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OPINIÃO
O tenentismo, a Coluna Prestes e a resistência pelo norte goiano e nordeste brasileiro

Convidado pela jornalista Alice Valadares a participar do programa TBC Memória da TV Brasil Central, que celebra a cultura e a história de Goiás por meio de entrevistas, produzimos este artigo para a apresentação com Enzo de Lisita, cuidando de um dos episódios mais intensos da história político-militar do Brasil e de Goiás: o combate à Coluna Prestes e a resistência organizada no antigo norte do estado, hoje Tocantins, sob a liderança do ex-Dep Abílio Wolney, que transitou pelo nordeste, chegando a Boa Vista em Pernambuco.

Historicamente, o movimento tenentista surgiu na década de 1920, impulsionado por jovens oficiais do Exército Brasileiro, inconformados com a corrupção, o coronelismo e a manipulação eleitoral que marcavam a República Velha. Os “tenentes”, como ficaram conhecidos, defendiam reformas políticas e sociais profundas, como o voto secreto, a moralização da administração pública e a modernização do Estado.

A primeira manifestação do tenentismo ocorreu em 5 de julho de 1922, com a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro. Dezoito homens saíram armados para enfrentar as tropas legalistas. Apenas dois deles sobreviveram. Este ato trágico, embora militarmente fracassado, inaugurou uma década de rebeliões militares com grande repercussão política.

Em 1924, uma nova revolta eclodiu em São Paulo, liderada pelo general Isidoro Dias Lopes, com apoio de Miguel Costa e da Força Pública. O levante, que durou 23 dias, foi violentamente reprimido, com a capital paulista bombardeada. Após a derrota, os insurgentes se retiraram, encontrando-se com outros rebeldes no sul do país e dando origem ao que viria a ser a mais longa marcha revolucionária da história do Brasil.

Surgia então a Coluna Miguel Costa-Prestes, que percorreu mais de 25 mil quilômetros entre 1925 e 1927, atravessando 13 estados brasileiros. Liderada por Luís Carlos Prestes e Miguel Costa, a Coluna denunciava as injustiças sociais, o abandono do interior e a ilegitimidade da República Velha. Durante sua marcha, enfrentou diversos combates com forças legalistas e com milícias locais organizadas.

No antigo norte de Goiás, atual Tocantins, destacou-se a figura do Cel. da Guarda Nacional Abílio Wolney, que exerceu três mandatos de deputado estadual e foi presidente do antigo Congresso Estadual de Goiás, tendo sido um homem de larga influência política e social na região. Nomeado também Cel. Patriota pelo presidente Washington Luís, Wolney organizou um batalhão de mil homens, recrutando voluntários do norte goiano e de Barreiras, na Bahia, onde exerceu relevante liderança. Wolney chegou ao Pernambuco, onde, em 24 de fevereiro de 1926, liderou seu batalhão na cidade de Boa Vista-PE, conforme registrado por Jorge Amado na obra O Cavaleiro da Esperança. Sua ação foi decisiva no enfrentamento da Coluna também naquela região.

A trajetória de Abílio Wolney transcende sua atuação militar de ocasião, onde a sua direção era composta também pelos genros Antônio Póvoa, João Correia de Melo, Coquelin Costa e Francisco Liberato como enfermeiro. Além de deputado estadual em três legislaturas iniciadas em 1896-1911, com um intervalo, foi presidente do Congresso Estadual de Goiás no último mandato, sendo eleito para um quarto, do qual foi arbitrariamente depurado por adversários políticos da nascente oligarquia responsável pelos episódios do Tronco em São José do Duro, onde uma expedição guiada pelo Juiz nomeado pelo governo sequestrou 9 pessoas e depois matou todos num pelourinho horizontal de madeira, só não mata do 72 mulheres e crianças porque a força privada de Wolney chegou a tempo do resgate. Era advogado provisionado, OAB nº 33, médico prático autorizado pelo CRM e farmacêutico, cogitado para ser indicado à presidência do Estado de Goiás, mas impedido por Totó Caiado e Eugênio Jardim, conforme escreve Bernardo Élis no romance O Tronco.

Nos anos 30, Abilio seria prefeito de Barreiras (BA) entre 1932 e 1937, e um dos primeiros defensores da criação do Tocantins e do Estado do São Francisco, que numa segunda hipótese uniria o norte de Goiás ao oeste baiano.

