O Padre Egídio de Carvalho Neto da Paróquia São Virgílio em João Pessoa, na Paraíba, está sendo investigado por usar notas frias de um hospital para comprar imóveis e bancar uma vida de luxo. O padre foi denunciado pelo Ministério Público da Paraíba por desviar mais de R$13 milhões de recursos que deveriam ser destinados ao hospital Padre Zé, unidade dirigida pelo católico há mais de 12 anos.  

O pároco era diretor-presidente do hospital e foi afastado do cargo e das funções eclesiais. Ele responde a processo canônico, que pode resultar em sua expulsão da Igreja Católica. Os recursos foram usados na compra de carros de luxo, viagens e na aquisição de produtos e serviços pessoais de altos valores, segundo a denúncia que chegou ao MP e que deu origem à investigação.

Com base nas evidências apresentadas, o Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) iniciou a operação “Indignus” com o objetivo de investigar o padre Egídio e duas ex-funcionárias do Hospital Padre Zé, Jannyne Dantas e Amanda Duarte, que anteriormente ocupava o cargo de tesoureira.

De acordo com as conclusões da investigação, os desvios de recursos vêm ocorrendo desde que o Padre Egídio assumiu a direção da unidade de saúde, há cerca de 12 anos. As verbas desviadas foram utilizadas para diversas finalidades questionáveis, como o custeio de passagens aéreas para amigos do religioso, reformas luxuosas e aquisições de alto padrão para a igreja onde Egídio atuava como pároco, situada no bairro Jardim Cidade Universitária.

A operação também descobriu a aquisição de um veículo de luxo com recursos destinados ao combate à Covid-19. Além disso, uma nota fiscal em nome do padre Egídio detalha gastos com iluminação superiores a R$ 90 mil.

Nota fiscal em nome do padre Edígio. | Foto: Divulgação

A denúncia expõe a existência de 16 imóveis registrados em nome do padre Egídio e terceiros, suspeitos de serem laranjas, com transferências que totalizam R$ 200 mil, provenientes do Hospital Padre Zé. Entre esses bens, destaca-se uma propriedade na praia do Cabo Branco, adquirida com “600 mil reais entregues em mãos pela funcionária, com verbas da Ação Social Arquidiocesana e do hospital”.

Para dissipar os fundos das entidades, eram emitidas notas fiscais fictícias, alegando aquisição de alimentos e insumos que nunca foram entregues.

Como começou a investigação

A operação “Indignus” foi iniciada no dia 5 de outubro (quinta-feira), mas as investigações sobre as irregularidades no Hospital Padre Zé começaram quando mais de 100 aparelhos celulares foram furtados da instituição, um caso que se tornou público em 20 de setembro, embora a denúncia tenha sido feita em agosto, resultando na abertura de um inquérito policial. Um suspeito chegou a ser preso, mas está em liberdade cumprindo medidas cautelares.

Padre Egídio deixou a direção do hospital imediatamente após a denúncia do furto dos celulares. Esses celulares, doados pela Receita Federal de apreensões, seriam vendidos em um bazar solidário para adquirir uma ambulância com UTI e um carro para distribuição de alimentos para pessoas em situação de vulnerabilidade.

Durante as investigações do furto, a Arquidiocese da Paraíba anunciou o afastamento do padre Egídio de qualquer função ou cargo eclesiástico, impedindo-o de ministrar missas ou outros sacramentos da igreja.

Após o furto dos celulares, uma denúncia anônima foi apresentada ao Ministério Público da Paraíba, apontando uma série de irregularidades na administração do padre Egídio. Em 3 de outubro, uma força-tarefa composta por órgãos públicos da Paraíba foi criada para investigar essas irregularidades no Hospital Padre Zé.

A administração do Hospital Padre Zé, em João Pessoa, identificou várias dívidas que afetam seu funcionamento após uma avaliação abrangente das áreas operacionais, financeiras e contábeis da instituição. Como primeira medida, solicitou ao Ministério Público da Paraíba a realização de uma auditoria abrangente em todas as contas, contratos, convênios e projetos do hospital.