Nilson Gomes

Valer-se do Judiciário para superar pendência é boa notícia, pois distancia a contemporaneidade dos tempos em que as disputas acabavam em tiros, facadas, atentados. Porém, às vezes, é apenas esperneio inútil, para dar trabalho ao já entulhado poder. Veja-se o caso das eleições deste ano, limpas como foram as demais, desde 1996. Em Goiás, o de sempre: querem segundo turno para senador. Pior ainda: sem a presença do campeão, Wilder Morais, o Messi goiano, pois foi o maior injustiçado de 2018 (como o craque argentino em 2014) e, enfim, triunfou em 2022 (como o craque argentino sobre a França no domingo, 18).

O resíduo sólido é recebido pelos protocolos porque a democracia tem mais essa característica maravilhosa, a de tolerar inclusive o rei da intolerância. A Argentina em crise econômica total, apesar de rica, superou no talento a potência europeia que virou potência europeia saqueando patrimônio daqueles que hoje emprestam para seu time sangue, suor e lágrimas, como se testemunhou na Copa do Catar. Assim foi Wilder diante de quem atualmente o fustiga.

Wilder fez uma campanha espartana. Deve ter torrado para senador menos dinheiro que a maioria dos eleitos à Câmara dos Deputados. Observe-se como Wilder foi vítima em 2018 e 2022:

a contagem de prefeitos que o apoiaram nas duas cabe na mão esquerda do Lula.

2) em ambas, estava no palanque da oposição.

3) foi implacavelmente perseguido pelas pesquisas. Em 2018, todos os institutos viam Wilder como aquele último cavalinho dos gols do Fantástico e, concluída a apuração, obteve entre 400% e 600% de votos além do que as pesquisas lhe atribuíam na semana da eleição. Neste outubro, a mesma covardia: Wilder aparecia na zona de rebaixamento até a 38ª e última rodada do Brasileirão e, acabados os jogos, surgiu como líder.

4) mesmo atingido por fake news do moço da caneta azul, Wilder aceitou o resultado quando perdeu, assim como o principal adversário deve se curvar a sua vitória agora que ganhou.

O que a esgotosfera espetou na Justiça para esfaquear Wilder pelas costas?

Um fanfarrão dono de açougue colocou carne em oferta a preço cujo algarismo repetia o número de urna do presidente Jair Bolsonaro. O mesmo indigitado aparece em fotos com o senador eleito. Eis o crime de Wilder: fazer pose com um fanático político. Não será difícil defendê-lo:

a – Bolsonaro era 22; Wilder, 222.

b – Candidato se deixa fotografar e filmar com tudo quanto é bicho de orelha.

c – Esses zés-paletós, versões políticas das marias-chuteiras, incomodam autoridades como mariposas nas lâmpadas, em busca de mimetizar o brilho alheio.

Picanha pode ter rendido ajuda a Lula da Silva, não a Wilder Morais. Nem os acusadores demonstram interferência dos bifes no inconsciente do eleitorado goiano para senador. Não houve distribuição nem de pelancas, muito menos de filés. Resumindo, inexiste link entre a campanha publicitária da casa de carnes com a campanha eleitoral de Wilder. Só faltou ao embusteiro inconformado alegar que uma rádio comunitária lá de não sei onde largou os cantores sertanejos na lavoura e passou a tocar somente a música “Expresso 2222”, de Gilberto Gil, para influenciar as massas em favor de Wilder. Por esse viés tortuoso, haver um 2 a mais ou a menos não tem nada a ver.

Enquanto o cão ladra, a caravana de Wilder passa os dias a elaborar os projetos que vai protocolar no Senado a partir de 1º de fevereiro.

Nilson Gomes é jornalista, escritor e advogado.