Na mesma época em que a oligarquia goiana procurava reprimir o movimento liderado por Santa Dica no povoado da Lagoa, em Pirenópolis (1925), interveio em Goiás a Coluna Prestes. Como manifestação do tenentismo, a Coluna pretendia moralizar a vida pública brasileira, pondo fim às fraudes eleitorais e à hegemonia dos grandes proprietários rurais.

A Coluna formou-se após as revoltas tenentistas de 1924, dando início a uma guerra de movimento contra o governo de Artur Bernardes. Liderado por Luiz Carlos Prestes, o Movimento objetivava conscientizar as camadas populares das injustiças do regime oligárquico, mas não ganhou a adesão das massas para a derrubada da ordem instituída em razão da sua atuação controvertida, deixando contudo na memória coletiva o heroísmo de jovens e velhos militares que sonharam com um Pais melhor, livre do jugo de grupos apegados no poder em defesa dos próprios interesses latifundiários e familiocratas. O movimento chocou-se várias vezes contra tropas oficiais. A Coluna não sofreu uma única derrota graças ao brilhantismo de seu principal líder. A revolta tampouco alcançou seus objetivos de uma ação popular ampla, desfazendo-se na Bolívia, em fevereiro de 1927.

Em suas correrias pelo Brasil, fez parte do trajeto da Coluna Prestes a sua passagem em território goiano. Segundo Osvaldo Póvoa, “nos anos de 1925 e 1926 muitos municípios do antigo norte de Goiás viveram dias de pavor com as notícias da aproximação do que o povo denominava os revoltosos, grupo formado por militares e civis sob o comando de Miguel Costa, Juarez Távora, Carlos Prestes e outros idealistas.” Ele continua: “Este grupo revolucionário […] cresceu muito com a incorporação de pessoas que não se submetiam à rigorosa disciplina militar, cometendo crimes de toda natureza, inclusive assassinatos e estupros. As escolas fechavam, as famílias fugiam das vilas e cidades para se esconderem nas matas.”

Através de ofício de 17 de novembro de 1925, o Delegado de Polícia do Porto Nacional relata as ocorrências ao Capitão Delegado Regional de S. José do Duro: “Houve as costumeiras requisições, precedendo-as a posse manu militari das fazendas que eram percorridas pelos soldados revolucionários e arrebanhada toda a cavalhada e muitos gados que deixaram pelos campos.”

Foi nesse clima de pavor que a Vila do Duro recebeu, em setembro de 1925, a notícia de que os revoltosos marchavam em sua direção. A vila, recém-saída de uma chacina, estava sediando a 4ª Companhia da Polícia Militar do Estado de Goiás sob o comando do Capitão Antônio César de Siqueira, um facinoroso larápio fardado, terminou servindo de esbirro necessário para interceptar os revoltosos em Santa Maria de Taguatinga, embora quase nada fez, senão roubar o gado da região com os brasões da polícia goiana.
Só de São José do Duro esse espécime de militar tocou em torno de 15.000 cabeças de gado.

No dia 29 de setembro de 1925, a vila de Santa Maria de Taguatinga foi atacada por 250 revoltosos, segundo informe do comandante da força policial. Comandavam este pequeno grupo os coronéis Juarez Távora e Siqueira Campos, enquanto o grosso da coluna revoltosa, sob o comando do General Miguel Costa, do Coronel Carlos Prestes e do civil João Alberto Lins, se deslocava rumo a Conceição do Norte.

O General Miguel Costa e o Coronel Carlos Prestes falam de modo sucinto dessa passagem em carta ao gaúcho Dr. Batista Lusardo: “A 28, a Divisão deslocou-se para Natividade via Conceição, enquanto que uma força do 3º Destacamento, sob o comando do Tenente-Coronel Siqueira Campos, era lançada como flanco-guarda direito da Coluna nas direções de Santa Maria de Taguatinga e Duro.”

As notícias do choque dos revoltosos com a polícia em Santa Maria de Taguatinga fizeram com que as escolas suspendessem as aulas até a passagem da tormenta em várias localidades. Do município da Palma, um professor dava notícia de ter a cidade sido invadida em 1925 pelas hostes revolucionárias do General Izídio.

Passada a tormenta, o Professor Cárdia relata em poucas palavras o que ocorreu no Município da Palma, que na verdade é uma síntese do que aconteceu por onde a chamada Coluna Prestes passou na sua caminhada de mais de trinta mil quilômetros por todo o Brasil: “Os prejuízos causados neste município são superiores a 100:000$000 (Cem contos de réis). […] O Professor Aristides Mendes Cárdia.”

