”, relembra.
Hoje, com o avanço da tecnologia, Honorato garante que não sente falta dos orelhões, nem mesmo pela nostalgia. “Nenhuma”, reforça. Para ele, os aparelhos cumpriram seu papel em um tempo em que eram indispensáveis, mas ficaram no passado.
Quadro
| Município | Total de Orelhões | Ativos | Em Manutenção |
|---|---|---|---|
| Buriti Alegre | 2 | 2 | 0 |
| Cachoeira Dourada | 5 | 3 | 2 |
| Inaciolândia | 1 | 0 | 1 |
| Itumbiara | 7 | 0 | 7 |
| Paranaiguara | 3 | 1 | 2 |
| São Simão | 3 | 0 | 3 |
| Araguapaz | 3 | 2 | 1 |
| Caiapônia | 3 | 2 | 1 |
| Cavalcante | 5 | 3 | 2 |
| Cristalina | 8 | 8 | 0 |
| Niquelândia | 6 | 3 | 3 |
| Paraúna | 1 | 1 | 0 |
| Porangatu | 4 | 2 | 2 |
| Rio Verde | 1 | 0 | 1 |
| São João d’Aliança | 3 | 2 | 1 |
| Teresina de Goiás | 1 | 1 | 0 |
| Acreúna | 1 | 0 | 1 |
| Água Fria de Goiás | 1 | 0 | 1 |
| Anápolis | 1 | 0 | 1 |
| Anicuns | 2 | 2 | 0 |
| Barro Alto | 1 | 1 | 0 |
| Bela Vista de Goiás | 2 | 1 | 1 |
| Bom Jesus de Goiás | 1 | 1 | 0 |
| Bonópolis | 1 | 1 | 0 |
| Buritinópolis | 1 | 1 | 0 |
| Cabeceiras | 1 | 0 | 1 |
| Catalão | 2 | 0 | 2 |
| Cocalzinho de Goiás | 1 | 0 | 1 |
| Colinas do Sul | 1 | 1 | 0 |
| Corumbá de Goiás | 1 | 1 | 0 |
| Corumbaíba | 1 | 1 | 0 |
| Cromínia | 1 | 1 | 0 |
| Damianópolis | 1 | 1 | 0 |
| Divinópolis de Goiás | 2 | 1 | 1 |
| Edéia | 1 | 0 | 1 |
| Faina | 1 | 0 | 1 |
| Fazenda Nova | 2 | 1 | 1 |
| Firminópolis | 1 | 1 | 0 |
| Flores de Goiás | 1 | 1 | 0 |
| Formosa | 1 | 1 | 0 |
| Goiandira | 1 | 1 | 0 |
| Goiás | 3 | 1 | 2 |
| Goiatuba | 1 | 1 | 0 |
| Guarani de Goiás | 1 | 1 | 0 |
| Hidrolândia | 2 | 1 | 1 |
| Hidrolina | 2 | 1 | 1 |
| Ipameri | 2 | 1 | 1 |
| Iporá | 1 | 0 | 1 |
| Israelândia | 1 | 1 | 0 |
| Itaberaí | 1 | 0 | 1 |
| Itapirapuã | 1 | 1 | 0 |
| Itapuranga | 1 | 1 | 0 |
| Jandaia | 1 | 0 | 1 |
| Jaraguá | 3 | 3 | 0 |
| Luziânia | 1 | 1 | 0 |
| Mara Rosa | 2 | 0 | 2 |
| Matrinchã | 1 | 0 | 1 |
| Monte Alegre de Goiás | 2 | 2 | 0 |
| Montes Claros de Goiás | 2 | 0 | 2 |
| Montividiu do Norte | 1 | 0 | 1 |
| Morrinhos | 1 | 0 | 1 |
| Nova Crixás | 1 | 0 | 1 |
| Nova Roma | 6 | 6 | 0 |
| Novo Brasil | 1 | 1 | 0 |
| Novo Planalto | 1 | 1 | 0 |
| Orizona | 5 | 4 | 1 |
| Padre Bernardo | 3 | 3 | 0 |
| Piracanjuba | 1 | 0 | 1 |
| Pirenópolis | 1 | 1 | 0 |
| Planaltina | 1 | 1 | 0 |
| Porangatu | 2 | 0 | 2 |
| Posse | 2 | 1 | 1 |
| Santa Cruz de Goiás | 1 | 1 | 0 |
| Santa Isabel | 1 | 1 | 0 |
| Santa Rita do Novo Destino | 1 | 0 | 1 |
| Santa Terezinha de Goiás | 3 | 3 | 0 |
| São Domingos | 3 | 3 | 0 |
| São João d’Aliança | 2 | 1 | 1 |
| São Luís de Montes Belos | 1 | 1 | 0 |
| Silvânia | 1 | 0 | 1 |
| Sítio d’Abadia | 2 | 2 | 0 |
| Uruaçu | 1 | 1 | 0 |
| Uruana | 3 | 2 | 1 |
| Vianópolis | 3 | 1 | 2 |
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