Após o esgotamento das forças revolucionárias e o fim da marcha em 1927, Luís Carlos Prestes se exilou na Bolívia. Foi nesse período de exílio e reflexão que se aproximou do pensamento comunista, motivado tanto por suas experiências no interior do Brasil quanto pelo contexto político internacional, marcado pelo avanço dos ideais socialistas. Sua adesão formal ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) só se deu em 1935, marcando uma virada ideológica que influenciaria sua atuação até o fim da vida.

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Abril de 80 anos atrás colocou o Brasil na história dos fortes, dos vencedores, dos que fazem a cobra fumar. No mês seguinte, a Alemanha capitularia, acabando na Europa a 2ª Guerra Mundial, que continuaria na Ásia até o Japão se render, em agosto. Fiquei próximo do embate, com delay de década e meia, dentro de casa, ainda na infância. Tinha um parente queridíssimo, Tio Laurindo, marido de uma familiar da minha mãe, com quem a meninada adorava conversar. Na verdade, entrevistar. A gente o enchia de perguntas e ele, pacientemente, respondia com detalhes sobre sua participação como pracinha da FEB, a Força Expedicionária Brasileira, para livrar a Itália do nazifascismo. Era minucioso, falava devagar e pedíamos para repetir, de tão saborosas as narrativas.

Depois de conquistarem em fevereiro o Monte Castelo e La Serra Cota, e em março Castelnuovo, logo mais, em 9 de abril de 1945, tio Laurindo e seus colegas despedaçaram as linhas alemãs defensoras do que ainda restava do eixo na terra do já derrubado Benito Mussolini. Era a operação Encore, que uma semana depois chegaria ao apogeu com nossos conterrâneos quebrando outras duas etapas da contenção nazista e libertando Montese, cidade vizinha de Bolonha e Modena.

A gratidão daquelas pessoas foi tamanha que todo abril realizam a “Festa ela liberazione”, quando são gravados os vídeos de tanto sucesso no YouTube com estudantes locais cantando em português o hino da FEB. Enchem o peito no refrão:

“Nossa vitória final
Que é mira do meu fuzil
A ração do meu bornal
A água do meu cantil
As asas do meu ideal
A glória do meu Brasil”.

Tio Laurindo nos ensinou a letra e o ritmo da Canção do Expedicionário. Os italianinhos modernos vencem a molecada do meu tempo no quesito entusiasmo, até porque eles aprendem na escola sobre o heroísmo que aqui nos chega em forma de pilhéria. Se não fosse o próprio Tio Laurindo, essa bela página do Brasil com seus feitos passaria em branco para as crianças do meu bairro.

No livro “História oral do Exército na Segunda Guerra Mundial”, o general-de-brigada Thorio Benedro de Souza Lima reclama por seu batalhão, que entre outras proezas libertou Montese, ter sido apelidado de “Laurindo”:

“Essa expressão ‘Laurindo’, que foi música de carnaval, tornou-se uma denominação pejorativa”.

Entre 1934 e 1945, 9 sambas dos maiores compositores citavam Laurindo. Qual Laurindo? Era fictício, o que a imaginação mandasse, como nessa sequência parecida com os desafios de cordel:

Noel Rosa e Hervê Cordovil, em Triste cuíca, gravada por Aracy de Almeida em 1934: “Parecia um boi mugindo/ Aquela triste cuíca/ Tocada pelo Laurindo/ O gostoso da Zizica”.

Geraldo Augusto e João Antônio Pessanha, em Sem cuíca não há samba, cantada por Isaura Garcia, 1942: “Todo mundo cantava sorrindo/ Quando ouvia a cuíca na mão do Laurindo mugindo”.

Herivelto Martins com o Trio de Ouro, Laurindo, 1942: “Laurindo sobe o morro gritando/ Não acabou a Praça Onze, não acabou.”

Em 1944, Ari Monteiro, Arnaldo Passos e Newton Teixeira responderam no feminino, Laurinda: “Depois que a Praça Onze se acabou/ Você nunca mais sambou”.

Outro de Herivelto, mas com Príncipe Pretinho, Quem vem descendo, cantada pelo Trio de Ouro, 1943: “A caravana do Laurindo/ O lamento a gente ouvindo, não pode calar/ Há no seu canto a tristeza/ De lendária beleza que o tempo guardou/ Tristeza que vive num bronze/ Que a sambar na Praça Onze Laurindo ganhou”.

Haroldo Lobo, Jorge de Castro e Wilson Batista saíram-se em 1943 com Lá vem Mangueira! cantada por Déo: “Com harmonia, lá vem Mangueira!/ Vem Laurindo na frente, da bateria/ Perguntei: Conceição, o que aconteceu?/ Laurindo foi pro front, esse ano não desceu”.

O poema seguinte revelou no título a patente, Cabo Laurindo, de Wilson Batista e Haroldo Lobo, com Jorge Veiga, em 1945, já no pós-guerra: “Laurindo voltou coberto de glória,/ Trazendo garboso no peito a Cruz da Vitória./ Oi! Salgueiro, Mangueira, Estácio, Matriz estão agindo/ Para homenagear o bravo cabo Laurindo!/ As duas divisas que ele ganhou, mereceu./ Conheço os princípios que Laurindo sempre defendeu./ Amigo da verdade, defensor da igualdade./ Dizem que lá no morro vai haver transformação. Camarada Laurindo, estamos à sua disposição!”

O carrossel de temas retratou a mágoa do general. Reuniu as várias estrofes dos diversos autores como se fossem apenas um poema e concluiu que recebeu o apelido zombando de uma manobra planejada por ele e corretamente executada por milhares de Laurindos iguais a meu tio ao descerem os Apeninos. Para ele, havia uma relação com a descida de algum morro no Rio de Janeiro. Seguiram-se outros belos sambas mencionando Laurindo, todos exaltando as vitórias de nossos bravos: o Brasil teve a única tropa da 2ª Guerra que venceu uma divisão inteira de nazistas, com mais de 20 mil prisioneiros.

Graças aos sambas e aos batalhões que libertaram cidades mais velhas que o Brasil, o número de bebês batizados de Laurindo passou de 1.644 em 1930 para 2.570 em 1940 e 2.809 em 1950. Ou seja, meu tio estava na moda. Pior aprontaram as autoridades, que simplesmente se esqueceram de nossos heróis. Nos tempos de colégio, passávamos o 1º semestre nos preparando para os desfiles de 7 de Setembro. Encerradas as férias de julho, tínhamos 5 semanas para treinar as coreografias e fazer as vestimentas.

Os meninos sonhavam chegar ao ginásio, atualmente 2ª fase do fundamental, para ter a chance de se mostrar. Os do 1º ao 3º ano iam de short; do 4º ano, de calça. E o melhor: quanto mais evoluído, mais perto dos pracinhas, que abriam o desfile. Meu grande orgulho era ver Tio Laurindo todo garboso com seu uniforme. Excelente músico, ele tocava todos os instrumentos, TODOS, com um detalhe: dos 25.834 pracinhas, 467 morreram em combate, 2.700 voltaram feridos ou mutilados, milhares sofreriam com problemas advindos da guerra. Tio Laurindo retornou são e salvo, mas tinha o hobby de pescar com bomba, uma explodiu em sua mão direita, restou o toco de braço, batia continência com uma tosca prótese de plástico. E a multidão o aplaudia, agradecida. Porém, até a comemoração da Independência rareou. Os heróis que resistem 8 décadas depois devem estar envergonhados do país pelo qual arriscaram suas vidas e o representarem tão bem.

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Vamos votar e eleger a nova reitora ou reitor da UFG?

por Zenilde Nunes Batista*

Vamos. Mas, colega, eu não vou dar meu apoio explícito a ninguém neste primeiro momento. Essa é a minha resposta a qualquer pessoa que me peça voto, a priori. Eu apoio é a disputa, e torço para que ela seja acirrada. Vou esperar pacientemente que as candidatas se posicionem de forma muito clara e objetiva sobre como pretendem tratar as situações de assédio que acontecem na Universidade.

Não existe mais pra mim esse negócio de "a nossa querida UFG", bordão criado e que tem a intenção clara de apelar às nossas emoções, colocando a instituição em que trabalhamos como uma figura, uma personagem, objeto de nossos afetos. Mas isso já deu, se revelou a pior das falácias. Eu já caí nessa cilada no passado, faço o mea culpa.

Entretanto, a UFG hoje pra mim é a repartição, o lugar onde trabalho, com muita dignidade, competência e responsabilidade, dando o meu melhor e de onde, com o meu suor, tiro o meu sustento, e é isso.

Claro que existe uma "querida UFG". Mas para um nicho bem específico e reduzido de pessoas, apenas. Aquelas que vivem há anos penduradas nos figurões, sempre com uma direção aqui, outra acolá, uma bolsa aqui, outra acolá... E voltar para sua posição de soldado de "baixa patente" não se coloca no horizonte. Aí fica fácil bancar essa hipocrisia de "nossa querida UFG".

Um dia, no banco da psicóloga, cheguei à conclusão de que vivi, por anos, em uma bolha na Universidade. Por muito tempo, achei mesmo que assédio e perseguição a agente público era uma coisa que não acontecia em nossa instituição. Posso dizer que conheci um outro universo uefegeano depois que saí desse casulo. Hoje, depois de ouvir relatos e também de ter passado por poucas e péssimas, consigo visualizar, com a lupa distanciada, como as coisas acontecem de fato.

Sempre demonstrei apoio publicamente ao candidato ou à candidata que entendia ser a melhor escolha para a universidade, mas hoje, a decepção é o que me move.

Há bem pouco tempo, quando eu estive em uma situação inadmissível no ambiente de trabalho, que me trouxe intenso sofrimento emocional, o meu apoio não veio, em nenhuma medida, de nenhum dos gestores que sempre ajudei a eleger.

É de conhecimento do público interno da UFG o desarranjo - pra ser generosa com as palavras - que se instalou na Editora UFG, meu órgão de lotação, em agosto/2024, quando o vice-reitor deu voz de exoneração ao então diretor da Editora.

E com a chegada do novo diretor, uma operação foi arquitetada contra mim: fui ameaçada de remoção de ofício, acossada,... e por fim, isolada em uma das livrarias da UFG. Não fui removida porque resisti, sozinha, porém firme, dando conta da violência institucional, no meu caminho tortuoso. Pessoas incríveis me apoiaram sim, MEUS COLEGAS, meu pares de outros Órgãos e Unidades. Mas, do topo do Olimpo, não teve figurão e nem figurinha nenhuma me dando qualquer tipo de apoio, uma conversa, uma carinha de espanto se admirando daquela situação absurda, nada... Enfim, a história é longa e o que importa é que agora estou bem. Quem quiser saber mais, pergunte-me no privado.

Quanto aos meus pares que me ajudaram, adoraria agradecer de público, porque me foi tão caro, tão importante o acolhimento que recebi naquele momento… Mas não o farei, pois os assediadores existem e estão por aí, à solta e precisamos estar atentos, inclusive para não comprometer os colegas. Mas quem gastou tempo conversando comigo sabe, e eu agradeço para sempre.

Bem, para terminar a história, além de mim, outra colega também sofreu perseguição na editora. Foi convidada a se retirar peremptoriamente, sob o eufemismo de “dimensionamento da força de trabalho” (contém ironia) e sem nenhuma justificativa plausível foi colocada à disposição da PROPESSOAS.

À guisa de conclusão, o que quero enfatizar, é que o personagem que engendrou tudo isso foi nomeado pela representação máxima da Gestão Superior. Foi chancelado pela casta dirigente - essa gestão acidental que nos restou desde 2022.

E agora pergunto: Será que uma das chapas aceitará apoio dessa gestão, que nomeia e chancela perseguidores, ao mesmo tempo em que publica uma resolução para prevenção ao assédio (piada pronta)? Isso para mim é um ponto crucial.

No início das minhas considerações, eu me referi às “candidatas” porque, por ora, temos duas candidaturas manifestas, de duas mulheres valorosas, cujas trajetórias têm todo o meu respeito. O que não se sabe ainda é sobre outras possibilidades, sobre o despontar de uma terceira via, uma quarta, por que não? Se a Universidade é um lugar de exercício da democracia, seria salutar que o debate se ampliasse para além de duas chapas.

Por fim, mas não menos importante: a matemática, a meu ver, é bem simples antes de votar - como será a partir do ano que vem? Quem recebe apoio, tem uma “dívida” com os apoiadores. É do jogo político, e é assim que funciona: quanto a isso, nada de novo debaixo do Sol. Mas a minha pergunta é: como a próxima gestão pretende lidar com as figuras que acossam e afligem colaboradores? Os perseguidores continuarão em postos de comando?

Fica o convite à reflexão.

*Zenilde Nunes Batista. Eleitora no processo eleitoral UFG 2025. Negra. Secretária Executiva. Egressa da UFG, onde aprendi a exercer a criticidade.